“Bom Senso” não existe

Hábitos, valores, cultura, escolhas éticas, estéticas: é possível listar os “certos & errados”?

Por Thiago Venco, em O Labirinto do Desacordo

O chinês solta um sonoro arroto durante o almoço; a brasileira fica indignada: “Mas que barbaridade! Este homem não tem educação, não tem um mínimo de bom senso!

Esta cena (real) é um clássico exemplo de como simples diferenças culturais são suficientes para constatarmos que  o “bom senso” de alguém não será o “bom senso” do outro. A brasileira não sabia que em muitos países do mundo arrotar à mesa é algo natural – ou até mesmo… desejável. O chinês agiu com total “bom senso” – quer dizer, de acordo com aquilo que sua cultura convencionou chamar de “bom senso“. Tais anedotas culturais são divertidas; turistas adoram narrar seus “choques culturais” aos amigos.

 

Mais difíceis, porém, são as divergências de “bom senso” na família e no trabalho”. Quando diante de um desacordo familiar ou trabalhista, uma das partes “evoca” o bom senso como argumento, pode ter certeza: a negociação vai mal, muito mal.

 
Alguma dúvida sobre estes trabalhadores estarem em péssima relação com os patrões?
 

O primeiro perigo desta linha de pensamento reside na crença de que seja possível “TER bom senso“: quando foi que esse conceito tão abstrato, imaterial (valores, princípios, ética) se metamorfoseou em um “objeto” – algo que se possa possuir, ou carecer? Como se difunde a noção de que “alguns TEM e outros NÃO TEM bom senso“? Como é possível tratá-lo como se fosse um bem físico que se possa obter, guardar, armazenar, trocar? Seria o bom senso um tipo de “recurso natural”???

 

Outro risco comum ao exigir do outro “um pouco de bom senso” é injetar na frase uma dose de “obviedade” – por exemplo, “ora, é desnecessário explicar, detalhar meu ponto de vista, basta ter bom senso para entender, é tão óbvio…” – ou seja, quem não entende as normas invisíveis é burro, inepto ou incapaz. Ou “pobre de espírito”: alguém que “carece de recursos”, que “passa necessidade”, pois não conseguiu TER acesso ao “bom senso“, por falta de boa educação… ou falta de caráter?

 

Assim, quem evoca o bom senso numa disputa está seriamente inclinado a determinar uma posicão hierárquica superior e outra inferior.

 

“Os que sabem” prevalecem sobre os “que não sabem”; os “sem bom senso” estão no prejuízo e precisam adaptar-se ao ambiente dominante, mudar seu comportamento para se adequar às normas tácitas que regulam as relações sociais naquele contexto. Uma péssima forma de buscar um acordo mediado é partir do princípio “eu sou melhor que você“.

 
E se eu dissesse que a demonstração de amor homoafetiva é uma forma de ódio à minha religião? Xiii… o bom senso não te leva longe se o assunto é complexo. Bom senso, enquanto remédio, é tipo uma PASTILHA VALDA.
 

No entanto, a ideia de “adaptação” é interessante e surgirá de modo bastante específico na proposição teórica que faremos sobre o problema da imprecisão do bom senso.

 

* * * * * *

ANTES DE ENTRAR NA TEORIA, VAMOS ILUSTRAR O PROBLEMA COM QUESTÕES QUE SURGEM DE UM CASO REAL:

 

Uma amiga relatou o seguinte dilema: ela iria passar uma semana de férias com seus três filhos, hospedada na casa de sua mãe – que havia se casado novamente. Minha amiga não queria incomodar seu padrasto (ela tem três crianças pequenas…) e perguntou logo ao chegar: “Padrasto, me explique as regras da casa para que eu possa combinar com meus filhos qual a conduta esperada aqui“. Ele respondeu num tom gentil e afável:

 

“Não temos regra nenhuma; apenas usem o BOM SENSO”.

 

O anfitrião quis parecer gentil, mas ele apenas piorou as coisas para sua convidada: certamente o “bom senso” de um senhor de mais de 60 anos não é o mesmo de três crianças (1 ano, 3 anos e 8 anos) – nem sequer o mesmo que o dela, que viveu em outra época, com outra família, outros contextos. O “bom senso” torna-se um enigma a ser decifrado: As crianças devem sentar à mesa junto com os adultos? Se os pequenos quebrarem algo da casa, ela pode repreendê-los ou perdoá-los como preferir? As perguntas são infinitas; existem avós famosas por permitirem que seus netos brinquem enlouquecidamente nos sofás e outras que tem pavor de crianças mexendo nos bibelôs da mesinha de café.

 

O bom senso de uma avó pode ser “criança tem que brincar como quiser” e o da outra pode ser “crianças tem que aprender a respeitar o espaço dos outros”.

 

Talvez o padrasto-anfitrião tenha pensado: “Não tenho uma lista de regras na minha casa. Apenas não quero que eles passem do limite“. Aí está o problema: regras são muito fáceis de entender, até para uma criança pequena – SIM e NÃO, pode ou não pode, certo & errado. Regras são muito diferentes do “LIMITE INVISÍVEL do bom senso“: regras são objetivas, o limite do “bom senso” é subjetivo – ou seja, depende do ponto de vista de cada sujeito.

 

Por quê é tão difundida a falsa ideia de que o “bom senso” seja um conjunto universal de boas práticas – que algumas pessoas “bem educadas” conhecem e praticam, enquanto as “mal educadas” ignoram tal “enciclopédia dos bons hábitos”?

 
Será que seria possível discutir a opção do parto em casa usando argumentos de “bom senso”? Não. A discussão naufragaria rapidamente, pois existem argumentos complexos de ambas as partes, sendo debatidos exaustivamente pela sociedade. Na foto: família Diener, do Potencial Gestante
 

Queremos nos aprofundar em uma hipótese em especial; por isso, vamos elencar as explicações populares, para não perdermos o foco mais tarde:

 

– Dificuldade de entender que aquilo que é diferente não é necessariamente errado.

 

– Indiferença ou ignorância sobre a variedade de culturas; considerar que sua própria cultura é a “norma”, enquanto as outras seriam “excentricidades”.

 

– Resistência à noção de que o que é bom para um pode ser mau para outro; não existe um fundamento único, preciso e indiscutível, sobre o que seja o “bem” e o que seja “o mal”.

 

* * * * * *

 

Para sairmos do Labirinto do Desacordo, precisamos fugir das afirmações genéricas (senso comum?); precisamos de uma investigação profunda e localizada sobre o assunto para funcionar como nosso fio de ariadne: hoje nos fiaremos na visão dos filósofos pragmáticos.

Ou melhor: filósofos pragmaticistas. Já no século XX, C.S. Peirce decidiu ajustar o termo para melhor definir sua pesquisa: aparentemente, desde o início a palavra “pragmático” foi pervertida e transformada em um adjetivo que ganhou sentido próprio – algo que qualifique uma estratégia de “mão na massa”; uma falaciosa ideia de que a discussão teórica seria inferior à experimentação prática; ou pior ainda, um tipo de cinismo, que considera que mais importante que a discussão/investigação dos conceitos e métodos, seria prioritário lidar com os problemas aplicando quaisquer meios práticos capazes de resolvê-los (ainda que estes “meios” impactem negativamente outros indivíduos, grupos ou meio ambiente).

 
Seus trabalhos apresentam importantes contribuições à lógica, matemática, filosofia e, principalmente à semiótica. É também um dos fundadores do pragmatismo, junto com William James e John Dewey.
Em 1934, o filósofo Paul Weiss o considerou como “o maior e mais versátil filósofo dos Estados Unidos e o maior estudioso da lógica”
 

Se você quiser ler mais sobre a abordagem que faremos agora, clique aqui para ler o texto de Erkki Kilpinen, da Universidade de Helsinki, Finlândia: Hábito, Ação e Conhecimento na Perspectiva Pragmatista.

* * * * * * *

 

A chave que os pragmaticistas nos fornecem para o problema do bom senso parece simples, mas não é: trata-se de inverter a ordem do seguinte modelo de crenças:

1. CONHECIMENTO > 2. AÇÕES > 3. HÁBITOS

 

1. CONHECIMENTO: Neste padrão, o ser humano ou “possui um conhecimento” (nasce com ele?) ou “entra em contato com um conhecimento“. Seja como for, prevalece a noção de que o conhecimento é a origem das ações do humano – um conhecimento ideal, científico ou religioso, um conhecimento que é maior que o ser humano, que está disponível no mundo para ser “aprendido”; assim, o “bom senso” seria um tipo específico conhecimento “a priori”, que vai determinar as ações do sujeito.

