Conselho, por Fernando Pessoa

 

 

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
.
Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és —
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês…
.
sem data
.
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Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). – 242.
1ª publ. in Sudoeste, nº 3. Lisboa: Nov. 1935.

 

Fonte: Arquivo Pessoa

 

Conselho, por Fernando Pessoa,

na voz de José Mauro Lopes Sena.

Música: Morning Garden (instrumental), City Hunter

https://www.youtube.com/watch?v=vF3V3wiL7CQ

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