Contradições são relevantes para IPCC

Após a publicação do Relatório de Revisão do IPCC, realizado por um comitê de revisores do InterAcademy Council (IAC), e pelo qual se definiram recomendações ao painel, pesquisadores ligados do IPCC agora discutem a relevância das sugestões e como implementá-las até 2011. As propostas não afetam diretamente as pesquisas e o conteúdo científico dos relatórios do IPCC, mas sim os modos pelos quais são realizados e também a estrutura administrativa do painel.

Portanto, indiretamente, as definições interferem na produção científica, à medida em que são sugeridas novas diretrizes, desde a obrigatoriedade de fornecer citação bibliografica até maior abertura para autores com pontos-de-vista diferentes.

Entre os cientistas que produziram o relatório do IAC, está o diretor-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Carlos Henrique de Brito Cruz. Em entrevista ao Brasilianas.org, o ex-reitor da Unicamp falou sobre sua participação na avaliação e aproveitou para esclarecer as principais propostas de mudanças encaminhadas ao IPCC.

 

Brasilianas.org: Explique sua participação no relatório do IAC. Como foi organizado o trabalho e de que forma o Brasil teve participação nisso?

Carlos Henrique: Havia uma comissão de 12 cientistas, e todos eles participaram em todas as partes do trabalho. O trecho que ficou mais diretamente sobre minha responsabilidade foi a analise do processo de revisão por pares. Todos os itens foram debatidos por todos os membros, e, como não eram muitos, dava para dividir as tarefas entre todos. Aqui em São Paulo, fiz uma reunião com pesquisadores brasileiros, que convidei para ouvir a opinião deles.

BO: O senhor concorda que o relatório ficou mais restrito a questões administrativas? Qual a proposta mais inovadora que destacaria?

Não é bem isso. É que o comitê foi formado para analisar os procedimentos do IPCC, ou seja, a missão que nos deram foi para analisar os procedimentos, e não o conteúdo dos relatórios. Temos propostas para o procedimento de revisão por pares, que demanda uma intensificação das interações nos vários estágios. Tem a proposta da formação de um comitê executivo, que está no item de governança. Essas são as duas propostas que eu destacaria.

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BO: Sobre esta última, o senhor poderia explicar melhor do que se trata?

CH: Nesse aspecto da organização, observamos que o IPCC tem, na organização atual, uma limitação na capacidade de tratar da operação executiva do IPCC. Hoje, eles têm um presidente, um diretorado, mas que possui atribuições não muito bem definidas. O que faz com que, entre uma assembléia e outra, o IPCC fique um pouco com falta dessa direção executiva. Daí essa nossa recomendação de haver um comitê executivo, que seja responsável pela operação do dia-a-dia do painel. Não é suficiente ter um presidente. Há tarefas demais para serem feitas. A mudança deve ocorrer no modelo de governança e operação.

BO: E quais são as principais propostas relacionadas à questão da transparência do IPCC?

CH: Na questão da transparência, tem uma parte que diz respeito à transparência do processo de revisão, que se trata deles fazerem uma aderência mais estrita às normas que já existem de que todos os comentários dos reviewers devem merecer uma resposta. E essa resposta aos reviewers precisa ser pública, explicitada no site do IPCC. E tem também uma questão sobre garantir acesso aos reviewers da literatura utilizada nos capítulos, de modo que eles possam fazer uma revisão adequada.

BO: Mas as fontes bibliográficas não costumam ser citadas?

CH: É citada, mas às vezes um autor precisa citar um autor que não está publicado ainda. Por exemplo, precisa citar uma tese de algum estudante de algum lugar; essa tese pode não estar disponível para o reviewer. Então o IPCC precisa cuidar de disponibilizar esse trabalho ainda não publicado. Isso ainda não acontece, apesar de haver uma norma, que não está suficientemente bem implementada.

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BO: Qual o prazo para que essas mudanças sejam estabelecidas?

CH: O cronograma dessa implantação está sendo preparado pelo IPCC. Nós apenas fazemos as sugestões. Eles já emitiram alguns reports parciais e, em algum momento, devem emitir algum mais completo, com o plano deles sobre as recomendações.

BO: Mesmo o conhecimento cientifico não está livre das incertezas e de elementos subjetivos próprios do discurso, o que não o livra de indeterminações. O senhor acredita que as metas e estipulações, determinadas por ONGs e políticos, levam em conta isso?

CH: A função do IPCC é fazer um resumo e uma avaliação sobre a ciência existente até o momento de se fazer o relatório, e não propor política e nem recomendação. Isso é o que está nas quatro mil páginas do relatório do IPCC, isto é, um resumo do estado da ciência sobre mudança climática global até a data em que eles fecham o relatório. O resumo é feito para facilitar o acesso às informações mais críticas por parte dos governos, que muitas vezes não possuem tem ou nem capacidade de ver as quatro mil páginas. Mas o resumo não substitui o relatório, então não faz sentido essa crítica de que o resumo só tem 16 páginas. Quem quiser ver tudo, o relatório está disponível.

BO: Mas falo também sobre as contradições próprias da ciência. O que é feito para que elas apareçam?

CH: As contradições estão nos relatórios, e algumas vezes no resumo. Isso também é uma das recomendações que a gente faz, e inclusive já faz parte da norma. Eles devem valorizar as opiniões discordantes e, no relatório do IAC, mencionamos que eles precisam prestar mais atenção nessa questão de buscar mais opiniões discordantes. O que acontece é que, em muitos dos assuntos relacionados à mudança climática global, a medida que a ciência vai avançando, as opiniões discordantes vão diminuindo, pois o grau de concordância aumenta na comunidade de pesquisa. É natural que isso seja assim.

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BO: E como se dá essa valorização, concretamente?

CH: Ela se dá desde o momento da escolha dos autores e revisores, até o momento da revisão pelos pares, em que é importante procurar, nas opiniões que surgem no processo de revisão, se tem algum que expressa algum conflito que deva ser considerado. Em um capítulo, colocamos o caso das geleiras. No processo de revisão do relatório 04, um dos revisores anotou assim, “vocês estão dizendo que as geleiras estão diminuindo, mas tem um artigo aqui que diz que não, que existem outras geleiras que estão aumentando”. Usamos isso como exemplo para fundamentar a nossa recomendação de que eles precisam prestar muito mais atenção nas discordâncias, porque isso deveria ter aparecido no relatório como? Olha, tem gente que diz que as geleiras estão diminuindo, mas existem outras medidas que dizem que algumas outras estão aumentando.

BO: Como é feita a escolha dos autores no IPCC? Qual o peso das intervenções políticas?

CH: É feita uma reunião plenária e os working group chairs são escolhidos e, aí, eles começam a montar os grupos. É um processo complexo, de muitas interações. As academias de ciência fazem sugestões, e os governos também. E como é um painel intergovernamental, as indicações de governantes são legítimas.

– Brasilianas.org conversou com alguns pesquisadores brasileiro ligados ao IPCC para saber a opinião deles sobre o relatório do IAC. Confira aqui.

 

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