Como perder a chance de debater – um exemplo

Acompanhei com alguma atenção as reações meméticas (a pobreza argumentativa com efeitos performativos na formação de opinião e visão de mundo) na minha bolha virtual ao assassinato do cachorro por segurança do Carrefour de Osasco. A depender dos memes que amigos veganos ou simpatizantes compartilhavam sobre o episódio e seus desdobramentos, não é difícil entender porque Bolsonaro e uma série de políticos de extrema-direita venceram os pleitos em 2018 – para além, claro, das manipulações via internet.
De um lado, pessoas comovidas com a violência do segurança contra o cachorro (que, sinceramente, me pareceu mobilizar mais do que quando seguranças do Habib’s assassinaram um garoto em São Paulo). Do outro, veganos atacando essas pessoas, taxando de hipócritas, por ficarem condoídas enquanto comem animais mortos. Ao invés de acolher, repelir. Este tipo de reação não é privilégio de veganos, pelo contrário, me parece a tônica da esquerda e do campo progressista nos tempos atuais.
Ao reagir atacando quem mostrou abertura à questão do sofrimento animal, longe de atrair pessoas alheias ao debate sobre o direito dos animais, as afugenta ainda mais. Porém, perdida não foi só a oportunidade de atrair algumas pessoas para a discussão, mas de impor um debate mais amplo à sociedade sobre tratamento aos animais – de rua, domésticos, de laboratório, de abate. O problema de ampliar o debate é ter que responder a questões que aparentemente foram superadas, é ver levantado novamente imbróglios incômodos que haviam sido escamoteados, é ter que escutar o outro, o diferente, é ter uma postura democrática e de aceitação – dentro de certos limites – de posições antagônicas. Quantos de nós já não achou mais fácil negar a conversa apenas por ter ouvido do interlocutor alguma barbaridade, sem prestar atenção que ele apenas repetia um jargão que fazia mais sentido diante de toda a realidade paralela criada pelos meios de comunicação e seu círculo social? Ainda hoje, vejo analistas políticos atacando os 58 milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro, sem serem capazes de perceber que a maioria desses votos foram dados de acordo com o artigo 171 e não com as propostas do então candidato talkey.
Para além de capacidade de ouvir o outro, falta também a boa parte das forças de esquerda e progressistas – aqui individualizadas nos veganos, mas longe destes serem únicos ou privilegiados, reitero – aceitar que política não possui uma verdade – ao menos não uma verdade positiva -, e, consequentemente, aceitar que talvez seja preferível posições mais gradativas do que insistir no tudo ou nada.
A direita já notou que não se pede adesão irrestrita e incondicional de início – manipula para ganhá-la com o tempo, na base do engodo. Começa aceitando a palavra de ordem inicial e depois, aos poucos, vai mudando até chegar, se preciso, no extremo oposto. O “contra o aumento das tarifas” vira “não é só por 20 centavos”, que vira “contra a corrupção”, que vira “contra os impostos”, que vira “fora PT”. A tentativa de captura da pauta negra vai na mesma linha, de início, reivindicam que negros e brancos precisam ser iguais para o logo adulterarem a luta por igualdade como realidade dada e defesa do “dia da consciência humana”. Sim, é uma estratégia fadada ao fracasso no médio prazo, quando o sectarismo vai passar a excluir quem não aderir integralmente às novas palavras de ordem (de ódio) – mas até lá o estrago já foi feito, a presidenta derrubada, um fascista eleito, direitos e constituição trucidados.
Já que comecei falando de veganos para tratar de algo geral às esquerdas, encerro com uma breve crítica à corrente vegana que predomina em meu círculo social (sei que há várias porque já fui rechaçado do debate na Unicamp quando tentei usar Peter Singer). Não sou vegano, acho uma postura válida e admirável de inserção aberta do sujeito e seu entorno no campo ético-político (por isso incomoda tanto alguém não comer carne, é jogar na cara que todas as ações do sujeito são ações éticas, de responsabilidade), quase uma forma parrhesista de existir. Contudo, é uma postura, um movimento, cheio de contradições e limites de crítica – condição de todo movimento político humano (talvez os dos deuses ou santos não sejam). A principal delas, a meu ver, o desenraizamento da discussão sobre condições sociais dos humanos, antes de tudo – dos direitos humanos para as pessoas. Daí o veganismo, para além de uma postura ética, muitas vezes me parecer como uma postura de distinção social – uma amiga que aderiu não faz muito ao veganismo, sem perceber, certa feita tropeçou no seu argumento: “o direito dos animais vai ser a nova luta de classes”, disse. Eu não quis polemizar, mas entendi do meu modo: nova luta de classes não que os animais substituirão os humanos na luta de classes, mas porque serão usados para escamotear a real luta de classes, a exploração do homem pelo homem, a luta entre os humanos de plenos direitos e o exército de reserva. Muitos ex-pobres só muito recentemente passaram a comer carne bovina, coisa que antes era quase exclusivo dos patrões – e agora que sentem terem adentrado o paraíso que viam de longe, são abominados como bárbaros, antiéticos. Em abatedouros, pessoas matam milhares de animais todos os dias não por sadismo, mas porque é uma questão de matar ou morrer – literalmente, pois trabalham para fugir da fome. Ao mesmo tempo, cachorros são mortos todos os dias para virar comida – e não é por hábito cultural, é por fome, mesmo.
Se a esquerda não for capaz de escutar o outro, de acolher o diferente, de compreender o mundo em gradações e diversas cores, certamente vamos perder a batalha para o fascismo.

13 de dezembro de 2018

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