Diversificação de matrizes e fixação de créditos de carbono, é saída para mudanças climáticas

O PhD em Física Nuclear pela Universidade de Colônia (na Alemanha), Lutz Cleemann, nos concedeu uma entrevista durante a feira e congresso de sustentabilidade, Ecogerma 2009, em São Paulo. Conselheiro sênior em Desenvolvimento Sustentável do grupo Allianz, o pesquisador defende que a saída para aumentar o uso de energias renováveis no mundo é trabalhar com todas as matrizes limpas complementando um sistema único que atenda as demandas energéticas das populações.


Cleemann vê na demora da fixação internacional do preço dos créditos de carbono um entrave para acelerar o incremento de matrizes renováveis no mundo. Mas é otimista quando o assunto é o aumento do interesse pelas fontes limpas em detrimento das de origem fóssil.


Projeto Brasil/ ADV: Apesar de não emitirem CO2 na produção energética, existem estudos que consideram desnecessário o investimento em usinas nucleares dado o impacto ambiental da construção e eliminação dos resíduos da matriz. O que o senhor tem a dizer sobre essas questões sendo um especialista no assunto?


Lutz Cleemann: A energia nuclear não é uma energia perfeita com relação às emissões de CO2 [dióxido de carbono – um dos gases responsáveis pela formação do efeito estufa]. Temos problemas relacionados ao manejo dela, como os ligados à segurança e encaminhamento dos resíduos nucleares, afinal precisamos encontrar constantemente um local seguro para esses dejetos. No entanto, esses problemas não são uma condição especial à energia nuclear, todas as fontes produzem algum tipo de impacto ao meio ambiente.


Se formos pensar na biomassa, por exemplo, tempos que considerar que para produzi-la em grande escala, são necessárias vastas áreas de monocultura. Com relação à energia eólica, a formação de alguns parques também exige local apropriado para instalar as turbinas. Então, todos esses problemas existentes, e estão relacionados com a tecnologia, porque, em geral, todas as descobertas trazem seus próprios impactos.


Portanto, eu não faria uma exceção especial, ou seja, dizer que a implementação da energia nuclear nunca trará problemas. Por outro lado, por não emitir CO2 durante a produção energética, a matriz nuclear pode ser parte de uma solução, se soubermos lidar de forma responsável com essa fonte.


PB: Qual seria a melhor solução energética para combater as emissões de CO2 e, conseqüentemente, frear as mudanças climáticas?


LC: Na minha opinião a solução para combater as emissões de CO2 e atender a demanda energética, está em um mix adequado de energias manejadas de forma inteligente.


Esse mix de energia pode ser diferente de país para país, dependendo da sua situação geográfica. Por exemplo, comparando o Brasil com a Alemanha, o Brasil tem uma abundancia em energia hídrica que nós não temos na Alemanha, assim nós [alemães] nos baseamos em outros tipos de energia [eólica, solar e nuclear], utilizando um mix de matrizes diferentes das que podem ser utilizadas no Brasil.


Precisamos lembrar, também, que um mix de energia significa saber equilibrar os riscos e as oportunidades das matrizes disponíveis. Um outro ponto importante, é que a formação desse mix depende muito da economia que envolve as diferentes tecnologias. Nós [na Alemanha] acabamos de ter uma experiência recente relacionada às células fotovotaicas – [o incentivo à produção de energia solar beneficiou a barateamento da produção de sistemas fotovotaicos e hoje o país europeu dispõe de um milhão de unidades de energia solar instaladas].


Ou seja, com o preço [desses sistemas] caindo fortemente, dado o aumento de produção e eficiência industrial, poderemos chegar a soluções muito melhores às encontradas hoje. Somando a isso, a melhora da produção de energia eólica, teremos num futuro próximo uma armazenagem maior das energias renováveis. As pesquisas estão se desenvolvendo rapidamente nesse sentido, ou seja, para solucionar os problemas de eficiência energética e econômica das matrizes renováveis.


PB: Apesar do otimismo, podemos dizer que estamos ainda muito longe do ideal da participação das fontes renováveis atendendo à demanda energética mundial, certo?


