Brasil atrapalhava planos dos EUA para América do Sul, diz ex-embaixador

As análises de Shannon, hoje consultor do escritório de advocacia Arnold & Porter, abrem mais algumas páginas no capítulo norte-americano da "lava jato"

Ex-embaixador dos EUA diz que país acompanhava de perto movimentos do Brasil para criar grupo coeso e forte de países sul-americanos. Foto: Divulgação/US Department of State

da Consultor Jurídico – ConJur 

Brasil atrapalhava planos dos EUA para América do Sul, diz ex-embaixador

O governo dos Estados Unidos acompanhava com bastante atenção — e preocupação — as iniciativas do governo brasileiro de criar um bloco político forte e coeso na América do Sul. Especialmente na forma como a construtora Odebrecht havia se tornado parceira do governo nesses planos. Quem conta é o ex-embaixador dos EUA no Brasil Thomas Shannon, que ficou no posto entre 2010 e 2013.

O principal foco de atenção, afirma, eram as relações entre Brasil e Venezuela. “O Brasil identificou o modo como a Venezuela direcionava sua indústria de petróleo de modo a se integrar com o mercado americano. Então, algo precisava ser feito para trazê-la à América do Sul”, conta o diplomata, mencionando a crescente animosidade entre o então presidente venezuelano Hugo Chávez e os Estados Unidos. O pano de fundo era o projeto brasileiro de “construção de uma grande e coesa América do Sul”, diz Shannon, hoje consultor do escritório de advocacia Arnold & Porter.

Shannon falou a jornalistas do site Poder 360, da revista Época e do jornal Miami Herald, dos EUA, parceiros da associação de jornais Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo (ICIJ, na sigla em inglês).

De acordo com o ex-embaixador, as intenções do Brasil ficaram claras com o financiamento do BNDES ao porto de Mariel, em Cuba. A obra foi tocada pela Odebrecht e o banco investiu R$ 624 milhões. Ela colocaria o Brasil como importante ator nas relações internacionais no Caribe, especialmente diante da postura do governo americano na época de manter os embargos a Cuba, mesmo com os sinais de abertura econômica.

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Shannon afirma que os EUA acreditavam que o Brasil caminhava para a construção de um bloco internacional coeso de orientação progressista e de esquerda. Isso seria um obstáculo à reanimação da Área de Livre Comércio das Américas, ou Alca, um projeto dos governo dos EUA de criar um bloco comercial com incentivos tarifários, mas que foi rejeitado pelos países latino-americanos.

Car wash

As análises de Shannon abrem mais algumas páginas no capítulo norte-americano da “lava jato”. A Odebrecht assinou um dos maiores acordos de leniência da história com o Departamento de Justiça dos EUA (DoJ). E ele só foi possível graças ao livre trânsito de informações e provas entre os procuradores do DoJ e os procuradores da “lava jato” em Curitiba. Entre as provas, extratos de contas da construtora nos EUA.

O acordo de leniência prevê pagamento de R$ 8,5 bilhões pela empreiteira, dos quais 80% foram enviados ao Brasil — e glosados pelo MPF em Curitiba. Em troca de abrir mão do dinheiro, os EUA exigiram a presença de um “monitor externo de cumprimento do acordo”, para que faça relatórios a cada 120 dias.

Esses relatórios “provavelmente incluem” informações “proprietárias, financeiras, comerciais e concorrenciais sigilosas”, diz o acordo.

O que Shannon conta, portanto, é que o MPF brasileiro ratificou um acordo em que uma empresa brasileira, reconhecida pelo governo americano como importante para os interesses do governo brasileiro, se comprometeu a enviar aos EUA relatórios sobre suas atividades comerciais.

