As múltiplas incertezas da volta às aulas

A pergunta não deveria ser se é viável abrir escolas, mas sim o que é preciso fazer para viabilizar essa reabertura

Arte: Laerte

Por Raquel Torres e Maíra Mathias

Em Outras Palavras

O DEBATE ESQUENTA

Um estudo publicado ontem no JAMA Pediatrics jogou mais lenha no (já bem quente) debate sobre a volta às aulas: analisando amostras retiradas do nariz de 145 pacientes com covid-19, os autores viram que crianças podem ter a mesma carga viral que adultos – e que, nas que têm menos de cinco anos, essa carga seria ainda maior.

O que isso significa? É cedo para dizer. O número de pacientes analisados foi pequeno (46 crianças com até cinco anos; 51 com cinco a 17 anos; e 48 adultos com 18 a 65 anos) e a descoberta se refere a fragmentos do material genético do vírus, e não a vírus “inteiros”. Na BBC Brasil, a autora principal do artigo, Taylor Heald-Sargent, ressalta que é necessário seguir investigando: possuir material genético do vírus, desenvolver sintomas e transmitir a doença são coisas diferentes.

Não é simples identificar o papel das escolas na pandemia, porque o fechamento e a reabertura nunca são eventos isolados. No início, vários lugares fecharam ao mesmo tempo escolas e outros serviços, então é difícil separar o quanto cada fechamento impactou na redução dos contágios. Da mesma forma, as escolas voltam a funcionar em contextos de reabertura econômica, daí o mesmo problema em mensurar os efeitos. De modo que a ciência da volta às aulas ainda é muito preliminar.

Mas o presidente do departamento de infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Marco Aurélio Sáfadi, destaca que os estudos observacionais disponíveis até agora mostram um papel pouco relevante das crianças pequenas na transmissão, ao contrário do que se observa na gripe. “Outros coronavírus, como os da SARS e MERS, não tiveram nas crianças uma fonte importante de transmissão. Então, este também pode ser um comportamento de classe dos coronavírus”, avalia ele, também na BBC.

PROBLEMA COMPLEXO

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Uma coisa é certa: não há estudos observacionais sobre a reabertura em países como o Brasil e os Estados Unidos, que têm vários locais com as curvas subindo de forma acelerada. Por aqui, mesmo estados considerados estáveis, como São Paulo e Rio de Janeiro, seguem com números alarmantes (só ontem foram 321 novas mortes e 14.809 novos casos em SP, e 150 óbitos e 1.995 casos no Rio).

Além disso, o Brasil nunca organizou um sistema adequado de testagem e rastreamento de contatos, de modo que, mesmo onde os números ainda são realmente baixos, a tendência é a transmissão crescer e acelerar. Cada nova reabertura representa um novo risco. Mesmo que o das escolas seja mais baixo, ele não é zero. Por outro lado, os impactos do cancelamento das aulas é gigantesco – tanto na formação como na saúde física e mental das crianças, especialmente para as menores. A educação a distância nunca foi uma opção viável para milhões de famílias e não é nada eficaz para determinadas faixas etárias. E, é claro, num cenário ideal, governos teriam pensado nas crianças ao promoverem a reabertura dos outros estabelecimentos e serviços. Afinal, mães e pais precisaram voltar a trabalhar, e filhos pequenos não podem simplesmente ficar em casa e se virar sozinhos.

Como já destacamos aqui na news, a pergunta não deveria ser se é viável abrir escolas, mas sim o que é preciso fazer para viabilizar essa reabertura. Esperar a descoberta de vacinas poderia ser uma resposta, mas, apesar do otimismo com os ensaios clínicos iniciados, não dá para planejar o futuro apenas confiando que um imunizante esteja disponível para a população inteira em pouco tempo. Ter normas de segurança nas escolas é importante, mas não basta. Não existe saída que não passe por uma redução drástica dos contágios e pela capacidade de identificar e controlar novos surtos. Esse deveria ser o foco. E, diga-se, não só em relação à reabertura de escolas: ao contrário do que acontece com crianças, sabemos razoavelmente bem como o novo coronavírus é transmitido entre adultos – o que não impediu a volta insegura de várias atividades Brasil afora.

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Ontem o país registrou1.189 novos óbitos e 58.271 novas infecções. O total chegou a 91 mil mortes e 2.613.789 casos conhecidos de covid-19.

 

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3 comentários

  1. Meu caçula de 17 anos estuda numa estadual aqui em Sampa e já há acordo na família que enquanto não for totalmente seguro ele não volta. Tome o Dória a decisão que for.

  2. Gostaria de saber quem vai jogar seus filhos nessa roleta russa. Há os que já estão trabalhando e como sempre os mais pobres e desvalidos desses é que querem a volta as aulas. Contra a maioria darede escolar pública , que é contra o governo quer a volta às aulas. E como pedadagoga sou contra essa medida. Mesmo porque o roteiro escolar prevê 20 anos de escolaridade e mesmo que a necessidade faça a escolaridade terminar no fim do fundamental vai até 15 anos mais ou menos. Então perder 1 ano de escola não será nenhuma catastrofe. Morrer 1 criança, sim.

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