Criar reservas é estratégia contra mudanças do clima

Manter e criar áreas protegidas são ações estratégicas para conseguir efeito imediato no combate as mudanças climáticas. O desmatamento é responsável por 15% das emissões de gases de efeito-estufa no mundo, a frente dos automóveis, navios ou aviões. Para se ter ideia, só no Brasil, a degradação de áreas verdes respondem por 75% do gás carbônico emitido pelo país.

A avaliação é dos autores do estudo “Terras indígenas, unidades de conservação e o desaceleramento das mudanças climáticas” (Indigenous Lands, Protected Areas, and Slowing Climate Change), publicado em março, no periódico científico PLoA Biology.

As reservas oficialmente protegidas, e criadas entre 2003 e 2007, resultaram na prevenção do desmatamento de 259 mil quilômetros quadrados – maior que o estado de São Paulo. Todo esse espaço estoca uma quantidade de carbono equivalente a um terço das emissões mundiais de gases de efeito-estufa que seriam liberados pela queima e degradação da biodiversidade.

Desde 2002, o desmatamento na Amazônia Brasileira foi de 7 a 11 vezes menor dentro das terras indígenas e unidades de conservação (parques, estações ecológicas, reservas extrativistas e outras), em relação às demais áreas oficialmente protegidas.

A eficácia das áreas protegidas, ou seja, a redução efetiva das emissões, tende a ser maior nas unidades de conservação localizadas nas regiões de maior pressão de desmatamento – como Mata Atlântica, situada no espaço economicamente mais ativo do país (Sudeste) e nos biomas amazônicos que fazem fronteira à agropecuária.

Em 2009, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), já havia publicado levantamento sobre o potencial carbônico das terras indígenas brasileiras que estocam cerca de 32% do gás de efeito estufa da Amazônia – o equivalente a 15 bilhões de toneladas de compostos carboníferos, presentes nos trocos, galhos e solos da floresta, em um território de 109,8 milhões de hectares.

Por meio de simulações, que compreendem o período de 2008 a 2050, os pesquisadores do Ipam concluíram que se as reservas não forem protegidas, a derrubada e queima da vegetação resultará na emissão de 5 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera, até 2050. O total de CO2 estimado em terras indígenas é 2,5 vezes superior à redução de gases-estufa encomendada no primeiro período do Protocolo de Quioto.

A taxa atual de desmatamento na Amazônia brasileira é considerada alta (maior que 1 milhão de hectares/ano), enquanto o desmatamento dentro das áreas protegidas é menor que 3% do território total das reservas de conservação (que inclui espaços indígenas e de comunidades locais).

CO2 é responsável por apenas 30% das mudanças climáticas

Em entrevista, concedida à Agência Dinheiro Vivo em Dezembro de 2009, o engenheiro agrônomo Odo Primavesi, especialista que compõe o grupo dos 17 cientistas brasileiros signatários do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC), afirmou que os gases de efeito estufa agravam, sim, as mudanças climáticas. Entretanto, respondem por apenas 30% do fenômeno.

O aumento do processo de arenização e de áreas degradadas, que somam hoje 47% da superfície terrestre continental, tem papel significativo no aumento de temperaturas.

Leia trecho da entrevista:

Qual é então o problema dos outros gases de efeito estufa: gás carbônico, gás metano, óxido nitroso, ozônio e outros?
Odo Primavesi – Seu aumento agrava situações de retenção de calor quando em maior concentração. O problema é que a presença desses gases é menos dinâmica que o do vapor de água, e retém calor até em regiões que não estão nubladas e nas quais a radiação solar entra com maior intensidade, como nas regiões áridas, semi-áridas, em processo de arenização e áreas degradadas, que já somam 47% da superfície terrestre continental. Os modelos de simulação mostram que esses gases explicam somente 30% do aquecimento global e as mudanças climáticas.

E quais são essas áreas que produzem mais calor?
OP – Os oceanos são os grandes acumuladores de calor e reguladores gerais do clima global, mas o calor em excesso (acima de 300 W/m2) são produzidos por regiões áridas, semi-áridas, em processo de arenização e áreas degradadas (inclui áreas urbanas). Fotos de satélite mostram essas regiões que irradiam ondas longas (ROL; ou radiação de calor ou radiação infravermelha) em excesso, mais do que os oceanos.

Então o aumento de gás carbônico é inócuo, é blefe?
OP – Não, agrava uma situação de degradação ambiental que vem aumentando, mas não é a causa única. Áreas degradadas são mais secas e não têm água para formar nuvens, e por isso esquentam mais e irradiam mais calor, ficando assim maior quantidade de calor retida pelos gases de efeito estufa. Um dos sinais de que a concentração de gás carbônico está ficando insustentável é a acidificação dos oceanos, um sinal vermelho para a vida marinha útil para a indústria pesqueira e nossa alimentação.

– Acesse as perguntas e respostas de Odo Primavesi na íntegra:
IPCC apóia interesses políticos, diz pesquisador

Para acessar o relatório publicado pelo PLoA Biology (em inglês), clique aqui.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome