Dilma mais forte também no BC (Luiz Sérgio Guimarães, Valor)

Dilma mais forte também no BC

Com as mudanças no Banco Central e na Petrobras, a presidente Dilma Rousseff demonstrou que não está morta, que controla as peças fundamentais do xadrez econômico

Luiz Sérgio Guimarães
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Se há, praticamente desde 26 de outubro, uma guerra surda entre Dilma Rousseff e os mercados financeiros em torno do controle da política econômica, a presidente reverteu o placar até então adverso e impôs uma goleada com as recentes mudanças de cargos feitas na sexta-feira. Os mercados acusaram o golpe. O dólar subiu muito mais do que seria necessário apenas para acompanhar o viés de alta global decorrente de um bom relatório sobre o mercado de trabalho americano em janeiro. Fechou com valorização de 1,34%, cotado a R$ 2,7782, maior preço desde dezembro de 2004. Os juros futuros também subiram na BM&F. Nada a ver com o IPCA de janeiro, pois o indicador cravou exatamente o 1,24% previsto pelos analistas. A taxa para janeiro de 2021, que reflete o espírito belicoso dos investidores estrangeiros, saltou de 12,25% para 12,38%.
Os mercados estão furiosos com a retomada pela presidente das rédeas da política econômica. Isso não tem a ver só com o fato de que o ministro Joaquim Levy não conseguiu conduzir o ex-secretário-executivo da Fazenda, Paulo Rogério Caffarelli, à presidência do Banco do Brasil. Venceu a corrida o executivo Alexandre Abreu, indicado por dois ministros mais próximos de Dilma, Aloisio Mercadante e Nelson Barbosa. A postura de equidistância de Levy em relação à Petrobras e a sua política de preços foi abalada pela nomeação de Aldemir Bendine, um executivo cuja competência só não é maior que a lealdade à presidente Dilma. Foi uma segunda derrota do ministro da Fazenda, dedicado nos últimos dias da semana passada a encontrar um “nome de mercado” para a Petrobras. Por fim, mas não por último, fortalecem a linha econômica sempre defendida pela presidente as mudanças na diretoria do Banco Central.

Sozinha, a perda de Carlos Hamilton Araújo, diretor de Política Econômica, já seria irreparável ao mercado. Araújo sempre foi da linha-dura, padroeiro do fervor monetário contra a inflação. Ele já havia ameaçado sair do BC outras vezes, coincidentemente quando a autoridade mostrava-se menos ciosa no seu desvelo desinflacionário. Não deu mais para segurar: o BC vai parar de subir a Selic quando a inflação promete estacionar em 7% até o fim do ano. Araújo parece não querer essa mancha no seu currículo.

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Se tivesse sido substituído por um outro patrono das causas mercadistas, os pregões não iriam se ressentir tanto. Só que, para o seu lugar, foi deslocado Luiz Awazu Pereira, até então responsável pelos Assuntos Internacionais e pela Regulação. Awazu, um intelectual fino e discreto, é o oposto de Araújo. Notabiliza-se por posições mais moderadas em matéria de arrocho monetário. Saiu um “hawkish” e entrou um “dovish” justamente na Política Econômica, uma diretoria nevrálgica pois responsável pela elaboração dos textos oficiais do Copom, como a ata das reuniões e o Relatório Trimestral de Inflação (RTI). Sim, as decisões do Comitê são colegiadas, mas a diretoria de Política Econômica tem condições de realçar alguns pontos macroeconômicos e sombrear outros de maneira a dar um curso mais adequado aos debates. Para se ter um rápido vislumbre da relevância da troca de Araújo por Awazu basta lembrar que no primeiro Copom depois do segundo turno das eleições, em 29 de outubro, a inesperada elevação da Selic de 11% para 11,25% foi feita sem unanimidade. Três diretores votaram pela manutenção em 11%, dentre eles Awazu. Entre os cinco votantes vitoriosos estava Araújo.

Tony Volpon, que sai da Nomura Securities para assumir a diretoria onde estava Awazu, a de Assuntos Internacionais, não pode ser considerado um “hawkish” do mesmo calibre de Araújo. Volpon, um carioca que fez carreira no exterior, conhece tudo de mercado. Com a mesma desenvoltura com que desenha uma operação financeira intrincada envolvendo moedas e juros produz análises macro sofisticadas. Seus comentários, distribuídos a clientes e jornalistas desde Nova York, impressionavam pela franqueza. Um paper específico, escrito depois do segundo turno das eleições, viralizou instantaneamente, despertando a ira de todas as alas dos economistas de esquerda. Foi bombardeado por todos os heterodoxos, dos pós-keynesianos aos novos-desenvolvimentistas, passando pelos social-desenvolvimentistas. Na nota, cunhou a expressão, de imediato clássica, “pragmatismo sob coação”: se a política econômica do segundo mandato não fizesse as correções necessárias defendidas pelos mercados, estes agiriam de forma incisiva e imporiam os ajustes na marra. O governo teria de ser pragmático, voluntariamente ou sob coação. Prevaleceu a primeira hipótese.

Depois desse documento do final do ano passado, surpreendeu um outro deste ano em que Volpon defendeu, contra a maioria dos seus pares, o acerto de uma das linhas centrais do pensamento do Copom — a de que, apesar dos IPCAs de um dígito dos três primeiros meses do ano, no médio e no longo prazo a tendência é de queda acentuada. É nisso que o Comitê se ampara para não exagerar na dose do aperto. Se Volpon não pode ser tido como “dovish”, tem muito a agregar ao Copom num outro aspecto crucial: sua expertise em grandes operações internacionais. Se o País vier a ser alvo de um ataque especulativo no momento em que o Federal Reserve (Fed) iniciar o deslocamento para cima da taxa básica dos EUA, Volpon terá condições de erguer defesas e contra-atacar na mesma moeda.

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A terceira alteração no Copom fortalece a posição pessoal do presidente Alexandre Tombini. Ele conduziu seu antigo chefe de gabinete e coordenador da assessoria econômica, Otávio Ribeiro Damaso, para a diretoria de Regulação, com assento e voto no Copom. No caso das mudanças introduzidas no Copom, tanto a nova posição mais relevante de Awazu como a entrada de Volpon e a promoção de Damaso, não podem ser consideradas derrotas de Levy, já que o ministro, como bom fiscalista, não gosta de juro alto.

Precipitadamente, o mercado acha que as alterações enfraquecem a posição de Levy. É um engano. Dilma demonstrou com elas que não está morta, que controla as peças fundamentais do xadrez econômico, portanto o ajuste fiscal do ministro é o ajuste fiscal da presidente. Falta agora mover as peças do xadrez político, menos lógicas e previsíveis, sobretudo para quem não tem aptidão para o jogo.
 

 

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