Corrupção caiu como uma luva para o projeto de desmonte da Petrobras

Não importava que os desvios estimados representassem apenas 7% do faturamento da estatal. A corrupção foi eleita como o responsável por “quebrar” a Petrobras

Por Juliane Furno

No Brasil de Fato

A Petrobras, a Lava Jato e os impactos econômicos de uma operação desastrosa

Dia 3 de outubro celebrou-se mais um aniversário da Petrobras, uma empresa símbolo da autossuficiência energética, da industrialização nacional e da soberania brasileira. A Petrobras é uma empresa nacional que corporifica as principais divergências políticas brasileiras. Desde a sua edificação, uma parcela do empresariado nacional associado ao capital estrangeiro, parte da mídia e representantes das multinacionais colocaram-se em aberta oposição à sua existência e ao monopólio estatal. Sob argumentos diversos, tais como ausência de capacidade tecnológica nacional, escassez de dinheiro para o montante exigido em investimentos e ineficiência das empresas estatais, entre outros.

Erramos os analistas. A Petrobras, ao longo da sua existência, foi líder no desenvolvimento tecnológico, principalmente na tecnologia de fronteira na produção de petróleo no mar; demonstrou capacidade e ousadia descobrindo o Pré-Sal e foi responsável por parte importante do desenvolvimento econômico e industrial da economia brasileira em anos recentes, estimulando uma grande cadeia de fornecedores e produzindo matéria prima essencial à atividade industrial a preços baixos e em moeda nacional.

Esses mesmos setores comprometidos com a entrega do país precisaram mobilizar, então, outro argumento para a destruição dessa empresa. A corrupção caiu como uma luva. Embora as cifras da estimativa de corrupção na empresa sejam muito elevadas, na ordem de R$ 6 bilhões de reais, o lucro bruto da empresa foi de R$ 80 bilhões. Não importava que isso representasse apenas 7% do faturamento da estatal. A corrupção foi eleita como o responsável por “quebrar” a Petrobras. A partir disso se abriu dois campos de ofensiva da direita conservadora brasileira: a) o desgaste da imagem da Petrobras e a criminalização da sua política de investimento; b) a demonização do PT. Isso está mais claro, atualmente, após as denúncias do Intercept sobre as motivações políticas da Operação.

A Operação Lava Jato e seu espetáculo midiático levaram a Petrobras a reduzir o seu montante de investimento em 25%. Segundo cálculo do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep), utilizando dados da Matriz de Absorção de Investimento, cada R$ 1 bilhão investimento somente na Exploração e Produção de Petróleo impacta o PIB brasileiro em R$ 1,28 bilhão e cria mais de 26.319 mil ocupações diretas. Ou seja, a redução dos investimentos da Petrobras, de forma abrupta em função das denúncias da Lava Jato, custou milhões de empregos e forte contratação no Produto Interno Brasileiro (PIB).

Leia também:  Itália também resistia ao confinamento, e hoje é País com mais mortes por coronavírus

Somente entre 2015 e 2016, a Operação Lava Jato foi responsável por algo em torno de 2,5% da retração do PIB, uma queda da arrecadação de R$ 146 bilhões relacionada, principalmente, à paralisia das atividades nos setores metalmecânico, naval, construção civil e engenharia pesada. Esses não apenas são setores intensivos em mão de obra – no caso da Construção Civil – como são setores de ponta, representando uma das poucas atividades econômicas das quais o Brasil tinha competitividade internacional, prioritariamente no caso da engenharia pesada.

Ainda que a gente não possa isolar outras variáveis importantes como a recessão econômica de forma geral, a queda significativa do número de emprego em 2014 – quando a economia brasileira vivia sua menor taxa de desempenho da história – demonstra o que foi, puramente, efeito de uma Lava Jato desastrosa.

Gráfico: Total de investimentos da Petrobras e total de emprego nas empresas fornecedoras da Petrobras entre 2003 e 2016

Fonte: Petrobrás e DISEP/IPEA a partir do cadastro de fornecedores da Petrobrás e da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS/MTE). Elaboração Própria.

Nesse gráfico fica claro a relação direta que tem a queda do investimento da Petrobras e a completa destruição de empregos nas empresas fornecedoras.

Essa é a fórmula de desmonte de um país: enfraquecer sua principal empresa estatal, líder mundial na exploração de petróleo em águas profundas; criminalizar sua política de investimento; reduzir os empregos e as encomendas nas empresas fornecedoras e, por fim, atacar um dos poucos setores econômicos nacionais com elevada produtividade e alto desenvolvimento tecnológico. Tudo isso atende aos interesses daqueles que querem um Brasil mais submisso, mas dependente e com reduzida soberania energética e econômica.

Leia também:  Banco Central zera estimativa para o PIB brasileiro em 2020

Juliane Furno é doutoranda em Desenvolvimento Econômico na Unicamp, formadora da CUT e militante do Levante Popular da Juventude.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

3 comentários

  1. Não pela minha vontade, o seguinte comentário caiu em outra matéria.

    corrupção caiu como uma luva…
    Qualquer f. coisa, serviria.
    Se o caso fosse de falta de fé, serviria.
    Se fosse o caso de contribuição ao aquecimento global, serviria.
    Se fosse acusação de gigantismo estatal, serviria.
    Ser cria de Getúlio, serviria.
    O fundamental foi a propaganda!
    24 horas por dia durante 15 anos de mirians leitões, merdovais pedreiras, falando de Camarotis globlais do plimplim e de suas metástases, bastariam até para provar que a terra é plana!
    Até engenheiros da Petrobras acreditaram que sua empresa era podre e seria melhor entregar (conforme prometeu ÇERRA45 à Chevron-Texaco) os seus ricos empreguinhos para os galãs doutores do north!

  2. Não pesquisei o lucro bruto da Petrobrás (acompanho o liquido e o operacional), nem o período considerado, mas sei que 6 bi não é 7% do “faturamento”, mas apenas deste suposto lucro bruto mencionado.
    O percentual destes tais 6 bilhões (que foram contabilizados 2 vezes como prejuízo!!!) é muito menor, já que reflete a totalização de cerca de 10 anos, conforme definido pela farsajato (isolando o período tucano de FHC).
    Sendo assim, isto dá uma média de 0,6 bi /ano, contra um faturamento que beira os 300 bilhões.
    Adotando-se uma média conservadora de apenas 200 bilhões/ano no período, isso daria apenas …
    0,3% do FATURAMENTO.

    2
    1

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome