Cabeças que sangram (é carnaval), por Daniel Gorte-Dalmoro

Um Estado que exclui parte de sua população, tida como inimiga. As elites - políticas, judiciárias, midiáticas, econômicas - hipocritamente ignoram que uma polícia que mata é uma polícia que pede também para ser morta

Cabeças que sangram (é carnaval)

por Daniel Gorte-Dalmoro

Me aproximando de uma das entradas da estação Ana Rosa do Metrô, vejo um homem no chão e outro sobre ele. Há um grupo de pessoas que recém saiu do ônibus que dificulta minha visão. Imagino que o homem deitado no chão tentou algum furto e está imobilizado, enquanto esperam as forças da “ordem”. Assim que o ônibus parte, reparo que há um carro da polícia e dois militares assistem impassíveis aos dois homens. O homem no chão tem a cabeça sangrando, uma poça de sangue ao seu redor, está bastante agitado e é amparado pelo que está sobre ele.

Cabeças que sangram.

A imagem me traz a lembrança de cena vista rapidamente do carro, em Florianópolis, em janeiro. Voltávamos do Pântano do Sul, próximo ao meio dia do dia mais quente dos últimos noventa e oito anos (segundo noticiou a imprensa). No acostamento da estrada, no meio do nada, um carro da polícia – dois militares conversam com um homem que sangra pela cabeça. Pode ser que o homem, diante daquele calor e daquele sol, tenha caído, batido a cabeça e os policiais estejam ali a auxiliá-lo. Igualmente possível é que o ferimento tenha sido causado pelos policiais.

Cabeças que sangram.

Uma polícia de confiança. Certa feita, passava em frente o Edifício Wilton Paes de Almeida (o que desabou em maio do ano passado), e um homem alcoolizado tinha um ferimento na cabeça que vertia sangue. Em desespero se esforçava para afugentar os conhecidos que tentavam facilitar a vida de um bombeiro que chegara para ajudar – “calma, não é a polícia”, diziam, sem serem ouvidos.

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Cabeças que sangram.

A polícia que mais mata e mais morre. E os policiais militares, presos em suas viseiras de guerra, não veem ligação alguma entre matar e morrer – e acreditam piamente que a paz dos cemitérios trará uma vida de paz, apenas não atentam que então estaremos todos mortos. Assim como creem que pôr medo é ter autoridade – tal qual fazem os “bandidos” que dizem combater. Com a sensível diferença que se os “bandidos” usam da força para se impor inicialmente, não raro ganham o respeito dos que vivem em seus territórios não por medo, mas por autoridade mesmo – a PM, em compensação, só consegue se impor pelo medo, pelo autoritário, nunca pela autoridade, nunca pelo respeito.

Cabeças que sangram.

Um Estado que exclui parte de sua população, tida como inimiga. As elites – políticas, judiciárias, midiáticas, econômicas – hipocritamente ignoram que uma polícia que mata é uma polícia que pede também para ser morta – PMs são bucha de canhão para proteger seu patrimônio e seus privilégios, e a violência dificilmente os atinge diretamente para terem com o que se preocupar. Quem não reagiu está vivo. Mirar na cabecinha… e fogo!

Cabeças que sangram.

Quase sempre as pretas pobres periféricas. Às vezes, mais recentemente, também sangram cabeças brancas – junto com braços que quebram (mas há punição para policiais que são pegos pela imprensa agindo tal qual bandidos: afastamento para funções administrativas; alguns preferem virar motoristas de deputados).

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É carnaval e é proibido Lula Livre. É proibido Lula. É proibido.

Máscaras e Black Blocs no passado, fantasias e blocos carnavalescos no futuro? Mas seguimos livres para festejar a morte, com ou sem sangue, inclusive de crianças, seja de Arthur, seja de Marcos Vinícius – necrossociedade fascista (e ainda assim Marielle Franco vive e resiste!).

Cabeças que sangram.

Polícia que observa. Porque nossos militares são tão confiáveis no trato com a pessoa, no respeito à vida, que há lei que impede a PM de socorrer vítimas. Polícia sempre suspeita. Um dos militares se aproxima de uma mulher que acompanha a cena e pergunta se ela presenciou algo. São cinco da tarde, pela hora e local, descarto que o sangramento na cabeça do homem tenha sido causado pela polícia: pode ser que tenha sofrido algum ataque homofóbico ou mesmo de algum grupelho neofascista “empoderado” pelo “mito”, atacando aleatoriamente quem encontrasse na rua – afinal, é neofascismo -, pode ter sido simplesmente que, muito bêbado, tenha caído e se machucado – afinal, é carnaval em tempos de neofascismo. O homem agita a cabeça como meu gato quando foi atropelado – a cena me perturba, eu sigo meu caminho. Nunca vi PM fantasiado de palhaço assassino portando machado para abordagem nos Jardins*. Cabeças que sangram.

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05 de março de 2019

PS: fiquei sabendo após ter publicado a crônica, mais um exemplo dramático de “cabeças que sangram” neste país do neofascismo bolsonarista-evangélico.

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