Desconstruindo Brasilia


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                                           Desconstruindo Brasilia

                                            I

           Naquele dia  ele realmente se voltou para o que estava acontecendo com sua saúde.Decidiu que já era hora de enfrentar os sinais que seu corpo lhe estava enviando há algum tempo.Seu médico e amigo de muitos anos ja o vinha alertando sobre aqueles sintomas,marcara com ele varias consultas.Consultas essas que ele nunca comparecia.  Havia se tornado um homem culto e inteligente,mas era de origem humilde.Nasceu em uma cidadezinha no interior de Minas Gerais,era o sexto em uma família de nove filhos,sua infância fora muito difícil,seu pai dono de alguns metros de terra,o colocou cedo para trabalhar.Trabalhou muito para chegar onde chegou, formou-se engenheiro no final dos anos de 1960  pela universidade de Juiz de Fora e já na faculdade ele ouvia falar de um novo presidente do Brasil que iria construir a nova capital do país a NOVACAP , e como tantos outros  empresários da construção civil mudou-se  Brasília e fez fortuna la,não chegou com uma mochila nas costas e nem foi de carona como iam os candangos,pois teve logo no inicio a ajuda de um general que muito rapidamente o aproximou do poder,por ver nele um “um menino com instinto para ganhar dinheiro”,mas foi só nos anos de 1980 que ele entraria para a política,concorreu a deputado federal e foi um dos mais votados de sua região,depois concorreu ao senado,e conseguiu sua cadeira de senador.                                                                                                           

            Não era um homem ruim, também não era tão bom assim.Era um homem,com todos os sentimentos cabíveis dentro de um coração humano.Mas talvez vendo agora tudo o que aconteceu,possa dizer que ele talvez fosse um pouco mais humano do que o resto de nós.

            E quando seu medico lhe disse se tratar de um câncer e que como havia demorado para descobrir,não havia mais tempo para cura-lo.Ele parou e repensou tudo o que viveu até ali.Todas as perguntas lhe vieram a cabeça,principalmente uma : -Porque não fui ao medico antes?Na hora dos primeiros sintomas? Mas não adiantava mais fazer e refazer essas perguntas, no fundo ele sabia,e descobrir antes só o faria viver mais tempo com uma faca apontada pra ele.

              Como seu pai era um homem truculento,sistemático,rude,as vezes até ignorante.Pois em sua família os homens não iam ao medico,e sabe-se lá porque ele ainda manteve algumas atitudes apenas tomadas por homens com pouca ou nenhuma cultura.E ele estava sempre bem,tinha uma “ótima saúde” ate ali claro.Seu pai morrera trabalhando,e era assim que ele imaginava morrer.Mas não era isso que a vida lhe reservaria.Solteiro,nunca se casou,por escolha própria escolheu a solidão, a idéia tornar-se  pai algum dia o assustava.Amava tanto seus pais e irmãos que a idéia de perde-los o fez nunca desejar o mesmo para uma esposa ou filhos,por isso escolher ser só.

             Questionou essa escolha também,percebeu que não teria ninguém ao seu lado naquele momento, a não ser irmãos e sobrinhos pois já havia perdido seus pais. Sentiu vontade de chorar,mas era muito forte para isso.

                          

 

                                                     

              Mas ele era maior,ele era dono da sua vida,dono de seus dias.Seus dias lhe pertenciam,embora naquela manha  percebera que seus dias não lhe pertenceriam mais.

              Estava sempre ocupado,sempre trabalhando,ou em  seu gabinete em Brasília,ou  em seu escritório em São Paulo.Era um workaholic. Possuía carros de luxo,jatinhos,helicópteros,uma cobertura luxuosa em Brasília e uma mansão em São Paulo,dentre milhares de imóveis espalhados pelo mundo e quando não estava em um de seus jatinhos, helicópteros, estava em algum de  seus carros luxuosos com motorista particular e tudo que o dinheiro do povo pudesse comprar,ele comprou.O mundo La fora só lhe pertencia as vezes,ele não pertencia a esse mundo,a essas pessoas comuns.Comuns em seus sentimentos,em sua rotina,em seus problemas.Ele era maior.

