Dois pequenos casos explicitam as fraturas do atual governo. Quais são os motivos e suas consequências?

Dois casos que poderíamos considerarmos marginais nos eventos políticos do Brasil, servem para explicitar as fraturas que estão ocorrendo no atual governo. Numa situação normal , num grupo mais politicamente homogêneo, os dois casos seriam algo mais anedótico do que algo importante, pois um se trata de um recado que um dos filhos do presidente manda contra o general mais próximo ao poder, o General Heleno e um segundo caso, é dado pela luta interna levado a vias de fato entre militantes neoliberais e conservadores de viés de extrema direita.

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O primeiro caso parte de um recado deixado nas redes sociais para que todos possam ver, onde um dos filhos daquele que ocupa a cadeira da presidência da república em que o mesmo explicitamente faz um desagravo totalmente desaforado ao general da reserva que ocupa o cargo do Gabinete de Segurança Institucional, praticamente acusando o general de possivelmente estar fazendo uma conspiração contra a presidência da república, e com o agravo que nesta nota registra-se inclusive a possibilidade de atentado contra o filho do presidente.

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Em qualquer regime minimamente republicano esta nota seria um motivo extremamente forte que criaria uma crise intestina no governo, ou seja, uma nota de tal gravidade seria um indício de esfacelamento ou de ruptura de grupos políticos que se colocariam até na oposição, como no Brasil se perde um pouco a noção de seriedade das coisas a nota provavelmente será tomada como um descontrole momentâneo de uma das partes, no caso da “Famiglia Bolsonaro”, e segue a diante a instabilidade que mostra todas as condições de se amplificar em segredo ou mesmo estourar nas redes sociais.

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Além deste incidente, nas manifestações pró-Moro-Bolsonaro, grupos de extrema direita expulsaram alguns militantes conhecidos e atualmente deputados eleitos por outros partidos do direitão (impropriamente chamado centrão) das manifestações, assim como em alguns carros de som, outros elementos da extrema-direita, impropriamente chamados de conservadores, faziam discursos virulentos e explícitos contra os elementos do MBL que inclusive faziam parte de convocação dos atos.

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Estes dois eventos colocam claro o que muitas pessoas, inclusive eu, vem falando sobre a inviabilidade da manutenção da base de governo com grupos tão heterogêneos como os tatuais grupos de apoio do atual governo. Fica mais ou menos claro que há uma luta não só pelo poder real, representado por cargos no governo federal, mas como também uma luta pela prevalência do discurso da direita, o MBL toleraria em parte alguma pautas identitárias, desde que estas não fossem mais longe do que dois passos e outro, os conservadores, mais preocupados com pautas de costumes além da ideologia neoliberal do MBL estão teoricamente mais a direita. O interessante que parece que o MBL apoia o general Heleno que é um dos representantes dos apoiadores chamados militares (no caso de alta patente), porém este mesmo general é bem recebido nas manifestações dos conservadores até este momento.

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Com os atuais movimentos, parece começar a evidenciar que há dois grupos básicos, um primeiro apoiado pelo grande capital nacional e internacional e com parte das oligarquias brasileiras, que tem a simpatia dos altos escalões das forças armadas. Na oposição este vem outra parte das oligarquias e alta e média burguesia, que apoia diretamente o atual ocupante da cadeira da presidência da república com uma autonomia aparente do que eles chamam de globalismo, que seria, passando para uma linguagem mais compreensível uma oligarquia internacional com vínculos com setores mais tradicional do direitismo nacional.

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Se alguém acha que o anteriormente escrito meio confuso, pode ficar certo que não é porque há erros de redação, mas sim porque na verdade, a diferença entre um lado e outro é mais dado pelo oportunismo político de quem entende do que está ocorrendo do que uma fratura ideológica, pois como este tal de globalismo não existe em termos reais, mas serve para motivar um amplo setor da extrema direita com palavras de ordem delirantes, que não teriam muito sentido se o próprio comandante de toda esta confusão é alguém que na realidade nem sabe do que está falando.

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Agora o mais importante é se entender o que pode ocorrer se esta fratura se acentuar, algo que num país com um mínimo de conhecimento político dos atores nacionais do grande e do médio capital, não ocorreria. .

Entretanto num país em que a própria direita tem na sua base, uma confusão conceitual tamanha e que se sustentava na medida que existia um inimigo externo, ou seja, o PT, as manobras que são feitas pelas cúpulas não são entendidas pela base, por exemplo, a ligação entre a direita MBL com o direitão tradicional (centrão) e com as chamadas forças conservadoras, seria fácil de se realizar, a partir de uma definição de objetivos estratégicos de médio prazo.

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A união lógica da direita não é feita porque simplesmente o próprio atual ocupante da cadeira presidencial, apesar de não ter estas luzes em termos de entender como todo este esquema se encaixa na política internacional, é esperto suficiente em saber que unificada esta direita ele seria eliminado totalmente do jogo político por um sucessor qualquer, que fosse um melhor interlocutor do capital internacional.

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A origem de todo este imbróglio está no amadorismo dos golpistas que não pensaram num plano B para a eleição de um provável presidente mais civilizado e não tivessem de lançar mão de uma improvisação que foi o atual eleito. O que causou a falha levando a um segundo problema foi que na realidade o improvisado presidente trouxe consigo uma parte da base, sendo que esta era a mais sólida das outras que foram carreadas por mera rejeição a Lula e ao PT.

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Poderíamos dizer que uma espécie de Lumpemburguesia que caracteriza os chamados setores conservadores, que mesmo “Lumpen”, na acepção da palavra alemã, tem força suficiente que impede ser removida da forma tradicional que qualquer governo de extrema-direita elimina o Lumpemproletariado após assumir o poder.

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