Crise dos Correios: politização e jornais

Por Roberto Kodama

Globo:

E nos Correios, cai presidente. O único técnico Correios, sob novo comando, entram na campanha Autor(es): Agência O Globo O Globo – 29/07/2010

Sem vinculação partidária, Carlos Henrique Custódio foi demitido da estatal e será substituído por David José Matos, apadrinhado do PMDB do DF, de Joaquim Roriz.

Lula demite presidente da estatal e nomeia dois novos diretores para a companhia a dois meses das eleições

Depois de quatro anos à frente dos Correios, onde estava desde julho de 2006, o presidente dos Correios, Carlos Henrique Custódio, foi demitido da presidência da estatal. Nos bastidores, a justificativa do governo foi que sua exoneração teve como causa a crise operacional pela qual passava a companhia. No entanto, segundo fontes ligadas à estatal, a exoneração abriu caminho para um rearranjo no comando da empresa, facilitando o uso político dos Correios na campanha eleitoral, a dois meses do pleito.

Custódio, funcionário de carreira da Caixa sem ligação partidária, foi substituído por um nome apadrinhado pelo PMDB do Distrito Federal: David José Matos, funcionário de carreira da Eletronorte por 30 anos e também filiado ao partido, que foi secretário de Obras do ex-governador Joaquim Roriz e que atualmente ocupava a secretaria-geral da Novacap (empresa responsável por projetos de urbanização da capital). O ato de exoneração será publicado hoje no Diário Oficial.

Também foi demitido o diretor de Gestão de Pessoas da empresa, Pedro Bífano de Magalhães, irmão do deputado João Magalhães (PMDB-MG). Ele era bastante ligado ao ex-ministro das Comunicações, também do PMDB, Helio Costa. Foi nomeado ainda o novo diretor de Operações, Eduardo Artur Rodrigues Silva, em substituição a Marco Antonio Marques de Oliveira, exonerado em 17 de junho deste ano.

Custódio foi comunicado sobre sua demissão no fim da tarde de ontem, pelo ministro das Comunicações, José Artur Filardi. Ele chegou a participar de uma solenidade em comemoração aos 150 anos dos ministérios da Agricultura e dos Transportes quando, ao lado do presidente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lançou um selo comemorativo.

Valor:

LULA DEMITE CHEFIA DOS CORREIOS PARA EVITAR POLITIZAÇÃO DE CRISE NA ESTATAL

Autor(es): Rafael Bitencourt, Raymundo Costa e Fernando Travaglini Valor Econômico – 29/07/2010

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva demitiu ontem o presidente da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), Carlos Henrique Custódio, um representante do PMDB no governo, apadrinhado dos senadores Renan Calheiros e Romero Jucá, líder do governo no Senado.

O novo presidente dos Correios, também nomeado ontem, é o engenheiro eletricista David José de Matos, até agora secretário geral da Novacap e ex-funcionário da Eletronorte. A empresa não sai das mãos do PMDB porque David é ligado ao deputado Tadeu Filipelli (PMDB-DF), candidato a vice-governador do Distrito Federal na chapa encabeçada por Agnelo Queiroz (PT). David de Matos é também ex-presidente da Agência Reguladora de Águas e Saneamento do Distrito Federal e ex-secretário adjunto de Infraestrutura e Obras. Exerceu esses cargos quando Filipelli comandava o setor de obras do governo de Joaquim Roriz, à época no PMDB.

Foi demitido também o diretor de Recursos Humanos da ECT, Pedro Magalhães, que será substituído por Nelson Luiz Oliveira de Freitas. E para substituir o diretor de operações Marco Antonio Oliveira, demitido no mês passado, foi nomeado também ontem Eduardo Arthur Rodrigues Silva, que já foi presidente da Variglog.

O ministro das Comunicações José Artur Filardi, em entrevista após a reunião em que comunicou a demissão a Custódio, disse ontem que não há um motivo específico para sua demissão mas a decisão já havia sido tomada, por consenso, no governo.

“Precisava mudar para dar uma oxigenada na administração”, disse Filardis. Embora tenha dito que não há motivos, citou dois: a demora na definição da licitação das franquias, até hoje parada no Tribunal de Contas da União, e também de concursos públicos para contratações, já aprovados desde o ano passado.

A assessoria da ministra Erenice Guerra, da Casa Civil, confirmou mais cedo as demissões e nomeações e informou que a troca de comando se deu por uma recomendação também dela e do ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, para resolver o problema de gestão na empresa, que vem passando por dificuldades e estava sendo monitorada também pelo Tribunal de Contas da União.

A mudança da direção dos Correios, conforme havia sido acertado com o ex-ministro das Comunicações, Hélio Costa, candidato ao governo de Minas Gerais, seria feita após as eleições, a partir de outubro. Foi, porém, precipitada e, uma das razões para não esperar o fim da campanha eleitoral, teria sido um problema com o site da empresa. Os Correios usaram o seu site para publicar orientação a candidatos sobre como fazer campanha, usando os produtos da empresa. O governo considerou isso uma espécie de gota d”água para caracterizar os erros de gestão.

Segundo a Casa Civil, foram várias feitas reuniões entre os ministros Erenice, Paulo Bernardo, do Planejamento, e José Filardi, das Comunicações, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para avaliar os problemas da empresa. A expectativa é de que o trabalho de reformulação dos Correios se intensifique, já que “não dava para a ECT ficar sendo administrada pela Casa Civil e pelo Planejamento”, disse uma auxiliar da ministra Erenice Guerra. As exonerações e nomeações serão publicadas hoje no “Diário Oficial da União”.

Em entrevista à saída do prédio do Ministérios das Comunicações, após receber a notícia de sua demissão, Custódio disse que não foi informado sobre os motivos de sua saída. Ele rebateu a tese de que o estopim teria sido o site. “O serviço de mala direta sempre existiu e seria um serviço a mais para aumentar a receita”, disse, referindo-se a um dos produtos a serem usados na campanha, segundo orientação do site. Custódio foi nomeado após a grave crise dos Correios, que motivou a criação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) e causou sérios danos ao governo. A CPI dos Correios, de 2005, resultou na descoberta do Mensalão.

Mas a empresa, mesmo com a CPI, voltou para a mão de políticos. Custódio considera que fez um trabalho “importante” e teria conseguido eliminar os rumores de que a única solução para eliminar os problemas da empresa seria a privatização. “Cumpri meu ciclo com as melhores intenções, fiz o meu melhor, não me arrependo de nada, nenhum minuto”, avaliou o ex-dirigente dos Correios.

Momentos antes de ser demitido, Custódio participou, no início da tarde de ontem, de solenidade dos 150 anos dos ministérios do Transporte e da Agricultura. Na semana passada, Custódio imaginava que poderia usar a ocasião para falar com Lula a respeito de seu plano de criar uma empresa área mista, na qual um sócio privado seria parceiro da ECT. Essa nova empresa já havia recebido o sinal verde do Ministério das Comunicações e aguardava a aprovação de Lula.

Custódio entrou no palco por volta das cinco da tarde, entregou os selos comemorativos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e deixou o evento em direção ao gabinete do ministro das Comunicações, onde foi comunicado oficialmente de sua demissão. (Com Paulo de Tarso Lyra) 

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