Clivagens Políticas e Desigualdades Sociais, por Fernando Nogueira da Costa

Clivagens Políticas e Desigualdades Sociais

por Fernando Nogueira da Costa

Uma equipe internacional de cerca de cinquenta pesquisadores estudou os casos, em cinquenta democracias, de comportamento eleitoral em função da renda, herança, nível de educação, origens étnicas e religião. Pela primeira vez a questão é abordada de forma tão sistemática em um período tão longo (1948-2020).

A hipótese testada e defendida no livro (clique para download de resumo) Thomas Piketty e outros. Clivagens Políticas e Desigualdades Sociais (“Clivages Politique et Social Inequalities”, editado por Amory Gethin, Clara Martínez-Toledano e Thomas Piketty, Seuil; abril de 2021) é no Ocidente desenvolvido (Estados Unidos e Europa), a estruturação do voto por classe social ter desaparecido. Nesse processo, a esquerda teria se tornado a opção preferencial dos graduados em Ensino Superior.

Thomas Piketty, um dos coautores, denomina essa casta dos sábios de “a esquerda brâmane”. Essa mudança é correlacionada com a Era do Neoliberalismo (1980-2020) e a massificação desse Ensino Superior após os protestos da “geração 68”.

Durante o período 1950-1980, na maioria das democracias ocidentais maduras, o voto “popular” era destinado aos partidos socialdemocratas e o voto “burguês” para os partidos conservadores. Isso é constatado, seja qual for a medida usada para definir “popular”: grau de instrução, renda ou patrimônio.

Os graduados do Ensino Superior, anteriormente, votavam mais em partidos conservadores ao contrário daqueles eleitores tendo completado no máximo o Ensino Médio. Essa estrutura aparece em todos esses países desenvolvidos, apesar das histórias políticas muito diferentes.

O Partido Democrata dos EUA era o antigo partido da escravidão, mas foi transformado em o partido do New Deal. Nada tem a ver com o Partido Trabalhista inglês, o alemão SPD ou os partidos socialistas e comunistas franceses. Aquela convergência política do eleitorado durou por três ou quatro décadas após a II Guerra Mundial.

Gradualmente, isso foi se alterando a partir dos anos 1980, quando Ronald Reagan e Margareth Thatcher impuseram sua ideologia neoliberal, através das instituições financeiras multilaterais (FMI, WB, BID, etc.), aos países endividados do Terceiro Mundo. Em simultâneo, acabou a Guerra Fria por conta da falência da URSS.

Apareceu uma nova fragmentação política. Surgiu tanto nos grupos socialmente favorecidos quanto na classe operária industrial.

No topo da escala econômica, os afortunados continuaram a votar à direita, enquanto os graduados em nível cultural-educacional mudavam para votar à esquerda. Isso Piketty chamou de “Esquerda Brâmene” como um rótulo um pouco irônico, referente ao sistema de castas.

Inicialmente, o livro de David Priestland, professor de História na Universidade de Oxford, “Uma nova História do Poder: Comerciante, Guerreiro e Sábio” (São Paulo: Companhia das Letras, 2012) chamou a atenção para a possibilidade de uma análise mais realista de todo o capitalismo. Assim como ocorre na história da Humanidade, ela é vista através do jogo de alianças e contragolpes das castas de natureza ocupacional.

Recentemente, o livro “Caste” de Isabel Wilkerson, publicado em 2020, confirmou o sistema de castas não ser uma exclusividade da Índia, porque os costumes conservadores e a legislação discriminatória dos negros nos Estados Unidos impôs restrições ao acesso dessa etnia aos cargos de natureza ocupacional mais bem remunerados. A política afirmativa de cotas em Universidades busca reverter essa discriminação, mas ainda perdura o preconceito racista nas demais castas: militar, mercantil e mesmo na dos trabalhadores manuais brancos. Todas buscam resguardar seus privilégios contra a competição igualitária no mercado de trabalho.

No sistema de castas indiano, os brâmanes constituem a classe intelectual. Milenarmente, representa a casta dos sábios-sacerdotes. Com a massificação do Ensino Superior, após a rebeldia do fim dos anos 60 (“geração 68”), emerge a casta dos sábios-intelectuais. É a dos professores, dos literatos, dos artistas, etc.

Em oposição aos letrados, a casta dos mercadores (os vaishyas), em geral, aliada (e protegida) pela casta dos guerreiros (os kshatriyas), se tornam mais reacionárias. Acentuam sua atitude conservadora, seja pelo voto na extrema-direita nativista, seja pelo voto no populismo de direita. Populistas tão diversos como um bilionário norte-americano e um capitão expulso do Exército brasileiro, dada a eventual eleição presidencial, inclusive com minoria dos votos, dizem “falar em nome de todo o povo”.

