Atitude de Mercadante denota a frágil e real situação política do governo e do país

Em post datado de 04/08/2015 (ver aqui), intitulado “Lula na Casa Civil do Governo Dilma: por que não?”, sugeri que Lula fosse nomeado ministro da Casa Civil do Governo Dilma (houve quem dissesse que a Carta Maior sugeriu isso em agosto de 2014, mas eu não li esse texto na época e as motivações certamente foram distintas). Foi interessante perceber que muitos dos que foram contra a nomeação de Lula para ministro da Casa Civil do Governo Dilma, que consideraram “ridícula” a nomeação, “absurda”, algo “totalmente inviável”, costumam ostentar, salvo os anti-petistas e direitistas de sempre, um perfil lulista que vê na presença de Lula no Governo Dilma uma forma de prejudicá-lo na corrida presidencial de 2018. Para esse tipo de pessoa, Lula tem mais é que ficar distante de Dilma. Eu discordo completamente dessa ideia, considero um equívoco e tanto, algo sem o menor fundamento.

Nomear Lula hoje para o cargo de ministro da Casa Civil é muito provavelmente a única coisa efetiva a se fazer, ainda mais depois do que o atual ministro, Alozio Mercadante, fez quando compareceu, ontem, à Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados. Mercadante, movido certamente por um certo desespero que acomete o Governo Dilma, o que deixa muitos sem pensar direito e sem a frieza necessária, reflexo da real fragilidade política que o atinge fortemente, reconheceu erros do Governo Dilma, elogiou o PSDB (!), o principal partido de oposição que apoia abertamente o impeachment da presidenta Dilma, e propôs um acordo “suprapartidário” para resolver a gravíssima crise política pela qual atravessa o país, tendo apelado para que os parlamentares agissem com responsabilidade fiscal na hora de votar projetos que impliquem gastos para o governo. O clima é certamente desesperador para que ele chegasse a esse ponto. O desespero não justifica o desastre político que foi o tom acuado diante do PSDB, mas ajuda a entender. Aécio Neves, ao se pronunciar sobre as declarações de Mercadante, que elogiaram o “controle da inflação” e “estabilidade” obtidos na era FHC, falou entre risos e tratou logo de reiterar as acusações de que a presidenta Dilma Rousseff mentiu ao país durante a campanha quando atacava a era FHC e quando negava a situação de crise que, segundo ele, já existia naquela época.

O Governo Dilma precisa reagir contra esse estado de coisas, sob pena de um sério risco de não chegar ao fim do ano. Precisa de uma medida propulsora, como a presença de Lula entre os seus ministros. Virou algo do interesse do país, do governo, do partido e do próprio Lula.  Qual o argumento para ele não ir? Qual o problema? Por que Lula, em vias de ser colocado na cadeia por um juiz federal de primeira instância (não evitar isso é que seria ridículo, infantil, para dizer o mínimo, coisa de amador que não sabe pensar estrategicamente), não pode ser ministro? Em qual cartilha estão proibindo isso? Como até agora eu não vi, eu gostaria muito de ver argumentos sensatos, lógicos e racionais para não fazer uma coisa que é boa para o país.

Os únicos argumentos que eu vi contra são ora pueris (“é apelação”, “Lula não vai aceitar ser subalterno”, “Dilma será ofuscada”), ora conotativos do famoso “caldeirão” anti-Dilma de uma certa ala lulista pitaqueira e sem capacidade para agir, além de ficar enfurnada em blogosfera pregando para convertido e achando que isso é “fazer política”, a qual defende que Lula deve manter distância do Governo Dilma “para não se queimar”.

O post intitulado “Lula na Casa Civil do Governo Dilma: por que não?” teve uma repercussão e tanto (atualmente com mais de 4800 compartilhamentos) e continua tendo. Pode não acontecer nada disso, de Lula ser nomeado ministro do Governo Dilma (Casa Civil, por exemplo, que foi o que eu sugeri).

Mas eu quero ver o que vai acontecer quando Lula for preso e o impeachment estiver na iminência de ser implementado. Sim, porque isso está previsto para ser, no mínimo, tentado. Michel Temer já ensaia os passos para assumir o poder, recebendo inclusive tratamento assim da grande imprensa (ver um exemplo clicando aqui). E aí eu quero ver, entre muitos daqueles que ainda hoje se declaram defensores dos avanços proporcionados pelos anos de governo do PT, a verdadeira mania ridícula do brasileiro de choramingar pelos cantos como “vítima indefesa”, que não sabe nem cuidar da própria vida direito e precisa sempre encontrar culpados pelos seus próprios fracassos pessoais. No caso, tendo opções para ao menos tentar resolver o problema, ficaram com medo, titubearam, vacilaram, enfim, não tiveram o discernimento nem a hombridade necessária para tomar a decisão correta quando o momento chegou.

Do jeito que vai, não é absurdo supor que Lula pode ser preso até o fim do mês. Ou então nas vésperas do impeachment. Mera questão de tempo. Quando vir o ataque em massa, ele será para fulminar o Governo Dilma e o que ainda resta do PT. Será uma verdadeira blitz, incansável, ininterrupta. Com Lula preso, nas atuais condições, será o fim do PT enquanto partido apto a assumir o poder em Brasília. Atualmente, não existe PT sem Lula. Não deu tempo ainda de construir ou consolidar os quadros futuros de liderança. O único promissor neste sentido é Fernando Haddad.