               Saiu do consultório,seu motorista já o aguardava,olhou bem para aquele homem e disse-lhe :-  vou caminhar!      E sem que seu fiel empregado tivesse a chance de lhe perguntar onde o esperaria,ele desapareceu na multidão.Multidão que  só as vezes o interessava.O povo.Ah o povo,queria sentir aquele cheiro,o cheiro que ele tanto desprezava,as ruas que ele nunca pisava,à não ser com os pneus de seus carros.Prestava atenção a cada som que ouvia,cada voz,cada ser humano a sua volta,e por um minuto desejou ser só mais um.Poderia ser aquele moço no celular com um sorriso nos lábios,pensou com quem estaria falando.  A mãe?   -Não a mãe não poderia ser,seus olhos brilhavam,-sim era com uma namorada!  .Viu uma mulher com seus dois filhos,um no colo,outro chorando e ela pacientemente os acarinhava.Parou no farol como todo mundo,dessa vez na faixa de pedestres,sentiu o cheiro da poluição,cheiro de esgoto,cheiro de caçamba de lixo.Cachorros,camelôs,gente feia,gente bonita,enfim gente,de todos os tipos,só não do dele.Estava só,e percebeu ser invisível,como todos a sua volta.Invisiveis,aos que não os interessam,e só conseguia pensar: Seis meses,talvez oito,foram as palavras de seu medico,e essas palavras ecoavam em sua cabeça.

            Andou,andou,até se cansar,quando não pode mais parou um taxi,entrou e disse:Leve-me para casa! O motorista que não sabia seu endereço respondeu:Claro senhor,mas antes preciso saber onde o senhor mora.Estava tão acostumado com seus motoristas,que por um minuto quase destratou o taxista ,então lhe deu seu endereço.

           O taxista quis puxar assunto,ele não queria conversar,mas mesmo assim aquele homem começou a contar sua vida.E enquanto o ouvia,ele pensava: Porque ele acha que estou interessado? E aquele homem que dirigia aquele taxi,continuava a falar,ele só podia olhar,seus lábios não se moviam,não tinha vontade de falar,nem de ouvir,não estava acostumado a conversar com seus motoristas.Então voltou-se para o que aquele homem dizia.Falava de sua esposa,seus filhos,sua vida mediana,seus dias que aos olhos dele eram medíocres.-Como alguém poderia viver uma vida tão pouco atraente?-pensou. Dias que não seduziriam a ninguém.Olhou para aquele homem e pensou em seu motorista.Sera que ele também teria aquela vida por de trás daquele terno,aquele homem que abria e fechava a porta do seu carro,que o levava em segurança para todos os lugares e que nunca podia lhe dirigir a palavra a não ser-  Sim senhor,não senhor,volto a que horas senhor,etc…E pode contar quantas palavras ouvira da boca de seu motorista que o acompanhava há anos e daquele homem um completo estranho,já conhecia toda sua vida.Tentava sorrir,seus lábios tentavam sorrir,mas nem um sorriso tímido ele conseguia.Fazia sim com a cabeça,tentando parecer que o ouvia,que aquela conversa conseguira prender sua atenção.O caminho era longo,estava longe de sua casa,pensou em pegar outro taxi,mas preferiu ficar ali em companhia daquele homem,talvez aquele homem o fizesse se sentir um pouco mais humano.Enfim ele estava questionando tudo o que vivera até ali?

             – Não, ainda não!Estava simplesmente assistindo.Ele continuava no centro.

 

 

 

 

                                                  

 

              Para aquele taxista ele era o centro.Questionou sua generosidade e pensou: Eu sou generoso,meus amigos,minha família sempre me dizem isso,rezam por mim,os levo para jantar,para viajar.Sim,sou generoso! Pensou.    -Posso ser generoso com esse homem!  -posso lhe pagar o dobro da corrida.     E aquele pensamento o deixou feliz.E sorriu.Vendo aquele sorriso em seus lábios,o taxista não teve duvida,aquele homem de terno bem cortado,sapatos caros que talvez valessem mais que seu carro,o estava ouvindo,e aí se animou e não pararia até que o deixasse em sua casa.O taxista o tratava com a importância da qual ele acreditava que  se valia.

               Depois de todo aquele percurso,que para ele pareceu durar mais que o tempo real e durou mais que o necessário,chegou em sua casa.Desceu; pediu ao motorista que o aguardava,que pagasse aquele taxista.Desceu e sem ao menos agradecer aquele homem por aquela corrida,entrou em sua casa.Suas três empregadas o aguardavam,estavam em pé a sua espera,como ele sempre as ordenara que fizessem.Ele as olhou,quis cumprimenta- las com um pouco mais de simpatia,lhes prestar atenção.Aquelas pessoas que atendiam suas ligações,faziam suas refeições,,passavam suas roupas e limpavam sua privada.Nossa!! Elas limpavam minha privada! E ele se sentiu de novo um pouco mais humano.Mas ainda não,não estava preparado para cumprimenta- las, ou lhes prestarem atenção,considerou que as pagava bem,muito bem por todos aqueles serviços,inclusive para que limpassem sua privada.

               Subiu direto para  seus aposentos,por aquela escada de degraus de mármore não sei de onde,que havia custado não sei quanto.Corrimão que havia pertencido ao próprio imperador quem sabe.Ah, os quadros que decoravam o hall da escada.Potinari,Picasso,Monet, entre outros.Olhou para aquela cadeira que ficava no final da escada e que ninguém nunca sentara nela,mas que havia servido de descanso para o próprio Luis XV.Pensou que de nada valeria tudo aquilo,para o que lhe serviriam todos aqueles moveis,quadros,tapeçaria etc…Só lhe restavam seis ou oito meses.Mas ainda não havia pensado em uma coisa,a única coisa que poderia ajuda-lo e que ainda não havia lhe vindo a cabeça.Deus! Um milagre.Ele faz milagres. E então foi direto ao assunto:Pode fazer um em mim? Já foi pedindo direto,sem rezar,sem chorar,sem se ajoelhar.

              Pode me curar?-sentado em sua cama pediu.Tentava não ser importante.Tentou ser humilde,mas como seria ser humilde,já havia esquecido. De repente lembrou se: Tenho que me ajoelhar! Então calmamente se virou de frente para cama,tirou os sapatos para que não o dobrasse,pois havia pago uma fortuna por aquele par de sapatos e suavemente se ajoelhou.Olhou para cima, como se fosse olhar para o céu,para Deus e viu seu lustre de cristal que também havia vindo de algum lugar distante,pertencido a alguém que também havia pertencido a historia ou simplesmente  talvez tivesse sido feito sob encomenda para aquele dormitório e que não haveria de ter ninguém que possuísse outro igual.Abaixou a cabeça,fechou os olhos,sentiu um certo constrangimento,fechou os olhos e tentou não pensar e de novo pediu:Você pode me curar? Quis rezar,percebeu que não conhecia mais nenhuma oração daquelas que aprendera quando era criança..Não lembrava nem do:pai nosso,aves Maria ou orações aos anjos.Todas aquelas orações que sua mãe o havia ensinado,já não fazia mais parte de suas lembranças.Afinal a vida lhe sorrira e lhe deram muito mais e melhores lembranças.Começou de novo,iria pedir com todo seu coração,mas não pode.Não  conseguiu.Levantou-se,sentou-se na cama e La ficou até o anoitecer,então decidiu por descer.Ja era noite quando o fez,pediu que lhe servissem o jantar.Sentou-se sozinho naquela mesa com tantos lugares vazios.Sua empregada lhe passou todos os recados,para quem deveria retornar e pela primeira vez os ignorou.Causando em seus empregados muita estranheza.Ja estavam questionando se ele estaria doente,cansado,ou alguma coisa muita seria estava acontecendo para ele parar daquela maneira? Mas  algum tempo que não se via seu nome envolvido em algum escândalo.                                                                                                                                          

                                                  

 

                                                       

 

 

              E as coisas naquele momento por mais importantes que fossem,não lhe importavam.Nem a melhor comida do mundo,nem a musica mais bem tocada,nem a casa haveriam de ter importância? Não! Ainda não.

          Decidiu ir dormir.Mais um dia,menos um dia.-pensou.

Na manha seguinte ao acordar foi direto para Brasília,passou rapidamente em seu escritório,agiu como se nada estivesse acontecendo,para que ninguém percebesse.Delegou as ordens que tinha que dar e de la foi direto para o senado ficou  em seu gabinete.O pais estava se acabando em escândalos ,nos noticiários só se falava do Governador de Brasília,crise no senado,crise na câmara e etc…e que em todos aqueles escândalos  ele de alguma forma estava envolvido.A Brasília que ele ajudara a construir.

            Estava calmo,apesar de tudo,por alguma razão ainda estava bem calmo,pelo menos era isso que ele aparentava.Entrou em sua sala,colocou sua pasta sobre uma cadeira,caminhou a te sua mesa ,sentou-se,planejava trabalhar,mas não pode,não conseguiu e pela primeira vez tirou a gravata, colocou seus pés sobre a mesa e la ficou de novo por algum tempo,olhando para fora,mirando  aquela cidade que logo,logo ele não veria mais.Voltou-se para sua sala,seus compromissos que eram muitos,mas não conseguia se concentrar e de repente todos aqueles compromissos inadiáveis ,agendados com meses de antecedência,não tinha mais importância.Se quer era um pensamento vago.E começou a percorrer com os olhos sua sala,percebia aos poucos que aquele gabinete também não seria mais seu e parecia já estar se despedindo daquilo tudo,todos aqueles moveis que ele escolhera,a cor das paredes,a decoração,tudo ali seria mudado.Alguem mudaria aquilo tudo e continuou a olhar aquele gabinete como se não o visse há muito tempo,e foi essa a sensação que teve,de que não via as próprias coisas há muito tempo.E havia todas aquelas fotos penduradas ao longo da sala,que ele escolhera com cuidado quem seriam os homens que ficariam com ele naquela sala,que lhe fariam companhia.E em cada uma daquela fotos ele segurava a mão de  algum político ou pessoa publica,algumas daquelas pessoas publicas já não estavam mais aqui,mas que faziam parte da historia do país,de Brasília.                                                                      Homens de respeito,muito respeito,homens assim como ele,doutores naquilo que faziam.Então uma foto em particular lhe chamou a atenção,não olhava para aquelas fotos há muito tempo,mas aquela ele não a olhava há muito mais tempo ainda.E aquela foto o acompanhava desde o inicio de sua vida em Brasília,havia sido tirada assim que chegou.Era uma foto dele ainda jovem de quando acabara de chegar aquela cidade que ainda não estava pronta,havia sido inaugurada há cerca de um ano,ainda eram só alguns prédios construídos,segurava a mão de um homem, que parecia segurar sua mão  como a de um amigo e aquele homem sorria ao segurar suas mãos, as segurava  com confiança,confiava naquele homem que parecia acreditar em seu sonho e que fora para la  para ajudar aqueles homens e mulheres,candangos como eram chamados,e que tinham muito orgulho daquele nome que lhes fora dado a terminar de construir Brasilia.Olhou para seu rosto de novo,voltou para o momento em que aquela foto fora tirada,jovem saudável,bonito,integro,cheio de sonhos e esperanças,como todos no momento daquele retrato.E então lembrou do que aquele homem que segurava sua mão lhe disse no momento daquela foto;    -que o país precisaria de homens como ele,que ele entraria para a historia e que ele deveria não só ser lembrado pelo povo,mas amado.Então ele continuou a olhar para todas aquelas fotos,em que segurava as mãos de todos os presidentes que o sucederam e percebeu que seu sorriso já não era mais o mesmo.Fora ficando mais contido,mais confiante a cada foto,porem seus olhos já não brilhavam mais .Assim ficou ali por horas.E para alguem nunca perdera tempo,e  que tinha tão pouco tempo,aquele era precioso demais,e enquanto pensava em voltar sua atenção para tudo o que tinha a fazer,ouviu uma voz lhe dizer: Desconstrua Brasília! Tire os porcos daqui,pois nunca quis construir um chiqueiro!

