“Brazil: the troubled land” ou A cineasta que veio da CIA, por Urariano Mota

    Por Urariano Mota


    Helen Jean Rogers, de chapéu, ao lado de Francico Julião

    O diabo não tem cara do diabo.

    Impressionado com a sua entrevistadora no filme “Brazil: the troubled land”, o economista e intelectual Celso Furtado escreveu anos depois que Helen Jean Rogers, a diretora, era uma personalidade sedutora, relacionada com a Casa Branca. É claro, ele não podia adivinhar o que a bela face ocultava.  E nisso ficamos, ou ficaríamos. Mas há 2 anos, quando procurava as imagens do filme, recebi email de Fernando Martinez Lopez, assistente de fotografia do documentário, que me dizia:  

    “Helen era uma americana bonita e muito inteligente, casada com um cineasta, eles deixaram dois filhos. Para mim, ela era pró-Estados Unidos, pois este filme foi feito justamente para que o Brasil não se tornasse uma nova Cuba”.

    Na semana passada, quando divulguei a descoberta do filme para livre exibição no Brasil,  o leitor Américo Portulano me chamou a atenção:

    “… seria prudente verificar se esta cineasta não foi a ‘estudante’ Helen Rogers, enviada pelos EUA no final da década de 1940, para, como assessora da ala direitista do movimento estudantil, tumultuar a campanha o Petróleo É Nosso. Dentre os registros sobre a Helen Rogers ‘estudante’, um livro de autoria de Arthur José Poerner, cujo título, se não me engano, seria ‘Poder Jovem’, traz informações bastante elucidativas”

    E mais adiante:

    “Em comentário anterior, eu chamava a atenção para a cineasta do documentário – Helen Rogers – mesmo nome de uma agente estadunidense enviada ao Brasil durante a campanha o Petróleo É Nosso, a fim de assessorar os estudantes de direita a tumultuarem a campanha.

    Nos créditos, ao final do documentário, está lá o nome completo da moça: Helen Jean Rogers. Com o nome completo, os resultados de busca no Google (ver links abaixo) não deixam dúvida – é a mesma pessoa, sempre a serviço da CIA. No início da década de 1950 veio como estudante. Cerca de dez anos depois, como cineasta.

    O que parece mais provável é que o documentário – que esteve guardado ‘a sete chaves’, durante cinco décadas – não tinha como finalidade fazer qualquer denúncia, nem levar ao conhecimento da opinião pública, o estado de pobreza e injustiça a que estavam submetidos os camponeses no Brasil. Considero mais provável que a finalidade do documentário foi ajudar a convencer, a quem tinha interesses e poder, a evitar uma solução pela via revolucionária. O golpe de 1964, sob a regência da CIA, não foi, obviamente, planejado e executado sem amplo conhecimento de causa”.

    Então comecei a pesquisa. Logo no começo, pude ver o quanto os norte-americanos naturalizam as atividades dos seus agentes que conspiram contra a liberdade de outros povos. Ou na tradução lá deles, “povos inimigos”, porque agem contra os interesses do capitalismo norte-americano. Se assim não fosse, eles não transformariam esta personagem em herói, fake heroína, melhor dizendo. Se não, vejam o seu perfil numa publicação dos Estados Unidos, aqui podemos ler:

    “Ela estudou na Universidade Católica de Washington onde se graduou com ‘magna cum laude’”  (com grandes honras). Tornou-se uma das primeiras mulheres a ensinar em Harvard. Depois retornou a Washington contratada como produtora de notícias da ABC”. Seguem-se vários trabalhos realizados com o seu marido, John H. Secondari, de Cuba ao continente africano,  mas nada de informação sobre a sua filiação aos interesses secretos dos Estados Unidos, trabalhando como jornalista e cineasta. É o que se pode chamar de uma informação editada. Mas antes, ao lado, há uma pista, nas palavras da própria Helen: “Em 1948-49, eu me mudei para Madison, Wisconsin, para trabalhar por um ano na NSA”. À primeira vista, a sigla NSA significaria Agência de Segurança Nacional, dos Estados Unidos,  que existe, mas cuja função é realizar espionagem eletrônica, de comunicações, textos do mal e email na web, como este artigo. Seria a chave.

    No entanto, pesquisando melhor, pudemos ver que NSA também era a sigla da Associação Nacional de Estudantes, lugar para onde Helen Jean Rogers fora recrutada. Mas ali, a história da UNE norte-americana era outra, mais particularmente nos anos da Guerra Fria, como vemos aqui:

    “O governo dos Estados Unidos pegou novo interesse na política estudantil quando a Guerra Fria começou. A CIA passou a financiar secretamente o setor  internacional da NSA, no início de 1950. Por mais de uma década, um grupo de funcionários da NSA trabalhou em conjunto com agentes da CIA”.  É nesse período que Helen Jean Rogers vem ao Brasil e tem encontros de interesse político e organizativo, com quem? – com  o jovem Paulo Egydio Martins.

    E lemos então na pesquisa:

    “Em março, eu recebi um telefonema de Helen Jean Rogers, dizendo que o líder estudantil Paulo Egydio Martins, secretário de Negócios Exteriores da UNE (sic), estava em Harvard e tinha pedido para o comitê da NSA em Harvard entrar em contato com a UNE no Rio de Janeiro. Isso resultou num convite para a NSA enviar delegados ao Congresso da UNE em julho de 1951, no Rio de Janeiro. Helen Jean, que possuía considerável conhecimento de espanhol (sic), foi um dos delegados. Ela escreveu um texto de título ‘Relato da equipe da América Latina, da Associação Nacional dos Estudantes dos Estados Unidos, verão de 1951’, apresentado na Comissão Internacional em outubro de 1951. Nele, é descrita uma ‘desordem’ com tiros no comício pela nacionalização da indústria do petróleo, ocorrido um ou dois dias antes do congresso”.  

    Isso em 1951. Mas na continuação da pesquisa, pude ver mais os vínculos entre a CIA e o trabalho para o jornal e cinema de Helen Jean Rogers. Em 1961, ela se torna esposa de John Hermes Secondari. E quem é o ilustre? No seu perfil em  Museum TV podemos ver:

    “John Secondari desempenhou um papel importante no crescimento inicial do telejornal na rede de televisão ABC nos anos 60. Como executivo encarregado de primeira série regular da rede documentário, Secondari forjou um estilo que contou com uma forte ênfase na visualização e narração dramática. Mais tarde, ele realizou essas qualidades ao longo de uma série de documentários históricos ocasionais…”. E vem então o mais importante, de passagem, como um gato sobre brasas:

    “Nascido em Roma em 1920, Secondari foi educado nos Estados Unidos e serviu no exército durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, ele trabalhou na Europa pela primeira vez para a CBS e, em seguida, como o chefe de informações para o Plano Marshall na Itália...” . Para quem não sabe, o Plano Marshall foi uma “ajuda” dos Estados Unidos no pós-guerra, de combate ao comunismo e dominação econômica sobre os países ajudados, em uma só mão. Para isso, a CIA foi uma indispensável ferramenta.

    Depois, na atividade de cineasta de John Secondari, muitos críticos notaram que num “documentário sobre o Partido Comunista Italiano – realizado com sua esposa, Helen Jean Rogers – ele fechava com um hino ao espírito da Roma republicana como o último baluarte contra a revolução de esquerda”.

    E que coincidência, John Secondari foi exatamente o produtor executivo de “Brazil: the troubled land’, como podemos ver nos créditos finais do documentário. Hoje, quando afinal conseguimos ver as imagens de Francisco Julião entre fogo, archotes levantados e retratos de Fidel Castro no filme, outra realidade descobrimos. As cenas filmadas nos mostram que o governo dos Estados Unidos utilizava pessoas de talento e beleza para o veneno da propaganda anticomunista. Como a diretora de discurso liberal, Helen Jean Rogers, a encantadora cineasta que veio da CIA para o Brasil.

    Publicado originalmente no Portal Vermelho

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