São coisas assim que estão em jogo hoje em dia, além da situação do país. Não é um momento onde se pode vacilar, titubear, ficar com amadorismo. A atitude de Mercadante, antes de ser motivo de piadinha, devia ser motivo de profunda reflexão. Você acha mesmo que ele fez isso por que é um mero ingênuo, incompetente, político sem visão ou um homem sem dignidade? Mercadante demonstrou estar é desesperado, porque sabe o que pode acontecer com o Governo Dilma, com o PT e com o país. A atitude dele ontem é denotativa disso, do que o governo sente que pode acontecer se não conseguir contornar a crise política. O Governo Dilma perdeu a liderança, a autoridade política e moral e precisa sim da ajuda, da contribuição de Lula. Se ele e os demais lulistas vão abandonar o barco, bem, aí realmente será não só lamentável, desonroso e indigno. Será uma extrema estupidez. Porque ninguém vai acabar com o Governo Dilma e deixar “Lulinha paz e amor” por aí, “livre, leve e solto” para tentar um retorno em 2018. Só estou vendo as coisas como elas são.

O Governo Dilma e Lula estão atrelados. Salvar o Governo Dilma é compromisso de Lula (até porque Dilma é criação política de Lula) e compromisso de todo o PT. Se Dilma cair, Lula cai junto, com chances reais de ficar um bom tempo na cadeia, o que abreviará e muito a sua vida, considerando os problemas de saúde pelos quais ele passou. E sem qualquer chance de ser protegido, pois o poder já estará na mão de outras pessoas e os acordos para a nova realidade já terão sido feitos. É assim que a banda tocará e sempre tocou em qualquer lugar do mundo onde as regras democráticas ainda não estão consolidadas, quando a sociedade não possui uma cultura democrática sedimentada em suas bases, caso clássico do Brasil, país golpista por execelência, vide a sua história. Não existe bonzinho em política.

Como ministro, Lula só poderia ser processado por crime comum perante o STF (art. 102, inciso I, alínea “c”, da Constituição Federal). A politicamente instrumentalizada Operação Lava-Jato, via juiz federal Sérgio Moro, não o alcancaria mais. Somente uma nova ação recebida pelo STF.

Pelas próprias condições físicas impostas pela carceragem a que são submetidos, o que inclusive já foi noticiado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim (ver o vídeo do programa “Conversa Afiada”, que trata de uma denúncia feita por um dos advogados dos réus por meio de documento apócrifo, clicando aqui), os réus da Lava-Jato todos os dias são pressionados para “delatar” Lula em troca de benefícios nas penas, e, ontem, o site Pragmatismo Político divulgou uma matéria sobre as pressões que supostamente réus da Operação Lava-Jato sofrem para “delatar” Lula (ver aqui). Bastará que um deles construa uma estória qualquer que se adapte aos fatos e um único pagamento apenas seja considerado, pela acusação, propina de corrupção (isso se a estória, a se julgar pelo clima que vem sendo denunciado por alguns jornalistas, já não lhe for apresentada dessa forma e o delator apenas tiver o trabalho de assinar ou encenar a delação, com todo mundo conivente, advogados inclusive). Será o suficiente para mandar prender Lula. Um pagamento ao Instituto Lula ou até mesmo uma palestra dessas que ele fez nos últimos anos, desde que saiu do governo. Vão dizer que, no valor cobrado, existe embutida a parcela da propina etc. E muita gente vai acreditar, afinal, é a “quadrilha do PT” e ele é o “chefe”. Pronto, será isso o que vai acontecer. Aí a ala lulista vai em coro choramingar na blogosfera e dizer-se perseguida, numa cerimônia patética de autocomiseração.

Podem até chegar a acusar o gestores do Instituto Lula de lavagem de dinheiro. Isso não é nada improvável. Lula será considerado o principal beneficiário. Quebrarão o sigilo bancário dele, farão uma devassa nas contas de parentes etc. É disso aí que se trata o cenário que pode estar próximo de acontecer. Tudo isso que se abaterá sobre Lula se espalhará para todos os lados da esquerda, dos movimentos sociais e populares. Será um desgaste generalizado. Mercadante se humilhou daquela forma porque ele é do Governo Dilma e ele conhece de perto o que o país está passando. O tom é sim de desespero. Está redondamente enganado quem pensa que o cenário é diferente desse que eu falei. A propósito, eu não sei quem do PT anda mandando os deputados do partido não enfrentarem o Eduardo Cunha em suas bravatas e incursões contra o Governo Dilma. Aliás, são curiosos alguns lulistas: criticam o Mercadante com tanta virulência, mas silenciam em relação à capacha e inoperante bancada do PT, que não fala nada do político que mais tem prejudicado o país, que é Eduardo Cunha.

O que Mercadante fez foi um erro político e tanto, além de não gerar qualquer efeito prático, ter sido pura perda de tempo. Não serviu para nada, a não ser para se colocar numa situação humilhante extremamente constrangedora. Ele agiu em desespero. Lula quer que ele saia de lá, da Casa Civil. Eu também acredito que ele deve sair. E quem deve entrar é Lula. Não adianta querer ser apenas A estrela do PT e da esquerda brasileira. Alguns acham que ele não tem a humildade suficiente para ser “apenas” ministro, o que pode ser verdade. No entanto, se não pensar bem na possibilidade, pode não ter mais tempo para brilhar no futuro.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome