Credulidade, por Wilson Ramos Filho

    A série produzida pela GloboPlay sobre João de Deus, condenado e preso, tenta explicar a dificuldade inicial em conseguir que uma das vítimas verbalizasse a violência sofrida

    Credulidade

    por Wilson Ramos Filho (Xixo)

    Vários amigos e conhecidos, apesar das centenas de denúncias de abuso sexual praticadas por João de Deus, não se conformam. Não pode ser verdade, argumentam.

    A fé tem dessas coisas. Mesmo diante de evidências, o que não pode ser verdade só pode ser mentira. Admitir a procedência das denúncias teria um efeito devastador em seu sistema de crenças.

    A série produzida pela GloboPlay sobre João de Deus, condenado e preso, tenta explicar a dificuldade inicial em conseguir que uma das vítimas verbalizasse a violência sofrida e, ao mesmo tempo, a quantidade de mulheres que, depois da primeira decidir-se a falar, apresentaram-se como também vítimas do curandeiro. O número delas contam-se em centenas.

    O fio condutor da reportagem parece ser demonstrar que o silêncio de tantas vítimas durante décadas decorria, fundamentalmente, do temor de retaliação espiritual, além do óbvio constrangimento social em assumirem-se como cúmplices no silêncio.

    Admitir ter se deixado envolver em práticas libidinosas para não melindrar a entidade incorporada pelo charlatão causaria vergonha e, se não alcançada a graça ou milagre esperados, causaria arrependimento, segundo determinada linha argumentativa. Não estou bem certo de que essa hipótese seja totalmente aceitável. A questão me parece bastante mais complexa.

    Teoricamente, tendo em vista o vigor físico e a idade do molestador e a quantidade de vítimas verificada, talvez nem todos os relatos correspondam aos fatos. O efeito manada não pode ser desconsiderado. Todavia, muito mais plausível seria admitir a ocorrência de subnotificação. O número de molestadas seria muito maior. Apenas uma minoria teria se apresentado como vítima, por não se considerar como tal. Os atos libidinosos teriam sido praticados pelo espírito, não pelo curandeiro. A fé tem disso.

    Não possuo formação teórica nem afinidade temática com esoterismos para formular uma proposta de interpretação sobre as motivações que embasam os relatos ou os silêncios. Causam-me repulsa.

    Admito minhas limitações, também, para entender as reações negacionistas por parte de pessoas razoáveis que, mesmo diante de tudo o que foi divulgado, continuam a acreditar na santidade de João de Deus e em seus poderes sobrenaturais. Essas pessoas simplesmente não conseguem reagir de modo distinto, suas crenças e sua fé não permitem o exercício crítico em decorrência de um obstáculo que não é apenas epistemológico, mas também axiológico e cognitivo.

    Problematizar essa questão, todavia, pode ser útil para um início de reflexão sobre o bolsonarismo. Apesar de tudo, das evidências de corrupção e de envolvimento com a criminalidade, da destruição de direitos e da institucionalidade democrática, da irresponsabilidade no combate à epidemia que já matou mais de 53 mil pessoas, do fracasso na desastrosa gestão econômica, do isolamento internacional do país, das grosserias e das infâmias, dezenas de milhares de brasileiros e brasileiras seguem apoiando Bolsonaro e sua quadrilha. Essas pessoas, tanto quanto as que não acreditam no que se sabe a respeito de João de Deus, não conseguem formular juízos críticos a respeito de suas escolhas eleitorais e da inerente maneira de existir em sociedade que pressupõem.

    Não existem arrependidos entre os que não votaram em Bolsonaro. Isso é fato. Do lado de lá, entre os que o elegeram também não. Os que se dizem arrependidos repetiriam o voto para impedir a volta do PT ao governo. Entre os crédulos nos poderes sobrenaturais, míticos, da mesma forma, não há arrependimentos sinceros.

    Em ambas há bloqueios epistemológicos, axiológicos e cognitivos a impedir compreensões diversas da realidade. O conjunto de crenças, apesar das evidências, inviabiliza a prevalência da racionalidade. Não pode ser verdade. Só pode ser mentira. Tenhamos fé. Mito, mito, mito.

    Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, integra o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

    Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

    Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

    Apoie agora

    3 comentários

    1. Cheguei no Brasil numa cadeira de roda, com as pernas inchadas, avermelhadas e com diagnostico preciso de CRPS. Uma amiga que tinha se curado de um cancer nos olhos me disse que fosse a Abadiania. Como era ;onge, decidi ir a lar do Frei Luis em Jacarepagua. Nao deu em nada.
      As dores e muito desconforto me deu coragem de ir a Abadiania. Fiquei 4 semanas e sai de la sem precisar cadeira de roda e ajuda pra caminhar.A noite nos reuniamos na Casa conversando, orando ou em silencio com outras pessoas. H

      Haviam pessoas de muitos paises extrangeiros e como falo varios idiomas socializava com eles e os Brasileiros que gostavam de se comunicar com eles.
      Nunca vi nada, durante o dia ou a noite que corroborasse as denuncias feitas. Vi varias jovens e mulheres de meia idade e nao percebi, nem senti ninguem constrangido.
      quero fazer a ressalva tambem, que sai curada e consegui ficar varios anos sem ter dores.
      Voltei a Casa. para agradecer e me alegro de te-lo feito. Assisti a um milionario Russo dando um cheque de milhoes de reais a Joao de Deus e Joao recusando.
      Assim que, em meio a tanta atencao midiatica por detalhes e outros entretenimentos, deixo aqui meu testemunho pois seria injusto nao faze-lo.
      Grata sou a Casa pois fui a varios centro espiritas pra fazer sessao de cura e foi la em Abadiania que sai caminhando sem dores. Ja ia me esquecendo, tomei a pi;ulas do Frei Galvao, fiz tantas coisas pra me aliviar das dores e imobilidade, em vao.
      Realidade e que sim existem muitas falcatruas em todo lugar e nao estou dizendo que nao existem. Apenas afirmo que nao posso cuspir no prato que comi. Joao de Deus e a casa me ajudaram e sou muito grata a todos.

      • Não é o suposto médium ou qualquer outro(a) que cura. É a própria pessoa que por algum processo que a Ciência ainda desconhece proporciona a cura. Já estive lá – sem saber destes casos de abusos, mas na 1ª vez estranhei o porquê de não “ver” visitantes e frequentadores da cidade no local. Era basicamente estrangeiros e de outros estados como eu. Observei nas 3 vezes que estive lá que a força e a magia pela cura estavam nas próprias pessoas. Já “senti” isso em todos os lugares “religiosos” por onde andei. Foi você que se curou. Foi algo que você fez e se materializou. Eu tenho minhas mazelas que ainda se perpetuam, mesmo ter passado por estes(as) iluminados(as). A cura vem de nós mesmos. Não se pode servir a dois DEUSES.
        Fico feliz por você ter conseguido. Sério mesmo. Isso é mais uma prova. Ele e tantos outros(as) iluminados por Deus ou qualquer entidade invisível que se autoproclamam curandeiros, guias ou detentores da VERDADE. A grande maioria é composta de farsantes, aproveitadores e pessoas de distúrbios de personalidade – seja aqui no brasil, na índia, Eua e mundo. Não esqueça, você é e foi o responsável pela sua cura.
        Felicidades

    2. O autor mistura tudo. Vamos lá.
      João de Deus e suas praticas ja era bem conhecido, inclusive nos meios espiritas.
      Com relação a dinheiro principalmente. Sempre foi chegado. Coisa que o espiritismo condena, aliás.
      Mas é fato que com certeza ele tinha algum poder de cura, provavelmente em vários casos.
      Ja os abusos deviam ser evidentes para quem conhecia de perto e claro que são reais e subnotificados.

    Deixe uma mensagem

    Por favor digite seu comentário
    Por favor digite seu nome