Decotelli tomou, Bolsonaro tomou, mas a Educação brasileira tomou mais ainda

Foi sacrificado, Bolsonaro tomou e a educação brasileira tomou mais ainda. Em seu lugar, um Ministro criacionista, seguidor de teses anacrônicas

Ouso dizer que a melhor pessoa que surgiu nesse mar revolto de ódios, frustrações, polêmicas, estimulados por um presidente tresloucado, nesse zoológico de crocodilos que ascenderam à cena pública, a melhor pessoa que surgiu foi Carlos Decotelli, o quase Ministro fissurado em currículos.

Foi crucificado pelas incorreções no seu currículo, pelo fato de ser Almirante e por ter sido convidado por Bolsonaro para ser Ministro.

Sua reação, em todos os momentos, foi de mansidão, no melhor sentido do termo. Não cedeu à ira, nem mesmo quando foi crucificado por um ataque traiçoeiro da Fundação Getúlio Vargas. Aliás, a FGV deve uma explicação sobre a desqualificação de seu professor que, segundo depoimentos variados, sempre teve um bom desempenho nas salas de aula.

Tenho plena certeza de que teria sido um bom Ministro, por sua propensão ao diálogo, por não ter feito nenhuma concessão ao terraplanismo, e por sua profissão de fé nos bons princípios da educação.

Foi sacrificado, Bolsonaro tomou e a educação brasileira tomou mais ainda. Em seu lugar, um Ministro criacionista, seguidor de teses anacrônicas.

Aqui, seu artigo no Globo de hoje

No meio de toda a polêmica envolvendo minha nomeação para assumir o cargo de ministro da Educação, recebi um telefonema de um dos muitos alunos de todos esses anos de magistério com quem mantenho contato. Indignado, ele me perguntava: “Professor, você já deu aula para milhares de alunos da FGV. Tem uma carreira reconhecida. Por que eles estão fazendo tudo isso com você?”

Tive dificuldades para responder à pergunta naquele momento e confesso que ainda não sei bem a resposta. Antes de ser avô, pai e marido, eu já era professor. Sempre me identifiquei como docente e fui reconhecido publicamente por isso. Nunca imaginei passar por um processo agressivo de questionamento de minha história, no qual todos os meus anos de estudo e de horas em sala de aula foram jogados instantaneamente no lixo, sem que pudesse me defender.

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Mas qual é a verdade? A verdade é que, de fato, sou professor há mais de 40 anos. Também é verdade que concluí os créditos do curso de doutorado em Administração, conforme registro de certificado da universidade, e entreguei uma tese que foi avaliada. Por fim, fiz uma pesquisa de pós-doutorado na Alemanha. Meus registros comprovam isso e estão à disposição de todos.

Além disso, como é público, dou aulas na FGV desde 1986. Meus 40 mil alunos de cerca de 1,3 mil turmas estão aí para testemunhar. Desafio qualquer um a desmentir esse fato!

Eu e muitos colegas trabalhamos arduamente como titulares de disciplinas dos MBAs da FGV. Importante ressaltar que as avaliações dos alunos são rigorosamente controladas, sendo que obtive a rara nota mediana de 10 em todas as turmas onde lecionei nos últimos 18 meses. Valem, para mim, mais do que os discursos politicamente motivados emitidos por algumas instituições.

Diante disso, preciso também reconhecer meus erros em todo o processo. Em primeiro lugar, meu currículo tinha, sim, falhas técnicas, como dizer que concluí o curso de doutorado em vez de dizer que concluí os créditos do curso de doutorado, e que fiz pós-doutorado, em vez de dizer que fiz pesquisa de pós-doutorado.

Errei também, pecando pela soberba, em acreditar que conseguiria me defender sozinho e teria tempo para mostrar a todos que estou capacitado para assumir o MEC por minha história como professor e observador atento das políticas de educação. Tenho propostas para melhorar o ensino no Brasil, a partir de evidências sólidas e do diálogo que sempre mantive com outros educadores.

Fui pego de surpresa pelo honroso convite feito pelo presidente Jair Messias Bolsonaro — a quem, aliás, agradeço imensamente pela confiança — e não fui capaz de me explicar ou corrigir quaisquer incorreções ou equívocos. Acabei sendo vítima de um tsunami de “denúncias” que ofuscou toda minha trajetória e foi agravado pela inexplicável e pusilânime atitude da FGV de negar meu vínculo com a instituição.

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No entanto, o que mais me incomoda em todo esse processo é não ter a oportunidade de colaborar para a transformação da Educação no Brasil. Acredito no potencial do MEC como um grande articulador de soluções para avançarmos e, modestamente, sei que traria liderança e senso de urgência para esse processo. O apoio imediato que eu recebi de influenciadores dos mais variados espectros foi a comprovação de que acreditavam no meu potencial como ministro.

Era, enfim, um projeto que poderia ter sido e não foi, como diria Manuel Bandeira. Mas esse desfecho não diminui meu entusiasmo e minha dedicação à educação. No dia 30 de junho, após ter entregue minha carta de renúncia ao presidente e ter dado entrevistas sobre minha saída, abri o computador e dei aula de 19h às 22h para cerca de 30 alunos de uma de minhas turmas na FGV. Tive a oportunidade de lecionar para os meus queridos alunos, e anunciar meu desligamento, depois de 34 gratificantes anos de história em salas de aula nas instalações da FGV em todo o Brasil.

Com gratidão a Deus, encerro minha carreira de professor, após tantas oportunidades de aprendizado compartilhadas com colegas, funcionários e alunos da FGV. Sigo acreditando que a educação é a ferramenta para reduzir as gritantes desigualdades deste país. E, por isso, pretendo continuar dedicado a desenvolver tecnicamente os projetos que vinha preparando para executar no ministério. Exatamente como fiz nos últimos 40 anos.

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Carlos Decotelli é professor e foi ministro da Educação nomeado e não empossado

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2 comentários

  1. Acredito no que o sr. Carlos Decoteli acabou de afirmar. Creio que o erro dele foi ter aceitado o convite de Bolsonaro, um presidente tresloucado, no qual ninguém em sã consciência confia. Haja vista o restante do ministério que ele formou e a figura que ele está designando para o Ministério da Educação.

  2. De fato, as palavras são de uma pessoa bastante sensata, apesar de ter aceito o convite. Estranho a atitude da FGV. Tem que ser cobrada pela atitude de prestar informação falsa.

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