Doces lembranças, por Aquiles Rique Reis

Tetê Spíndola e Alzira E nos mostram que música é coisa simples, feita simplesmente para dela gostar

Capa do CD de Tetê Spíndola e Alzira E

Doces lembranças

por Aquiles Rique Reis*

Tetê Spíndola uniu-se a Alzira E para lançar Recuerdos (Selo Sesc SP), um dos CDs mais singulares da música brasileira deste início de século 21. As duas são de uma família de gente pantaneira, berço que as instigou a abraçar a arte de cantar, algo que fazem com amor na garganta e nas mãos.

A mim impressiona a forma como expressam suas origens. Suas vozes têm tanto sabor interiorano quanto cosmopolita. A personalidade de suas composições e de suas vozes fazem com que suas produções sejam identificadas ao primeiro acorde, à primeira sílaba – enfim, duas mulheres identificadas com o Brasil e com sua terra, Campo Grande (MT).

Mas antes dos meus comentários sobre o novo disco, trago aqui o que já havia pensado sobre elas. Em julho de 2007, escrevi sobre Tetê: “(…) Ela tem a voz mais fantasticamente aguda da música popular brasileira (…) Voz que tomou para si o papel de louca a dizer uns troços meio doidos, quando poucos, ou ninguém, sequer ousava deles falar – meio ambiente, ecologia, aquecimento global…”

E sobre Alzira E, em maio de 2011, que à época gravara um álbum em parceria com o poeta ArrudA: “Para Alzira E (…) arte é concisão (…) Ela canta como uma atriz, e, assim sendo, suas músicas são como monólogos de provocante poesia contemporânea (…)”.

Recuerdos fala à alma do povo. As duas vozes soam ora em uníssono, ora dissonantes (!). E, para encorpar ainda mais a cantoria, convidaram Ney Matogrosso para com elas cantar, por exemplo, “Meu Primeiro Amor” (Hermínio Gimenez, versão de José Fortuna e Pinheirinho Junior) e “Índia” (José Assunción Flores e Manuel Ortiz Guerrero, versão de José Fortuna). De forma reverente, os três atraem a emoção lá de dentro da memória do ouvinte. E a pegada contemporânea de Alzira e Tetê encontra suporte em Ney, ele que arrasa. Aliás, os três arrasam.

Leia também:  Um show de cultura popular para Darcy Ribeiro com Arismar do Espírito Santo e convidados

Os arranjos de Zé Godoy, com cordas, sopros, piano, percussões e o violão de Alzira e a craviola de Tetê, têm momentos de plenas delícias, como em “Anahy – Leyenda de La Flor Del Ceibo” (Claudio Velez, versão de José Fortuna). Doce lembrança.

Como não se emocionar ao ouvir a intro da craviola, seguida pelas cordas, em “Ciriema – Siriema de Mato Grosso”? E em “Recuerdos de Ypacaraí” (Zulema de Mirkin e Demétrio Ortiz), então? Meu Deus, Tetê, Alzira e Ney transcendem o ansiado.

Na craviola, Alzira inicia “Rio Vermelho” (poema de Cora Coralina, musicado por ela). Logo se ajunta a voz aguda de Tetê. Total emoção.

O arranjo de Zé Godoy, resumido a piano acústico, teclado e cavaquinho, tocados por ele, e o violoncelo de Robert Suetholz, simples assim, fecham a tampa com Tetê e Alzira cantando “Pé de Cedro” (Zacarias Mourão e Goiá): “Foi num belo Mato Grosso/ (…) Um pequeno arbusto achei/ Levando pra minha casa/ No meu quintal guardei (…)”.

Tetê Spíndola e Alzira E nos mostram que música é coisa simples, feita simplesmente para dela gostar. Simples arpejos nos comovem, palavras doces nos fazem arrepiar.

*Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

1 comentário

  1. Ainda bem que temos vários Bitucas genias!
    O grande Milton, um dos bitucas,dias atrás, deu um palpite infeliz, como diria outro genial, Noel Rosa,quanto a MPB atual.
    Ele diz,cheio de querer razao, ao contrário das suas musicas genias, que a nossa música está muito ruim pra nao dizer o termo escatológico que utilizou na entrevista á Folha,onde optou por apenas duas pessoas,musicos, capazes de carregar a bandeira da nossa nova música.
    Queria dizer ao nosso Milton Bituca que se ele, Chico . Caetano, Gil, Cube da Esquina…,estivessem surgindo agora, ninguem saberia da existencia do trabalho genial que eles proporcionaram ao publico nacional e internacional pois a mídia nao está afim de divulgar musica de qualidade e sim coisas esquisitas que aparecem.
    Caro Milton bituca, devagar com o andor que a nossa santa MPB é de cristal e merece respeito da mídia e de quem já deitou, com todo o respeito com seu talento neste berco explendido.

    José Emílio Guedes Lages- Belo Horizonte

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome