Coronavírus: etnia munduruku perde duas lideranças em 24 horas

Cacique Vicente Saw e Amâncio Ikon Munduruku perderam a vida para o vírus; até o momento, cinco anciões da etnia morreram em meio à pandemia

Amâncio Ikon Munduruku faleceu aos 59 anos, vítima do novo coronavírus. Foto: Reprodução/Facebook - Associação Indígena Pariri - Munduruku, Médio Tapajós

Jornal GGN – A etnia indígena munduruku perdeu duas lideranças em 24 horas para o coronavírus: Amâncio Ikon Munduruku, aos 59 anos, e o cacique Vicente Saw, aos 71 anos.

Com isso, a etnia perdeu cinco anciões para a doença até o momento: além de Amâncio e Vicente, morreram Jerônimo Manhuary (86 anos), Angélico Yori (76 anos) e Raimundo Dace (70 anos). Outros seis Munduruku estão internados em estado grave nas cidades paraenses de Jacareacanga e Itaituba.

O anúncio foi feito pela Associação Indígena Pariri – Munduruku, Médio Tapajós. “Nosso choro também vem trazer a memória de uma vida de muita luta, sempre com serenidade e alegria. Também uma vida de dedicação e ensinamentos a seus filhos, familiares, parentes e amigos”m diz a entidade, em nota.

Amâncio Ikon Munduruku esteve em sua casa com febre e falta de ar durante cinco dias até ser encaminhado a uma Unidade de Pronto Atendimento em Itaituba, onde testou positivo para COVID-19.

“Com muito esforço dos nossos parceiros e principalmente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, conseguimos que fosse transferido para um hospital em Belém, pois a cidade de Itaituba não tem uma estrutura de UTI minimamente capaz de atender os casos graves”, diz a associação. “O descaso do Governo com a saúde pública e a precariedade de atendimento na saúde indígena não são por acaso. Todos os que sempre se omitiram e ignoraram nossas reivindicações pela saúde e os que agora se omitem diante dessa situação emergencial e descontrolada são responsáveis”.

Amâncio foi um dos fundadores da Associação Indígena Pariri, em 08 de novembro de 1998. Até 2005, esteve na coordenação da entidade e atualmente era vice-coordenador, somando mais de vinte anos de luta. À frente da Associação, realizou inúmeros projetos e conseguiu introduzir a educação bilíngue nas aldeias do médio Tapajós.

Junto a associações do alto Tapajós, atuou na defesa dos direitos territoriais do povo Munduruku e dos direitos indígenas em geral. Participou ativamente do Ibaorebu, projeto de educação diferenciada, e se formou em Agroecologia em 2015.

“Seus conhecimentos sobre a história e o pensamento do nosso povo fizeram dele um grande professor para todos nós. Seus saberes foram e são fundamentais para os processos de demarcação de nossas terras e para despertar nos jovens o orgulho de ser Munduruku”, diz a associação.

 

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