Dez por cento de sucesso

A imprensa conservadora festeja os 10% de redução das mortes em acidentes de trânsito ocorridos no estado de São Paulo. Mesmo que a estatística esteja correta, porém, ela deveria ser lamentada pelos defensores da chamada Lei Seca.
 
Inventaram um remendo meio inconstitucional para radicalizar a possibilidade de punição dos motoristas embriagados, e o máximo que se conseguiu foi diminuir de 4317 para 3902 os óbitos no reduto mais populoso, com a polícia mais equipada e as rodovias mais onerosas do país? Ora, isso evidencia um fracasso retumbante da iniciativa.
 
Tolerância zero não é “tolerância noventa por cento”. O único objetivo aceitável de uma canetada autoritária envolve a extinção do problema em pauta. Se cada aperto do torniquete repressivo trouxer benefícios tão ínfimos, como chegaremos a resultados minimamente desejáveis? Instituindo a pena de morte para quem recusar o bafômetro?
 
O ponto básico a lembrar é que o proibicionismo radical não leva a lugar algum. Ele apenas radicaliza a impunidade. Sem fiscalização competente e políticas públicas de transporte, o número de motoristas embriagados seguirá absurdo, como o cidadão pode constatar num passeio cotidiano, a qualquer momento.
 
Outra questão reside no esforço para associar a nova regra ao miserável arrefecimento das mortes. De tão diminuto, o ganho estatístico pode representar apenas uma oscilação sazonal das curvas históricas. Pode haver mil outros fatores pesando no resultado, inclusive certa conscientização por parte dos motoristas. A ineficiência e o descaso policiais certamente não merecem esse crédito.
 
Há muito a debater sobre o assunto, principalmente agora que o rigor se mostrou inútil. Um pouco menos de espírito repressivo e um pouco mais de compreensão da realidade ajudariam a criar regras que as pessoas efetivamente seguissem. O resto é fazer demagogia com o sofrimento alheio.
 
Publicado no blog: http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com.br/

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