De Luiz Eduardo Soares sobre Wanderley Guilherme dos Santos

Por Luiz Eduardo Soares, pelo Facebook

Em Montreal, onde vim participar de uma conferência, recebi a notícia do falecimento de Wanderley Guilherme dos Santos, um dos principais cientistas sociais de nosso país, fundador do IUPERJ, onde fiz meu doutorado e fui professor por 15 anos. Impossível dizer tudo o que devo a Wanderley, meu orientador no doutorado e uma das pessoas que mais marcaram minha formação.

Para vocês terem uma ideia de como ele era apaixonado pelo desafio criativo de conhecer -sempre conectando o conhecimento à transformação do Brasil-, um belo dia, lá por 1982, chego a sua salinha no IUPERJ para ouvir seus comentários a meu trabalho de final de semestre, e o encontro cercado de pilhas de livros que acabara de receber da Leonardo DaVinci (onde tínhamos contas e pela qual importávamos livros, sobretudo da França). Eram dezenas de obras de linguística, antropologia, filosofia, semiologia e teoria literária.

Surpreso e encantado com aquela cena, aos poucos me dei conta de que ali estava a bibliografia que eu citara. Ele havia gostado de meu trabalho e, com a sinceridade de sempre, me disse: não conhecia, tenho de conhecer. Vou ler, depois conversamos. Pouco depois, Wanderley frequentou cursos no programa de pós-graduação em antropologia social no museu nacional, da UFRJ. Como aluno.

Notem: ele já era amplamente reconhecido como um dos maiores intelectuais de sua geração. Sentou-se como aluno, leu, estudou, participou das aulas. Sem pudor, compartilhando dúvidas e reflexões. Um semestre depois, organizou uma série de conferências sobre teoria da literatura, para a qual convidou alguns dos melhores especialistas. De novo, sentou-se entre os alunos.

Esse foi o Wanderley que conheci, apaixonado pelo conhecimento, pelos livros, a leitura, o estudo, a pesquisa e o debate mais aberto possível, mais democrático possível, mais rico, rigoroso e sofisticado possível, e com a fome insaciável pela invenção de meios de ajudar nosso país a sair do atoleiro obscurantista e autoritário. Um exemplo extraordinário para muitas gerações e para mim, pessoalmente.

Exemplo que tento imitar aos trancos e barrancos, com minhas limitações, e que emulei a ponto de afastar-me para seguir meu próprio caminho, não raro conflitante com o dele, como ele próprio fez com seus mestres, prezando a autonomia com a qual se reinventava sempre. Obrigado por tudo, Wanderley, que possamos honrar sua memória, lutando pela liberdade do conhecimento, pela multiplicidade dos caminhos e pela transformação radical do Brasil.

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1 comentário

  1. Não há retoques sobre textos de admiração.

    O problema é quando parte para a “humilde” missão de mudar radicalmente o Brasil.

    Aí nem LES nem WGS têm estofo militante para tanto.

    LES manchado para sempre por sua associação quase ingênua e arrogante a garotinho.

    WGS a Ciro.

    Como se vê, são raros os que pensam e fazem com alguma coerência.

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