LC: Nós realmente temos muito o que fazer nesse sentido. No entanto, é preciso considerar também que não estamos mais no ponto zero. Na Alemanha, por exemplo, 15% da energia elétrica produzida vêm da força dos ventos – há 20 anos esse índice era zero, e agora temos 15%.


Então, acredito que essas mudanças são possíveis, e que não se trata apenas de falação. O problema principal que temos para resolver esses impasses, é internalizar os preços para a emissão do CO2. No momento nós emitimos CO2 livremente, gratuitamente na atmosfera, mas tão logo tenhamos um limite para essas emissões em âmbito internacional, será possível estabelecer um preço realista para o carbono.


Esse preço vai nos ajudar do ponto de vista econômico incentivando a produção de tecnologias de baixo carbono. E isso é realmente um vetor realista, porque é um vetor econômico normal para otimizar os retornos financeiros das empresas tornando o desenvolvimento de fontes renováveis menos custoso que as tecnologias emissoras de carbono.


Sem isso [a regularização internacional do preço de emissões do gás carbônico] nós não conseguiremos acelerar o incentivo voltado para as matrizes renováveis. Por isso, os esforços recentes feitos nas negociações em Copenhague (Dinamarca), no final de 2008, para o acordo de Quito 2 são tão importantes.


PB: De que forma os países em desenvolvimento serão beneficiados com a intensificação do uso dessas novas tecnologias? É possível dizer que as nações mais pobres demorem mais para ter condições de participar do circulo de países que utilizam intensamente essas matrizes?


LC: Pela natureza, as novas tecnologias não são complexas, tirando o clã da energia nuclear. Aliás, de certa forma elas não são novas, só dizemos que são novas no sentido de um novo contexto histórico.


Elas não são um problema para os países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. As energias eólicas, ou solar, por exemplo, podem ser armazenadas e é possível também utilizá-las de forma descentralizada.


Não é preciso, como acontece com a matriz hidroelétrica, depender de redes de ligação. Uma turbina eólica tem uma função por si só, ou seja, você não precisa de tantos esforços porque uma turbina pode ser colocada em uma floresta ou no deserto, o único gasto é relacionado à manutenção do sistema posto no local escolhido.


Portanto, os países em desenvolvimento não estão excluídos dessa revolução. Agora, o problema está relacionado aos investimentos, porque são necessários recursos para estabelecer as energias renováveis, também é preciso dinheiro para pagar a transferência de algumas dessas tecnologias aos países pobres.


Então, toda essa implementação de matrizes renováveis nos países periféricos, é uma questão de como gerenciar a transferência de tecnologia a um custo que seja compatível e que seja viável geograficamente a essas nações em desenvolvimento. Temos que contar também que, os sistemas de mudanças de emissões do CO2 são sistemas que fornecem crédito, assim, esses países podem obter condições de vender os créditos a outros países interessados em investir nisso.


Portanto, o sistema de créditos, depois de estabelecido, irá oferecer incentivos a mais para que países em desenvolvimento se voltem para a produção de matrizes renováveis. E esse é o teor das negociações que estão ocorrendo atualmente. Não sei quais serão os resultados, mas certamente serão fundamentais para um avanço com relação a tudo que envolve as energias renováveis.


PB: Como você percebe os encontros entre nações para viabilizar o desenvolvimento de tecnologias energéticas mais eficientes?


LC: Acredito que colaborações, ou parcerias bilaterais são sempre importantes para a solucionar problemas decorrentes das mudanças climáticas. Essas alterações podem ser solucionadas apenas se forem vistas como problemas internacionais, ou seja, de certa forma todos fazem parte da causa do problema, portanto todos devem fazer parte da solução.


A solução sobre as alterações climáticas só será possível com uma colaboração que vai muito além de uma troca de conhecimento, envolve questões culturais. É preciso ter valores comuns quanto a esse tema, e acho que essas colaborações, como a vista entre Brasil e Alemanha, são bastante necessárias.


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