Catalunha: oportunismo e demagogia

Não acompanhei muito todo esse último brote de ardor nacionalista catalão, por motivos que digo mais adiante. Primeiro, o primeiro:

1. A defesa do direito dos povos à autodeterminação deve ser um princípio básico de toda esquerda que se dê o respeito.

2. O repúdio à repressão policial de qualquer manifestação popular deve ser outro princípio básico irrenunciável de toda esquerda que se dê o respeito.

Isto posto, vamos ao concreto: aparentemente, os catalães querem ter um país independente (e vêm tentando há séculos, sempre contra a vontade das classes dominantes locais, que sempre preferiram ter o apoio do aparato de repressão da coroa espanhola para não terem de sujar as mãos com sangue catalão quando foi preiso derramar sangue catalão para proteger os seus interesses, e terem à mão o utilíssimo bode expiatório do “estrangeiro” que permitiu à burguesia catalã promover uma acumulação de capital muito mais brutal do que no resto dos territórios controlados por Madrid. Ou seja, o nacionalismo catalão sempre foi um movimento basicamente proletário, com apoio ocasional de alguns setores da média e até da grande burguesia nativa por motivos meramente comerciais, de concorrência, apoio que era rapidamente retirado assim que a revolta ameaçava transbordar os limites “patrióticos” e começava a atacar a raiz do problema.

O movimento atual, porém, foi sequestrado pela direita catalã, que canalizou a indignação e a revolta da imensa maioria dos catalães contra a liquidação dos direitos dos trabalhadores (e que, na Catalunha e no resto da Espanha, ameaça escapar ao controle do poder a qualquer momento), usando o velho bode expiatório da ocupação estrangeira para promover a imposição “patriótica” das mesmas medidas de aumento da exploração. É um movimento oportunista e demagógico, insuflado por um partido implicado em diversos escândalos de corrupção, que se aproveita do desejo legítimo e real dos catalães de serem donos do próprio nariz para manter-se no poder e não tem, portanto, nada a ver com a luta secular dos proletários catalães contra o poder de classe “estrangeiro” e “nacional”.

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No caso específico do referendo de ontem, somente 42% dos eleitores da Catalunha participaram, de modo que, mesmo do ponto de vista simbólico, foi um fracasso apesar do que alardeia o Puigdemont. Cabe à esquerda que se dá o respeito, na Catalunha e na Espanha (e no resto do mundo) apoiar a realização de um referendo _legítimo_, com amplo apoio logístico e político do Estado espanhol e monitorado pela comunidade internacional, para que a verdadeira vontade dos catalães possa ser conhecida sem ambiguidades — e respeitada, seja qual for o resultado. Cabe à esquerda que se dá o respeito condenar sem ambiguidades a obstrução, e depois a repressão policial escancarada, da consulta popular. E, finalmente, cabe à esquerda que se dá o respeito, na Catalunha e alhures, denunciar sem ambiguidades o caráter oportunista e antipopular da “independência” promovida pela parte mais podre da direita catalã.

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