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Artista pinta visões futurísticas de um Israel totalitario

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A artista Sivan Hurvitz projeta em imagens um Israel que não permite, por exemplo, o uso de anticoncepcionais. As obras fazem parte da exposição Fim do mundo, à direita e retratam situações que, segundo ela, poderão existir “se o país não mudar de rumo”
Foto: Reprodução


GUILA FLINT
Direto de Tel Aviv

A artista israelense Sivan Hurvitz criou uma série de trabalhos nos quais expõe imagens futurísticas de um país “que abriu mão da democracia”, segundo ela. Os trabalhos, baseados em desenhos realistas de Tel Aviv, apresentam elementos imaginados pela artista e que poderão existir “se o país não mudar de rumo”.

Veja algumas obras da artista israelense Sivan Hurvitz

Nas visões futurísticas de Hurvitz, Israel se torna um país onde livros de escritores pacifistas são passados de mão em mão clandestinamente, pílulas anticoncepcionais se tornam proibidas, gays são levados à força para clínicas de tratamento de “desvios sexuais”, as escolas seguem uma linha de ensino ultranacionalista e ativistas de direitos humanos são espancados nas ruas. Em um dos trabalhos se vê uma grande estátua do atual chanceler de Israel, Avigdor Lieberman, na principal praça de Tel Aviv, em frente à prefeitura.

A estátua de Lieberman que Hurvitz coloca em plena praça Itzhak Rabin (nomeada em homenagem ao primeiro-ministro assassinado por um extremista de direita) desperta associações diretas com regimes totalitários como da União Soviética ou do Iraque de Saddam Hussein. O trabalho é denominado Blind Loyalty (lealdade cega, em tradução livre), em referência à proposta de Lieberman de negar a cidadania israelense a pessoas que não forem “leais ao Estado”.

Fatos concretos
O partido de extrema direita, Israel Beitenu, liderado por Lieberman, é o segundo maior partido na coalizão governamental atual. No entanto, recentemente o premiê Benjamin Netanyahu anunciou a união de seu partido, o Likud, com o Israel Beitenu, para concorrerem juntos às próximas eleições, previstas para janeiro de 2013.

Se o bloco Likud-Israel Beitenu vencer as eleições e chefiar a próxima coalizão governamental, Lieberman poderá escolher entre as pastas da Defesa, Economia ou Relações Exteriores. De acordo com vários analistas locais, ele deverá optar pelo ministério mais poderoso, a Defesa.

As visões futurísticas pintadas por Hurvitz se baseiam em fatos concretos e tendências que se pode observar na sociedade israelense. “Estamos vendo uma enxurrada de leis antidemocráticas e o fortalecimento de partidos de extrema-direita, que não se importam com valores de direitos humanos e liberdades individuais”, disse Hurvitz. “Se não houver uma mudança drástica no rumo que nosso país está tomando, as imagens que criei poderão, em breve, se tornar realidade”, afirmou.

Fim do mundo, à direita
O fortalecimento de partidos ultraortodoxos, que são parte integral da coalizão governamental, poderá gerar uma repressão crescente às liberdades individuais em geral e à liberdade das mulheres em particular. Daí vem a imagem criada por Hurvitz de duas jovens sentadas em um café e passando pílulas anticoncepcionais secretamente.

A força crescente dos políticos religiosos na sociedade também desperta temores de que, em um futuro totalitário, a comunidade gay – cujos direitos são amplamente respeitados atualmente – possa ser reprimida. “Resolvi expressar meus temores pelo caminho da arte, pelo desenho, acho que assim a mensagem pode alcançar mais gente”, disse a artista.

Inicialmente, Hurvitz faz desenhos a lápis, que depois são elaborados com técnicas digitais. A exposição, denominada “Fim do mundo, à direita”, gerou reações mistas do público. “Muitas pessoas se identificaram fortemente comigo, mas também houve reações muito negativas”, contou.

“É muito triste o rumo que este país está tomando, muitas pessoas da minha geração estão indo embora daqui, vários amigos meus foram buscar seu futuro em Berlim ou Nova York”, disse Hurvitz, que tem 30 anos. “Há um sentimento de desesperança e frustração ao perceber que o Estado está se distanciando da democracia, e isso se expressa muito na educação, hoje em dia as crianças não entendem o significado da democracia”, afirmou ela. “O que se fortalece são valores de ódio, medo e exclusão do outro”, concluiu.

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