 
O conhecimento bem de lá de cima, ó: do mundo das ideias. Platão.
 

2. AÇÕES: Ao “tomar contato” com o conhecimento, o humano aprende que pode ou deve agir de um modo específico; ele transforma voluntariamente suas atitudes, ele se empenha, ele se esforça – pois ele sabe, aprendeu, o valor de agir de determinado modo. Neste sentido, suas ações diferem das batidas do coração – o homem decide agir de certo modo, ele usa seu livre arbítrio orientando-se pelo conhecimento que adquiriu.

 

3. HÁBITOS: Após praticar bastante, estas ações se internalizam de tal maneira que ele manifesta aquele conhecimento na prática, como um hábito. No limite, um “homem de hábitos” seria “escravo de uma rotina repetitiva e impensada“. Por exemplo, você não pensa toda vez qual é o caminho de sua casa – você simplesmente percorre esse caminho. Também poderia considerar que um sujeito que se joga na frente de um carro para salvar uma criança introjetou de tal forma um conhecimento, um valor, que ele nem sequer hesita: seus hábitos permitiram que ele agisse sem pensar, de modo positivo.

 
Essa criança, assim como a maioria da humanidade, tem uma noção bastante distorcida do que venha a ser o “hábito”…
 

Assim opera o entendimento popular, convencional, do que seja o “bom senso”:
1. Você entra em contato com o conhecimento original que define o certo e o errado
2. Você pratica este conhecimento durante sua vida; com o sucesso de suas atitudes, você vai confirmando para si e para os outros que é guiado pelo “bom senso”.
3. Seu “bom senso” se torna natural, sem esforço; você simplesmente manifesta o “bom senso” em cada gesto, palavra, entonação.


* * * * * * * * * * *

 

A grande mudança de paradigma que os pragmaticistas enxergaram foi a seguinte:

1. HÁBITOS > 2. AÇÕES > 3. CONHECIMENTO

 

1. HÁBITOS são uma das peças fundamentais para entendermos a revolução no pensamento proposta pelos pragmaticistas; a mudança sobre o entendimento deste fenômeno foi tão grande que perderemos a riqueza desta abordagem se a subestimarmos como um “comportamentalismo”.

 

O hábito deixa de definir aqueles comportamentos condicionados, cristalizados e repetidos”; para os pragmaticistas, existe pensamento, processo cognitivo no hábito.

 

Os pragmaticistas viveram a profunda ruptura no pensamento filosófico e científico causada por Darwin e seus conterrâneos Spencer, Huxley, Mill; a “Origem das Espécies” e sua ideia de “Seleção do Mais Apto” representava uma necessidade de pensar a mente humana enquanto uma continuidade da mente dos seres primitivos – o homem deixava de ser um privilegiado “animal dotado de razão, criado por Deus com uma racionalidade que Ele não concedeu aos outros”.

Agora, evolucionistas e pragmaticistas queriam entender justamente o que havia em comum nos processos cognitivos de todos os seres vivos. E então debruçaram-se sobre os Hábitos como uma espécie de “elo perdido” que os conectava.

 
Ele não precisou construir 1000 casinhas para “pegar o hábito”!
 

Ou seja: independente de sua capacidade de “produzir conhecimento”, antes de “raciocinar” os seres vivos reagem ao mundo; confrontam-se com situações do mundo externo que demandam que ele as perceba (um predador!);  ele delibera (qual predador?); por fim, decide como agir (melhor me esconder do que tentar fugir…).

 

E o melhor: os seres vivos ERRAM! A noção do erro enquanto princípio fundamental da existência começa o trabalho de demolição do “bom senso“. A adaptação ao conjunto “local” de normas de conduta é um processo muito mais rico do que a falsa noção de “saber X não saber” ou “TER bom senso X NÃO TER bom senso“.

 

Naturalizar o erro é muito bom para aceitarmos a capacidade de “auto-correção” – ou seja, pegando o exemplo banal do chinês que arrota: e se a brasileira preconceituosa, em vez de classificar o estrangeiro como um “porco ignorante socialmente inepto”, tivesse começado a explicar que no contexto onde o chinês estava, arrotar poderia ser percebido como algo desagradável?

 

Aqui fica evidente que os seres humanos constroem padrões de comportamento de acordo com o ambiente em que vivem; mas é fato que existem incontáveis “ambientes” e é totalmente natural que a adaptação a um novo ambiente demande um ajuste nos hábitos. A noção de “bom senso” apenas dificulta, se não impede, a fluidez destas dinâmicas de adaptação social.

