Da esmola, da solidariedade e o Índio

Publicado originalmente em: http://www.unipress.blog.br/da-esmola-da-solidariedade-e-o-indio/

 

Muitos textos medievais tinham por hábito iniciar seus títulos com a utilização da preposição, o que lhes dava o tom de um tratado sobre o tema a respeito de qual discorreriam. Ainda que este texto seja muito mais modesto do que isso, a tonalidade rememorada lhe é pertinente, porque em determinadas situações faz-se necessário usar um pouco da estratégia cênica para que se possa fazer compreender.

Em outras, quando se dialoga com alguém que puramente está encenando, ou se utiliza da mesma artimanha, ou o interlocutor julga estar sendo convincente.

O “final da pré-campanha” eleitoral foi marcado pela dificuldade da candidatura tucana de definir um nome para compor chapa com José Serra, na condição de vice-presidente. Se inicialmente se cogitava contar com um nome denso, como o governador Aécio Neves, do segundo mais populoso estado do país, herdeiro do patrimônio simbólico representado por Tancredo Neves, no contexto da redemocratização, em 1985, o que se verificou foi uma sucessão de consultas com a rejeição de todos os convidados, até uma tentativa de golpe familiar no Paraná.

A solidez dessa articulação era tanta que bastou um twitter para gerar uma ameaça de decomposição de uma coligação eleitoral de 16 anos, de tal modo que sob essa ameaça, o candidato Serra aceitou como candidato a vice o inexpressivo e desconhecido deputado Índio da Costa, ainda que tente manter a majestade, dizendo que não aceita imposições e que não negocia cargos.
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Índio da Costa, surpreendido com a situação, e provavelmente envaidecido com ela, dentre suas primeiras declarações, pronunciou-se dizendo que não está por dentro de nada, apesar de aceitar o papel que lhe atribuíram, ainda que todos já vejam que sem compreender o seu significado.

Personagem improvisado nessa empulhação, passou a ser objeto do interesse da imprensa, que em poucas horas descobriu o seu currículo: integrante das hostes do ex-prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, foi secretário de administração. Desse período herda contra si o relatório de uma CPI da Merenda Escolar relatada por uma vereadora do PSDB, que, por causa dele, abandonou a campanha Serra. Foi também vereador, sendo célebre seu projeto de lei que pretende multar quem der esmolas nas esquinas e semáforos.

Um exemplo de insofismável inteligência esse projeto de lei: multar quem der esmolas nas esquinas e semáforos, para evitar que as crianças sejam exploradas por adultos que as usam para arrecadar dinheiro. Quem iria aplicar essas multas? Quantos fiscais e em quantos pontos diferentes da cidade eles teriam que estar?

Se o problema era evitar o uso das crianças pelos exploradores, por que o vereador Índio da Costa não propôs uma CPI que dialogasse com a área de assistência social e segurança pública para encontrar soluções mais estruturais para o problema?

Porque no cerne da ideologia neoliberal não há mesmo espaço para a solidariedade. Há a soberba e a vaidade. Há a sanha triunfalista que cultua como mérito a escolaridade, preferencialmente no exterior, em diversos idiomas, ao invés da inteligência. Há a sanha que cultua como eficiente o menor gasto, ao invés do maior resultado.  

Prefiro dar esmolas!

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