6 comentários

    • Sim…
      No Nazismo eles pelo menos fingiram que lutavam pelo próprio povo e deram mais renda nacional ao mesmo… Esses aí nos deixam miseráveis e vão passar férias no EUA com tapinhas nas costas… É quele negócio… TRAIDOR MERECE M…

  1. Pensando bem, talvez estejamos fazendo papel de bobos… eu, pelo menos, talvez esteja fazendo. Se se pensar um pouco é impossível deixar de enxergar que os movimentos dos EUA para prejudicar nosso país em nossas aspirações por liberdade, autonomia, soberania e prosperidade vem sendo feitos desde que o PT se elegeu. Sabe aquele negócio de que “se eu não posso vencer pelo menos farei com que você perca”? Os EUA não admitem que sejamos independentes, querem-nos não ao lado deles mas subservientes a eles. É impossível que alguém pense que se fará a democracia, a soberania ou a prosperidade de um país que se subordina a outro. E nesse ponto entram as pessoas agrupadas em restritos círculos que não só se alinham com os EUA como repetem, como um mantra, que nós, Brasil, somos fadados a sermos cachorrinhos do dólar, só porque são, essas pessoas, elas mesmas, esses cachorrinhos.

    Estava na cara que a Lava Jato era parte do golpe, do ataque terrorista dos EUA contra nós. Ninguém pode dizer que o que está sendo revelado pelo Intercept já não era do conhecimento – ou, pelo menos, do sentimento – geral. Todos os que diziam acreditar que Moro era honesto sempre souberam que não era. Assim como ninguém pensa que a Terra é mesmo plana. Isso nunca foi escondido de verdade. Assim tais revelações – na verdade, confirmações racionais daquilo que todos sentimos faz tempo – só surpreendem às pessoas mais ingênuas, das que mais profundamente se alienam de si próprias e do que trazem em si como sentimentos, percepções. Claro que há uma parcela, repito, que está consciente desse movimento e o apoia mesmo sendo cidadão do país prejudicado.

    Fica a questão: ingenuidade ou hipocrisia? Bem… há uma terceira posição: nem ingênuo nem hipócrita e sim bravo defensor do país, pessoa que vê com clareza a potencialidade e as vitórias já realizadas pelo nosso povo, que acredita que não é necessário que deixemo-nos ser dilapidados da forma como temos sido.

    (***)

    As confirmações pelo Intercept, se não forem tomadas com seriedade e patriotismo pelas nossas instituições – Justiça, FFAA, Legislativo, Executivo e organizações civis – podem ser mais prejudiciais do que favoráveis… podem ser o circo que se nos oferece os emissores e controladores do dólar.

    Se agora não é momento para reação a esses ataques, estejamos conscientes, preparados e encaminhando o momento propício.

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  2. Renato Lazzari, parabéns pela sua resposta, muito lúcida e bem escrita, só faltou falar da Rede Globo e de seu papel de subserviência aos Estados Unidos e contra o povo brasileiro. trinta anos de perseguição à Lula e ao PT fez com que até pobres passassem a desgostar do PT. O mantra subliminar e difundido pela Rede Globo era de que o governo do PT “tira dinheiro de quem trabalha, para dar a quem não trabalha”.

  3. O ex-embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, está absolutamente correto. Aqui nos Estados Unidos sabíamos que as políticas internas e externas do presidente Lula para a liderança do Brasil no Caribe e no resto do mundo estavam incomodando e dificultando os planos do governo norte-americano e seu objetivo de continuar controlando as economias latino-americanas. O financiamento do MBL por organizações norte-americanas para derrubar a presidente Dilma e a parceiria nefasta entre o Departamento de Justiça dos EUA, com Sergio Moro e a Lava Jato, foram planejadas e executadas para interromper o progresso econômico e a influência do Brasil no exterior. Além da prisão ilegal de Lula, Moro, Lava Jato e MBL devem ser processados ​​como traidores da soberania brasileira. A submissão de informações proprietárias, financeiras, comerciais e confidenciais de grandes empresas brasileiras aos Estados Unidos constitui a maior evidência da rendição traiçoeira da soberania do Estado brasileiro por Moro, Lava Jato e MBL.

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