Bolsonaro criou o bolsonarismo ou o bolsonarismo criou Bolsonaro?, por Rogério Maestri

Bolsonaro criou o bolsonarismo ou o bolsonarismo criou Bolsonaro?

por Rogério Maestri

Para entendermos a resiliência do governo Bolsonaro, é importante a determinação do que é causa e do que é efeito, pois adiantando um pouco o raciocínio se Bolsonaro tivesse criado o bolsonarismo no momento que esse falhasse totalmente em todas as suas tarefas o movimento que leva o seu nome desapareceria perdendo toda a sua base política. 

Para explicar o que é o bolsonarismo temos que enquadrá-lo corretamente numa determinada posição política no caso o fascismo, mas precisamos antes de tudo utilizar o exemplo de Bolsonaro para desmistificar falácias que são contadas sobre o fascismo, sendo uma tarefa difícil pois a origem e o desenvolvimento do fascismo ficam encoberta por explicações quase que mágicas que tentam encobrir essa forma de governo para não mostrar a sua verdadeira face. 

Um exemplo de uma distorção da explicação do que venha ser o fascismo é o texto conhecido por muitos e citado em abundância de um grande intelectual italiano que escreveu uma espécie de manual de identificação do fascismo, o texto denominado: “O Ur fascismo ou O fascismo Eterno” de Humberto Eco. 

Esse intelectual italiano, por razões que no momento não vem ao caso, coloca 15 características do fascismo que presentes num governo poderiam numa combinação ser definidas como fascismo, mesmo que duas ou três características não estivessem presentes, porém sem chamar muito a atenção em nenhuma das características citadas não estão incluídas características econômicas dos regimes fascistas. 

Humberto Eco simplesmente ignora que o fascismo é gerado em sistemas capitalistas em crise e que exatamente devida a origem da sua existência todos os governos fascistas, desde os canônicos o Italiano e o Alemão, bem como os periféricos como o Franquismo e o Salazarismo, em todos esses e mais outros não tão conhecidos uma característica é constante e presente, a adesão ao modo de produção capitalista e o mais importante, essa adesão sempre beneficiando não o pequeno produtor mas sempre a grande burguesia do país, que poderemos chamar de oligarquia. 

As características citadas pelo trabalho de Eco, como ele mesmo deixa claro no seu texto, não são todas necessariamente existentes nos regimes que ele considera regimes fascistas. Para exemplificar melhor a falha da lista de características do Fascismo adotada por Humberto Eco, colocarei de forma abreviada para ficar claro a sua falha. 

  1. Culto da tradição. 
  2. Recusa da modernidade. 
  3. Culto da ação pela ação. 
  4. Não aceitação de críticas. 
  5. Racista por definição. 
  6. Provém da frustração individual ou social. 
  7. Apelo à xenofobia. 
  8. Sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. 
  9. Não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. 
  10. O líder conquista o poder pela força baseando-se na debilidade das massas que merecem um “dominador”. 
  11. Culto ao heroísmo ligado ao culto da morte. 
  12. Transfere sua vontade de poder para questões sexuais, origem do machismo. 
  13. Os indivíduos não têm direitos e “o povo” é uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”. 
  14. O fascismo fala a “novilíngua” com um léxico pobre e em uma sintaxe elementar. 

Se olharem com cuidado as características citadas por Humberto Eco em nenhum ponto está citado como o regime capitalista sendo a base econômica, a intransigente perseguição a esquerda, a perda dos direitos trabalhistas dos trabalhadores, a formação de uma casta burocrática dirigente que não precisa ser eficiente, mas sim vinculado ao partido único e outras características que mostram a origem do fascismo como uma solução para um sistema liberal falimentar, sendo esse substituído por um regime de partido único. Para compreender os erros do texto de Humberto Eco, não se deve procurar o que ele errou, mas sim o que ele ignorou. 

Várias das características do fascismo previsto por Eco são encontradas no governo Bolsonaro, mas com uma diferença fundamental dos regimes fascistas canônicos, são mais cópias farsescas do que uma realidade encontrada nos verdadeiros fascismos. Essas farsas são originárias de uma característica que não coloquei até aqui, que é a existência de um líder (Duce, Führer), com características pessoais que são negadas por toda a oposição ao fascismo e não estão presentes em Bolsonaro, tais como, inteligência, perseverança, capacidade de liderança e carisma. 

Fica claro que a diferença principal de Bolsonaro para qualquer líder fascista é que o líder cria o movimento e não o inverso. Mas cabe perguntar, como é gerado a existência do bolsonarismo? A resposta está exatamente nas características que Humberto Eco se nega a colocar, a verdadeira razão da existência de um governo fascista. 

A razão principal de um governo fascista, é a necessidade de sua existência para combater a crise que é criada no capitalista. 

Poderíamos dizer que tanto o fascismo italiano como o nazismo alemão, não foi o Duce ou o Führer que levaram ao fascismo, mas foi a necessidade das oligarquias de derrotar forças de esquerda com capacidade de assumir o poder ou mesmo se manter no governo, logo procuraram com cuidado aqueles líderes que serviriam a oligarquia. No caso do fascismo italiano a concepção do regime foi desenvolvida por Mussolini, por aproximações sucessivas e abraçada pelo grande capital, já Hitler era um dos diversos líderes fascistas que estavam a disposição na época (como os irmãos Strasser) devido a sua capacidade de oratória e o carisma de Adolf Hitler. 

Agora, como podemos interpretar o que é o bolsonarismo? Podemos dizer que Bolsonaro foi uma improvisação da oligarquia que na falta de um melhor o adotaram como um líder mambembe de um neofascismo incompleto. 

Essa interpretação é importante, pois revela que na ausência de um Bolsonaro, a oligarquia pode procurar alguém que o substitua. O problema principal, que como todos os líderes reais de regimes fascistas, Bolsonaro não permite a criação de um substituto. 

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