A esquerda brâmane é constituída por eleitores mais instruídos e cosmopolitas, na Era da Globalização. São moradores em metrópoles. Esses trabalhadores intelectuais, a partir da massificação do Ensino Superior, votam na esquerda. Opõem-se à direita, onde se aninham mercadores, militares e sabidos-pastores (ex-sábios sacerdotes) com exploração da submissão dos párias ao evangelismo.

Hoje, a elite empresarial dos Estados Unidos ainda vota nos candidatos republicanos. Estima-se em pelo menos 80% dos graduados votarem nos candidatos democratas.

Na Europa, a esquerda socialdemocrata, desde a II Guerra Mundial, representou a aliança entre trabalhadores organizados, seja em sindicatos, seja em partidos, e professores assessores e/ou consultores do movimento sindicalista. Até a década de 1970, de forma predominante, os eleitores mais instruídos votavam na direita.

Eles ainda imaginavam alcançar uma mobilidade social com sua cultura. Isso foi antes da Era Neoliberal, quando os yuppies (jovens profissionais urbanos) passaram a se enriquecer no mercado de ações.

Com a globalização (transferência de empregos industriais para a Ásia) e a migração (fuga dos pobres emigrantes do Terceiro Mundo em busca do bem-estar no Primeiro Mundo), dentro das classes trabalhadoras, surgiram novas divisões, destacadamente xenófobas, racistas e nativistas. Muitos operários brancos, dada a desocupação provocada pela desindustrialização, se sentiram abandonados por essa “esquerda brâmane” por ela ser “globalista” – e não impor barreiras à imigração.

Isso resultou em queda na participação eleitoral das classes populares nos países ocidentais onde o voto não é obrigatório. Mas muitos operários passam a votar na direita, quando outras clivagens políticas se tornam dominantes. Estão vinculadas a temas como imigração ou questões raciais.

O Partido Democrata norte-americano, até a década de 1970, atraia as classes trabalhadoras brancas e negras. Depois, na base da pirâmide social da riqueza, só os negros e os latinos discriminados votam mais nos candidatos democratas, enquanto os brancos com baixa escolaridade mudam seu voto para o Partido Republicano.

Na Europa, a classe trabalhadora branca está mais disposta a votar na extrema direita, como a Frente Nacional na França ou o AfD na Alemanha. Ambos são xenófobos e atacam os imigrantes.

Surgiram também novos partidos de identidade nacionalista, como na França, ou se formaram correntes anti-identidades minoritárias, dentro de partidos clássicos de direita, como nos Estados Unidos ou no Reino Unido. Na França, Les Républicains e até La République en Marche estão tentando recuperar os eleitores brancos desocupados e sem perspectiva profissional com o desemprego tecnológico acentuado pela 4ª. Revolução Tecnológica.

Multiplicam os sinais de violência e vingança para eles. Se são “bombados” em academias universitárias, buscam ser “bombados” em academias de musculação… E o cérebro se atrofia para enfrentar a Era Digital.

As equivalências “esquerda = povo” e “direita = burguesia” era pensada ser a configuração “normal” – e eterna por conta da ideologia marxista pregadora da luta de classes sociais. A esquerda tenta se convencer dessa reconfiguração – a classe operária ter ido para “o paraíso do Capitalismo de Estado” da China – ser reversível e irá voltar à fase anterior do capitalismo industrial universal. Mas essas transformações para um novo modo de produção tecnológico e um novo modo de vida ecológico são de fato não reversíveis, pois o tempo não retrocede.

Os programas da “esquerda brâmane” deveriam ser, em princípio, mais redistributivos de renda e riqueza. Mas, de fato, ela não tem o monopólio na adoção de, por exemplo, uma política habitacional propiciadora da “democracia da propriedade”. Os partidos conservadores, tanto nos Estados Unidos, quanto na Inglaterra, e outros países governados pela direita também o adotam por eles permitirem conquistar muitos votos, além de ser do interesse de grandes incorporadoras imobiliárias.

Por qual razão a esquerda não atrai mais as classes populares brancas e evangélicas? Thomas Piketty diz não ter uma única explicação. O fato é os diversos partidos de esquerda terem também uma grande responsabilidade na perda desses eleitores.

Eles perderam muito suas ambições redistributivas de renda e riqueza, desde os anos 1980, com o início da Era Neoliberal. Perceberam também o operariado, após o fim da URSS, abandonar a referência revolucionária e adotar o pragmatismo para a mobilidade social, inclusive buscando se matricular em Universidades. No entanto, os filhos da classe operária bem-sucedidos nessa emergência social votam na esquerda!

Se quiser reconquistar o eleitorado popular branco e evangélico, a esquerda necessita abandonar, radicalmente, o feito no passado recente. Foi um erro adotar bandeiras-de-luta dos adversários neoliberais, como privatização, liberalização econômica e obsessão só com ajuste fiscal para o Estado se tornar mínimo.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Bancos e Banquetas: Evolução do Sistema Bancário com Inovações Tecnológicas e Financeiras” (2021). Baixe em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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