 

Ou seja: o “bom senso” pode ser visto como uma forma de controle social, de manutenção da homogeneidade de um grupo, criando barreiras e resistências a comportamentos “estrangeiros”.

 
Extremo bom senso – sem brincadeira. Faz todo o sentido em Papua Nova Guiné.

 

 
 

Para concluir a exposição do conceito de hábito, Peirce estava em busca de uma expressão que desse conta de um comportamento “potencial” (instintivo?) que fosse acionado por um “gatilho” externo. No limite, a capacidade de uma cabeça de fósforo pegar fogo, seria um “hábito” do fósforo diante da fricção com superfícies ásperas. Neste sentido, ele busca entender a fundo como os animais podem “saber” logo ao nascer que “devem” ir até os seios de sua mãe e “mamar”. É essa reação irracional ao mundo que Peirce está chamando de hábito.

 


2. AÇÕES, do ponto de vista pragmaticista, deixam de ser um esforço de sustentar uma  “coerência perante o conhecimento que fundamenta meu modo de agir”, para ser visto enquanto um processo contínuo de tentativa e erro, uma dinâmica de retro-alimentação entre mente e realidade – que pode vir a produzir conhecimento!

É diante do “atrito” com a realidade, após avaliar o resultado das práticas, após realizar os ajustes necessários, o homem (e os animais…) começam a expressar uma consistência em seu comportamento – em sua conduta, em suas decisões, em sua ética, portanto.

 

Peirce não se interessa pela hierarquia hábito-ações: na verdade, em sua pesquisa original que o levou a se tornar um dos fundadores da semiótica, ele forneceu algumas ferramentas teóricas que permitem desfazer, ao menos em parte, essa distinção: hábitos seriam a expressão fundamental de uma mente viva. Em vez de “penso, logo existo” de Descartes… um “ajo, logo existo”?
 

 

3. CONHECIMENTO: a repetição e o “sucesso” destas decisões instintivas consolidam um conjunto de ações, um padrão consistente, que pode começar a ser observado, julgado, analisado e comunicado, de forma a transformar-se em conhecimento – um pensamento geral sobre o mundo.

 

Para Peirce, a capacidade argumentativa seria a exclusividade dos seres humanos. Uma capacidade de transformar a experiência em uma lógica, em ciência. Ele estava interessado em minar o dualismo “mente/corpo”, ou seja: a capacidade científica é biológica, orgânica; o conhecimento é animal, concreto – e não uma inspiração divina ou uma “substância ideal que acessamos com nossa alma”.

 
A semiótica possui um projeto de pesquisa capaz de unir os processos cognitivos mais simples aos mais complexos numa só lógica, fundamentada em processos de comunicação entre os seres vivos e a realidade
 

O conhecimento do “bom senso“, portanto, jamais poderia ser universal – ele é sempre subjetivo, sempre relacionado à experiência pessoal e intransferível. Pois o conhecimento é o resultado da fricção da pessoa em sua existência! A pessoa pode “aprender” a ter “bom senso” – afinal, ela precisa sobreviver num ambiente competitivo & cooperativo (leia nosso texto “A Evolução da Cooperação”); aprender a ter bom senso é adaptar-se! Não é “ser ou não ser” – é “necessitar vir a ser”.

 

* * * * * * * * * *

 

PARA CONCLUIR:

 

É muito grave que em relações trabalhistas, um superior hierárquico invoque o “bom senso” para dar seu veredito sobre determinado problema de conduta – ou mesmo de competência. Pois a única mensagem “verdadeira” que ele estará mandando ao alegar “falta de bom senso” ou “necessidade de usar o bom senso” é:

 

“Submeta-se ao império do subjetivismo; tudo o que eu quiser considerar correto, assim o será; seu papel não é aprender, é saber. Não existem diferentes realidades nem pontos de vista neste trabalho – existe apenas a minha realidade, o meu ponto de vista. Questionar a minha noção pessoal de ‘bom senso’ o colocará em permanente condição subalterna, inferior”

 

Desconfie: deve ter apenas uma ou duas utilidades… as outras 999 são pura retórica, pura dominação disfarçada de “boa educação”!

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Leia também:  O que esperar da guerra de Bolsonaro contra o jornalismo em 2020?, por Rogério Christofoletti

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome