O jogo dominó de botequim, por Rui Daher

São incertas as origens do jogo de dominó. E como tudo que assim é, a boa ideia ou a culpa cai no passado milenar da China e nos passeios de Marco Polo.

Há estudos e estudiosos. Os interessados podem pesquisar. Mas, ainda que cheguem a uma conclusão, ela será menor do que as vezes em que passamos nas praças do planeta e vemos senhores, senhoras e crianças, diante de 28 peças achatadas, retangulares, de madeira, osso, marfim ou plástico, vazias (zero) ou marcadas de um a seis, peleando para casar números e vencer depois de esgotarem seu banco de reservas de pedras.

Além das praças, mesas em federações, bancos de jardins, os atletas do jogo de dominó, dispensados de tênis, camisas regatas e bebidas isotônicas, também fizeram de mesinhas de botecos seus ginásios e estádios.

Ou vocês ainda não repararam nessa cena em ruas, vielas e sambas de nossas almas?

Minha imagem mais marcante surgiu num barzinho de esquina na rua Antônio Bicudo, Pinheiros, São Paulo. Caminho do escritório para casa, o trânsito ali sempre encrencava e me fazia curioso ao ver pessoas, em torno de mesinhas de metal na calçada, vibrando com algo que se escondia atrás de uma barreira de cervejas, cachaças e cafés.

Curiosidade quando não mata esclarece. Fui ver e descobri o que eu e o planeta já conhecíamos, jogavam dominó.

Foi quando resolvi escrever as crônicas “Dominó de Botequim”, passadas no Bar do Serafim, que receberam o maior elogio que eu poderia esperar: o amigo, atleta, ex-presidente da Federação Paulista de Dominó (www.fepad.com.br), Manoel Mendes Oliveira, depois de ler alguns capítulos, me perguntou se as histórias eram reais ou ficção.

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Diz que nunca mais deixou de acompanhar o que acontecia nos domingos de botequim do português Serafa. Mesmo agora, escondidinho neste GGN, sem qualquer repercussão, exceção ao amigo Raí, comentou sobre a fantasmagórica reaparição.

Sabem vocês que parei de frequentar o Bar do Serafim quando ele foi receber uma herança deixada pelo seu irmão Luís, no Aveiro. Um mês depois de sua viagem, o ajudante Netinho recebeu ordens do exterior para fechar o estabelecimento.

Não esqueço minha última conversa com Serafim, quando me falou sobre um financista da Avenida Paulista, que o aconselhara a depositar a herança nas Ilhas Cayman. Avisei:

– “Esquece. O colchão de Guilhermina (sua irmã, no Aveiro) é mais seguro”. Ele respondeu:

– “Sei não, meu caro. Paraíso já é bom, mas fiscal, dizem, é melhor ainda”.

Foi a última vez que o vi.

Até que há algumas semanas recebi uma ligação de Virgínia, a estudante de Letras, na USP.

– “Rui, preciso falar urgente com você”.

Logo me veio à cabeça o debacle do PT, o golpe da mídia, Moros, Mendes, Calheiros e Cunhas se aproveitando da corrupção endêmica e secular para interromper o projeto de inserção social. Desconversei:

– Virgínia, ando meio por fora da política. Vivo em andanças agrícolas, metido com pepinos, abacaxis, transgenias. No Brasil, o ganho é pouco pra quem é pequeno e não rouba. Trabalha-se dia e noite. E você? O que anda fazendo?

– Morei dois anos na Bolívia, trabalhando num projeto do Evo. Agora, estou terminando o doutorado em Ciências Políticas. Mas, cara, não é nada disso. É o Serafa!

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– O que aconteceu? Morreu?

– Pior. Quebrou. Perdeu tudo. Está na miséria.

– Não brinca! Como?

– Se meteu com um desses merdinhas do mercado financeiro, vendeu o bar, depositou junto com a herança do irmão num paraíso fiscal, era golpe, perdeu tudo.

– Como é que você soube?

– O Nonato encontrou com ele e me contou.

– Você ainda está com o Nonato?

– Casamos, mas deixa pra lá, precisamos nos encontrar.

– É. Acho que sim. Onde?

– Em qualquer boteco que não seja um desses como o Riviera, de memória estripada por esses culino-empresários gananciosos e enganadores.

Se eu desse a trela, imaginava aonde a conversa iria parar e o Serafim também. Concordo e corto:

– Amanhã, às nove da noite, no “Rei das Batidas”, da Waldemar Ferreira.

– Combinado. O Nonato vai junto. Mas deixa eu te falar uma coisa: tenho ido a todas as manifestações na Paulista.

– Como? Esses papos de corrupção, impeachment, maioridade penal, volta dos militares, essas merdas?

– Claro que não! Mas precisamos tirar o PT do governo! Foi pra direita. Com eles a revolução não avança.

– Já sei. O PSOL e a Luciana Genro.

– Que nada! Estou entre o Rui Pimenta, do PCO, e o Zé Maria, do PSTU. A Luciana está muito à direita.

– Até amanhã, Virgínia. 

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10 comentários

  1. Jôgo de Dominó, não tem lugar.

    Parça Rui, posso invadir ‘de novo” seu espaço ?

    É que não resistí à tentação de compartilhar contigo, e com que acompanha-lo possa, sobre esta maravilhosa “pêrda de tempo” ou matação(esta palavra existe ? Se não existia, agora passa a existir) de tempo, que é o jôgo de dominó, nos botecos ou por aí…

    Rui, desde que aposentei-me, há cêrca de um ano,tenho todo o tempo do mundo, para fazer as coisas, que enquanto trabalhei, não pude fazer, como visitar exposições, museus, palestras interessantes, convenções(preferencialmente as gratúitas) que ocorrem em Sampa, e andando pelo meu “velho” (porem modernizado) bairro do Tatuapé, deparei-me com centenas de sessentões e assim como eu, aposentados, na Praça Sílvio Romero, em intermináveis disputas de partidas de dominós, que servem tambem, para “trocar figurinhas” e entre uma “lambrêta’ e outra, e uma cerveja e outra tambem, compararmos o atual momento político conturbado, porém inssôsso, com aquela efervecência dos anos 60/70, da qual muitos destes jogadores de dominó do Tatuapé, tambem participaram, e mesmo havendo entre nós jogadores, alguns reacionários e/ou ex-militares, a gente não deixa as discussões chegarem ás vias de fato, acalmados pelas cervejinhas(caras mas geladérrimas) que a gente compra(até “pindura”) nos bares da citada praça.

    Amigo, se tem coisa mais saudável, que matar as horas vagas nesta atividade , eu ainda não descobrí.

    Tá convidado, a comparecer aqui, a qualquer hora.

    Um excelente domingo a voc~e sua família, e aos amigos do blog.

  2. A criançada hoje prefere o trimino.

    A Virginia que me desculpe, mas se essa esquerda pensa que tirar o PT do governo vai ajudar em uma so virgula o povo e seus projetos de “revolução”,eles terão que estudar muita Ciências Politicas mesmo. 

  3.  
    Vou dizer o que sei em

     

    Vou dizer o que sei em VÁRIAS praças que frequento em São Paulo.

      Não é dominó o campeão.Muito ao contrário; Está em terceiro lugar.

           Os dois primeiros lugares se dividem no baralho:

                   Caxeta e pasmem: Sueca.( jogo típico de Portugal)

  4. Na mesa de dominó o mundo.

    Na mesa de dominó o mundo. Contar as pedras do adversário é uma arte, talves por isso, no meu bar, eu seja considerado o Rei do Fecha…hehe

  5. A regra no. 1 do dominó é

    A regra no. 1 do dominó é nunca matar a ponta do parceiro, a não ser q vc um bidão que possa controlar o jogo ou estar sem escolha.

    Parece a política naciona atual… 

  6. No Rio de Janeiro, em todos

    No Rio de Janeiro, em todos seus quadrantes, tem buraco, escopa, sueca, palitinho – também conhecido como basquete de bolso -xadrez e damas. Para quem gosta de damas,  o ponto certo é o Seu Manel, o Bar Brqueira, antigo Bem Estar II. Fica na galeria Brookilin, aquela do Le Boy, na Rauk Pompéia, no Posto Seis em Copacabana.

    Aqui em Sp, rola uns carteados valendo grana numas bocadas aqui em Pinheiros,

    Quem sabe a Vírginia não se interesse.

     

     

     

     

  7. Dominó em Floripa.

     

    Desconfio que dominó seja o “esporte” mais popular do Brasil…

    Em Florianópolis, não há nativo/manezinho, com mais de 35 anos, que não goste…

    Na Lagoa da Conceição, paraíso da Ilha da Magia, tomar uma cervejinha à beira da Lagoa e ver, ou se aventurar num desafio com o risco de perder de zero e ir para o quadro lá instalado na parede, no Bar do Ademir, no Canto dos Araçás, é uma das coisas mais divertidas que conheço. O mais legal é que não ha recanto tão aconchegante e frequentado por verdadeiros manezinhos da Ilha…

     

    O Dominó lá, é uma ponte entre a alegria de amigos e o deslumbre das belezas da Ilha.

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