 

 

 

 

 

                                         II

 

      Aquele homem cético,pratico,incrédulo.Só acreditava naquilo que pudesse ver e tocar e pela primeira vez estava diante de uma situação que apesar de toda a sua cultura,inteligência e capacidade de compreensão das coisas,não entendeu o que havia acontecido  naquela sala,sabia que tinha ouvido,mas não  conseguiu compreender o que tinha acontecido.Olhou a sua volta para ver se alguém  havia entrado em seu gabinete sem que ele percebesse.Levantou olhou atrás das cortinas,na ante sala e nada não havia mais ninguém ali alem dele.Pensou que poderia estar muito cansado e por isso estava ouvindo coisas e decidiu ir embora,tinha muito o que pensar e queria ficar só e foi direto para seu apartamento que ficava na aza sul,escolhera aquele lugar pela vista que tinha,dava pra ver o………….chegando em seu apartamento deu folga para a cozinheira,pediu que ela e os outros empregados tirassem folga o resto da semana,desligou os telefones não queria ver,nem falar,nem ouvir ninguém,queria estar só com seus pensamentos.

           Não era o tipo de pessoa que conversava sobre seus problemas ou pedia ajuda,então decidiu que resolveria suas coisas a sua maneira,do seu jeito.Esse era ele,e seria até o final.

           Sabia que teria muitas coisas para resolver,seus bens,suas empresas,seus projetos, tudo aquilo que ele passara uma vida construindo iria deixar ali.E estava decidido a resolver tudo sem que ninguém percebesse.

          Pegou um wisk,sempre tomava uma dose pequena dessa vez quase encheu o copo,apoiou sentou-se,tirou os sapatos,afrouxou de novo a gravata sentia-se sufocado,e queria ver se conseguiria pensar em outra coisa que não fosse aquela doença,que não fosse um inimigo e dessa vez ele tinha um inimigo  a sua altura,um que ele não teria como subornar,como corromper, como seduzir com seus dólares.Não esse não se venderia por valor algum,esse iria até o fim,e pela primeira vez um  inimigo dormiria e acordaria com ele sem lhe dar trégua,sem se curvar a ele,como tantos outros o fizeram antes,políticos que entraram para política com um ideal,com um propósito mas que contra aquele homem não puderam lutar,nem se quer puderem cumprir o que prometera a eles mesmos.E aquele copo de wisk não acabava nunca,não conseguia beber,o copo suava em suas mãos enquanto ele passava de uma mão para a outra e o encostava na testa,tentando ver se aquele gesto esfriaria sua cabeça.

            Levantou-se devagar foi até a sacada do seu apartamento para olhar aquela vista que ele tanto fez questão de que fosse exatamente aquela paisagem urbana projetada por Niemayer e que ele tanto admirava.Ficou la  olhando,parecia já olhar com saudade como se não estivesse estado ali há muito tempo e como se quisesse ficar por mais algum tempo nos braços daquela cidade que o abraçara e o acolhera como a todos que ali chegavam,cada um com seu propósito,mas com o mesmo ideal,uma vida melhor,alguns se aproveitariam daquele sonho,mas muitos trabalhariam por aquele sonho sem se aproveitarem de uma nação inteira.

              Então decidiu que queria dar uma volta,sair ver aquela cidade de perto,respirar aquele ar.Quis ir até o lugar onde tudo começou,o inicio de tudo,na primeira obra ali erguida, o Catetinho que fora idealizado por um grupos de amigos do Presidente Juscelino por achar que não ficaria bem o Presidente “pousar em barracas”.Não havia estado ali naquele momento mas queria estar agora e pediu ao seu motorista que o levasse.Desceu descalços,iria pisar naquele asfalto,sentiria a vida daquele lugar pelas solas de seus pés.

             E foi para lá,já era tarde,a cidade já dormia,podia-se ver uma pessoa aqui,outra ali,estavam dormindo,a cidade dormia como uma criança inocente que não tem culpa dos pecados de seus pais e que nem imaginam de que ventre podre vieram.Pediu que seu motorista o aguardasse no carro  e desceu apressado como se tivesse um encontro marcado,como se alguém o aguardasse.Foi caminhando até Catetinho ,não entraria pois já estava fechado,mas queria olhar por fora,queria admirar sua beleza.Olhava com admiração,ternura e saudade.Saudade de um tempo que a união e a solidariedade reinavam,em uma época sem preconceito e sem desigualdade.Um segurança que lá estava o reconheceu e veio falar com ele,perguntou se ele queria alguma coisa,se gostaria de entrar,pois percebeu-o meio estranho,até por estar descalços naquele lugar aquela hora.Mas ele inesperadamente muito educadamente respondeu dizendo que não e que só queria ficar um pouco sozinho  ali e só.E aquele segurança o deixou.Continuou sua caminhada,andava devagar,não sei o que  passava em sua cabeça naquele momento talvez estivesse questionando suas ações ao longo de sua vida publica.Seu olhar se perdeu,ficou parado no espaço,no tempo,não piscava.E de repente tudo aquilo começou a ruir,madeira,vidros,ferro, tudo aquilo ruía em silencio,não o assustava,ia virando cinzas.O museu do Catetinho virava cinza e voava na direção dos outros prédios,das outras construções e iam se desconstruindo um a um tão silenciosamente,tão calmamente que não o assustou,e ele só podia olhar e esperar.Então o sol começou a brilhar no horizonte,o cegou por alguns segundos.Quando o abriu viu pessoas indo e vindo com muita pressa,como se estivessem acabado de acordar e estavam indo para o trabalho,e elas iam e vinham,pedindo licença,desviando umas das outras para chegarem logo ao seu destino final.Pareciam atrasadas,caminhões com gente em cima,amontoadas umas em cima das outras,pessoas que carregavam malas e trouxas de roupas iam e vinham.E no meio de toda aquela gente,ele viu um homem,era um homem simples, usava um terno preto, ele o reconheceu  conversava com um operário,suas vestes anunciavam que se tratava de um trabalhador e eles conversavam  debruçados sobre um  papel aberto que tentavam segurar para que o vento não o levasse para longe,apoiados sobre  uma mesa, debaixo de uma cobertura simples de madeira a céu aberto,não havia mais nada ali,todos os edifícios tinha desaparecido,como fumaça sumiram.

 

                                                    III

         

       Assustado,pois não conseguia acreditar ou entender o que estava acontecendo ali diante de seus olhos,foi andando na direção daqueles dois homens,um deles se adiantou e veio ao seu encontro e com um sorriso nos lábios apertou sua mão e disse- Bem vindo de volta senador! E segurando sua mão foi caminhando como que queria dizer – por aqui,por favor! Distribuía sorrisos,acenos e apertos de mão.Acenava para os candangos.Sim ele estava la .E foram andando,então aquele homem lhe perguntou – esta descalço senador? –olhando para baixo,para seus pés que aquela hora pisava em um chão de terra, e sorriu. E aquele senador que usava tão bem suas palavras,que se expressava sempre com muita clareza,não conseguiu lhe responder ou falar nada.E as pessoas que por eles passavam pareciam não perceberem que aquele homem estava ali e descalços ali.Ele tentou responder,balbuciou um sim,abria e fechava os lábios tentando pronunciar qualquer palavra que fosse,mas nada saiu.Olhava admirado a sua volta,não sabia se olhava o que estava a sua frente ou o que por ele passava e ficava para trás.Aquilo tudo o confundia.

          Então foram saindo,se distanciando das pessoas  e aquele homem que o recebera,lhe apresentou a cidade de novo.Mostrou a ele como sonhos estavam sendo construídos ali,como pessoas haviam confiado tudo o que tinham no sonho de um único homem,que fora chamado de louco sonhador.Mostrou como abriram mão de suas famílias,seus locais de origem,para ajudar e crescerem junto com um homem que lhes prometera um país mais justo,um lugar onde a igualdade e solidariedade iria reinar.Esse era o projeto e ele se perdeu ao longo dos anos,e aquele homem se perguntava porque deixaram de acreditar no povo,porque deixaram de acreditar neles mesmos,porque tudo que faziam eram mais importante que o que haviam prometido.E agora queria perguntar tudo isso aquele senador e lhe mostrar que enquanto eles construíam seus patrimônios,eles destruíam sonhos,destruíam esperanças,acabavam com  a confiança de um povo,e queria perguntar-lhe:Valeu a pena?

          E de repente tudo foi voltando ao normal,o sol desapareceu,a luz que iluminavam agora era as luzes dos postes,o chão era de novo de asfalto,então olhou na direção daquele museu,parou um pouquinho,voltou para o seu carro e pediu a seu motorista que o levasse de volta.

 

          

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