ciência e ” ateidade “

Tomo emprestado do meu amigo Morvan Bliasby o neologismo “ateidade”, para quem os ismos são pejorativos. 

 

Houve períodos da história ocidental em que o ateísmo sequer era definido. Crime contra o estado e punível com a própria vida. Apenas no século XVIII ressurgiram os primeiros cidadãos ocidentais que se declaravam ateus. Entretanto a doutrina é bem antiga, com registros que datam do século VI AC na Índia. O grego Diágoras de Meios do século V AC ficou conhecido como o primeiro ateu aos moldes ocidentais. O ateísmo é reconhecível num largo espectro de nuances havendo os que entendem que está presente desde nas doutrinas espiritualistas como o budismo  e o hinduísmo até naqueles que negam totalmente qualquer transcendência e divindades. Richard Dawkins tem uma definição interessante, graduando cada um numa escala de 0 a 100% a probabilidade que imagina ser possível a existência de um Deus .Assim, uma pessoa que pensa que a probabilidade é maior que 50% seria um crente. Para probabilidades iguais ou menores que 50% teríamos desde os agnósticos até os ateus. Pessoalmente penso que a probabilidade da existência de um Deus é de uma parte em 10^10^123 (^ simbolo de potência) que é a probabilidade que Roger Penrose e Stephen Hawking atribuem a existência do nosso universo. Não se trata de observação cientifica, apenas intuição.

 

Entro propositalmente no campo das probabilidades pois é nesta área que os teístas apresentam seus melhores argumentos a favor da existência de um Deus. Como é possível surgir vida complexa a partir do acaso ?  Uma pessoa nascida até o inicio do século XIX não reunia conhecimento e elementos para responder satisfatoriamente este problema, em pleno século XXI é problema trivial.

 

A obra mais impactante da história da humanidade foi a  “Origem das espécies”, de Charles Darwin em 1859. Nela, está descrito ,passo a passo, como seres vivos aleatoriamente sofrem mutações prevalecendo aquelas que melhor se adaptam ao meio ambiente.

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Outro conhecimento relativamente novo é a idade do planeta Terra. Hoje se sabe com um bom nível de precisão que a Terra tem aproximadamente 4,5 bilhões anos.Somando estes dois conhecimentos : seleção natural e idade do planeta , temos uma explicação provável,racional para o surgimento da vida em níveis crescentes de complexidade no planeta Terra.

 

Os precursores gregos do ateísmo ou mesmo um ateu do século XIX , sem estes conhecimentos, teriam dificuldades de oferecer uma explicação racional sem recorrer à filosofia. As bases metafisicas do ateísmo são duas : a primeira é o materialismo. O entendimento de que se conhecendo as relações da matéria se tem todo o conhecimento existente possível. A segunda base seria que mesmo se reconhecendo a existência de um absoluto , este não apresenta as características de uma divindade. Seria desprovido de individualidade, vontade ou propósito.      

 

Para se costurar o quadro é necessária alguma compreensão da forma absolutamente frenética de como este absoluto impessoal e sem propósito cria realidades e possibilidades . Partimos de um individuo homem que no ato de fecundação gera algo em torno de 500 milhões de espermatozoides . Por que razão um Deus ou projetista onisciente  criaria esta orgia sabendo de antemão qual o único espermatozoide irá fecundar o óvulo ?

 

Em escala planetária a vida apresenta uma abundância impressionante. Estima-se que hoje a Terra abrigue 8,7 milhões de espécies sendo que já passamos por 5 períodos de extinção em massa.Dentro de cada espécie , bilhões de indivíduos são criados.  Somando-se as espécies existentes com as que já existiram concluímos que a estratégia da natureza é a aposta no atacado e na diversidade.

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Muitos teístas acreditam que o fato do planeta Terra estar posicionado numa região exatamente  em relação ao Sol que permita a vida é evidencia de uma inteligência criadora, um Deus. Será ? Em termos cosmológicos o universo observável tem hoje algo em torno de 2 trilhões de galáxias. Num cálculo grosseiro, sem rigor cientifico, façamos uma estimativa para efeitos de ordem de grandeza. Uma galáxia relativamente pequena, como a via Láctea, tem algo em torno de 100 bilhões de sóis. Tomando nossa via Láctea como referência e supondo que cada Sol abrigue algo em torno de 10 mundos, planetas e luas, estamos falando de um universo observável com algo em torno de 2 septilhões ( 2 multiplicado por 24 zeros) de mundos. Num universo com septilhões de mundos, qual a surpresa, qual o milagre de que alguns deles estejam posicionados de forma a possibilitar a vida?

 

Há outras questões como o argumento da sintonia fina que trata de como as constantes do universo estão perfeitamente  ajustadas para permitir a vida. Neste tema há fortes indícios físicos e matemáticos para se pensar que toda forma possível de universo é criada num processo conhecido como big bang e uma teoria conhecida como multiverso. Dentro do multiverso, alguns universos são favoráveis à vida, outros, a grande maioria, não. E mesmo dentro das leis da mecânica quântica há razões para se pensar que a própria realidade o tempo todo se desdobra em todas suas possibilidades. Deixo estes últimos temas para outro debate pois muitos podem considerar ficção cientifica.

 

Esta linha de argumentação estabelece de uma forma clara e objetiva que a natureza ou o absoluto impessoal e sem propósito não tem qualquer projeto inteligente ou pré definido. Numa prodigalidade infinita, cria realidades e possibilidades o  tempo todo. Neste quadro , não apenas é provável como inevitável o surgimento da vida ,de seres inteligentes ou mesmo de indivíduos em particular em alguma destas realidades. No século XXI a “ateidade” se confunde com o próprio conhecimento , com a própria ciência.

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Isto impõe consequências sociais e culturais consideráveis.  Ainda há cerca de 11 nações no mundo que tratam o ateísmo como crime, algumas ainda impõe pena de morte aos ateus. No Brasil , um auto declarado ateu que enverede na carreira politica contaria com votos de apenas 13% dos eleitores, os demais declaram que jamais votariam num ateu. Há estudos que demonstram uma relação direta entre o progresso social e a quantidade de ateus de uma população . Quanto maior o grau de instrução e progresso social maior o numero de ateus. Países nórdicos e com alto desenvolvimento social , como a Islândia, chegam a ter 100% da população ateia.  A “ateidade” está associada a uma cultura humanista, tolerante, cientifica, bem humorada e o preconceito aos ateus que chega a ser maior do que em relação a negros, homossexuais e povos indígenas em sociedades como a brasileira, reflete a ignorância e o medo das religiões de terem suas “verdades” questionadas.

 

A “ateidade” na corrente conjuntura da humanidade não se trata de uma simples opção doutrinaria de foro intimo . É um passo irrevogável para a correta interpretação dos fenômenos naturais. Apenas sociedades infantilizadas ou repressoras insistirão nas religiões. Ainda há os que confundam ateísmo como uma forma de crença , insatisfação social ou rebeldia. Na verdade a “ateidade” contemporânea é fundamentada em conhecimento e experiência de vida.  

 

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