Comer os ricos ou as mangas, eis a questão, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Confrontada com o ressurgimento da fome, uma Ministra de Jair Bolsonaro disse que os pobres devem comer mangas. Isso é o que eles fariam se pudessem comprá-las. Como não podem fazer isso, o mais provável é que os brasileiros famintos sejam mortos pela polícia tentando roubá-las

A primeira coisa que vi hoje pela manhã foi um Twitter da teleSur em que aparece uma pessoa segurando o cartaz que ilustra este artigo.

O tema do canibalismo como reação ao capitalismo foi explorado num artigo do Toronto Sun de 16 de janeiro de 2017. O autor faz referência a letra de uma música do grupo Aerosmith e a um fragmento da obra de Jean-Jacques Rousseau:

“When the people shall have nothing more to eat, they will eat the rich.”

“Quando as pessoas não tiverem mais nada para comer, elas comerão os ricos.”

Essa frase foi atribuída a Rousseau por M. A. Thiers em seu livro The history of the French revolution. Veja aqui.

A referência feita por Rousseau à antropofagia no contexto da Revolução Francesa pode ser atribuída ao terror que essa prática infundia nos colonos europeus, especialmente naqueles que começaram a chegar no Brasil na segunda metade do século XVI. Narrativas de viagens como a de Hans, publicado em Magdeburgo em 1557, que eram populares na Europa e ajudaram a difundir a ideia de que o Brasil era o país dos canibais, provavelmente foram objeto de estudo do autor de O Contrato Social.

Além disso, a prática do canibalismo não era totalmente estranha à cultura europeia antes dos portugueses chegarem ao Brasil. Os antigos italianos teriam sido antropófagos como nos informa Santa Rita Durão ao fazer uma referência ao poema épico de Homero:

“Que horror da humanidade ver tragada
Da própria espécie a carne já corrupta!
Quanto não deve a Europa abençoada
A Fé do Redentor, que humilde escuta?
Não era aquela infâmia praticada
Só dessa gente miseranda e bruta;
Roma e Cartago o sabe no noturno,
Horrível sacrifício de Saturno.”

(Caramuru, Santa Rita Durão, Martins Fontes, São Paulo, 2005, p. 18)

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O tema do canibalismo voltou a ganhar força na cultura ocidental por causa dos filmes norte-americanos de zumbis. Maltrapilhos, lentos e desprovidos de características humanas básicas (como personalidade e racionalidade), os zumbis podem facilmente ser considerados uma representação cinematográfica dos milhões pobres que estão sendo amontados em favelas de barracas em algumas cidades dos EUA e do Canadá.

Não podemos dizer, entretanto, que a antropofagia dos zumbis é uma transfiguração artística das idiossincrasias culturais dos Tupinambás e Caetés que aterrorizaram os colonos portugueses e se tornaram objeto da literatura de viagem do século XVI e das especulações filosóficas e políticas na Europa nos séculos seguintes. O mais provável é que o apetite dos zumbis por carne humana seja um eco distante do canibalismo praticado por colonos esfomeados no próprio hemisfério norte.

Nesse contexto, a frase de Rousseau simplificada no cartaz que me chamou atenção perde totalmente seu significado político. Quando os colonos da Nova Inglaterra foram Jamestown foram reduzidos a mais abjeta falta de alimentos, a distinção entre ricos e pobres deixou de existir.

No século XVI o canibalismo fazia parte da cultura Tupinambá e Caeté, mas era objeto de repugnância na Europa há vários séculos. Apenas colonos miseráveis e sem qualquer possibilidade de encontrar qualquer outro alimento seriam capazes de vencer os preconceitos culturas. Isso somente voltaria a ocorrer no fronte russo durante a II Guerra Mundial.

O capitalismo produz a miséria e a fome, mas é muito pequena a probabilidade dele provocar o ressurgimento cultural do canibalismo em tempo de paz. Ao contrário do que disse Jean-Jacques Rousseau e o cartaz nele inspirado, os ricos não serão devorados pelos pobres. A antropofagia capitalista existe, mas ela segue no sentido oposto. O mais provável é que os pobres continuem comendo o que encontrarem (inclusive restos de comida no lixo) enquanto os ricos devorarão inclusive os recursos públicos que deveriam ser empregados para minimizar a pobreza.

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Confrontada com o ressurgimento da fome, uma Ministra de Jair Bolsonaro disse que os pobres devem comer mangas. Isso é o que eles fariam se pudessem comprá-las. Como não podem fazer isso, o mais provável é que os brasileiros famintos sejam mortos pela polícia tentando roubá-las. Justamente por isso não podemos dizer que o “Judge Dredd Enforcement Act” é um Projeto de Lei que restabelece o canibalismo entre nós. Extremamente letais há décadas, as PMs brasileiras já estão literalmente devorando excedentes populacionais urbanos indesejados pelo capitalismo e vomitando-os nos cemitérios todos os dias.

Lula fez uma reclamação na ONU porque está sendo tratado pelo Judiciário como se não fosse um ser humano (no Brasil bolsonariano isso significa que ele foi rebaixado à condição dos negros e dos índios). Quando foi presidente, o líder petista tirou o Brasil do mapa da fome interrompendo um genocídio de nordestinos mais ou menos tolerado por FHC. Nos 8 anos em que foi presidente, o “sapo barbudo” também lutou para diminuir a letalidade policial. O sucesso dele em relação a esse tema foi bem menor do que aquele que ele obteve ao combater a fome.

Os maiores penalistas brasileiros e europeus são unânimes ao dizer que crime de Lula não pode ter sido aquele que lhe atribuído por Sérgio Moro. Talvez o crime que ele tenha cometido tenha sido mais grave. Ao chegar a presidência, Lula começou a civilizar o Leviatã brasileiro. Durante alguns anos dourados, o Estado brasileiro parou de devorar os cidadãos mais vulneráveis. Lula não deu mangas ao povo. Apenas ensinou-o que as frutas produzidas pelo capitalismo podem e devem ser compradas por todos aqueles que tem fome. Maldito Lula. Além de não ser comunista, ele não é adepto do canibalismo capitalista.