Duas bicicletas vermelhas e um Natal no subúrbio

                                                                                                                                 Para Minhas irmãs, Ana e Flavia

​                                                                             Pela Eterna Lembrança de nossos pais

 

Elas chegaram no dia 25 de dezembro de 1964, e eram lindas: duas bicicletas vermelhas, novas, a cintilarem no sol do verão para mim e minha irmã Ana Maria. Minha outra irmã, Flavia, só tinha dois anos, era ainda bebê e não podia participar de muita coisa. Mas sua irmã mais velha – e eterna companheira desde então – de imediato sentou e saiu a pedalar. Sem apoio nenhum, lá foi Ana, feliz pela calçada. Minha mãe assombrou-se. Parecia muito feliz e chamou meu pai:

– Gilberto, venha ver isto !”, ela disse. Soou como um desafio para mim. Parei de observar reações alheias, por mais especiais que fossem, e sai a apertar forte os pedais atrás dela. Perdi o medo, virei soldado veterano e, um tanto sem jeito, parti acelerado atrás da irmã. Não a alcancei, mas se não fosse por ela, ou se por acaso Ana fosse mal-sucedida naquele dia, talvez eu jamais voltasse a andar em bicicletas outra vez. Ela nunca soube disso.

Bicicletas eram nossos sonhos absolutos e insubstituíveis. Minha mãe abriu crédito em uma grande loja – para espanto e desespero das tias – para comprá-las. Mamãe foi uma pioneira em diversos aspectos desta vida. Nas compras também. Todos nós aprendemos imenso com ela. Através de sua experiência aprenderíamos o poder de romper tradições e a fazer o que de nós não é ou nunca foi esperado. Ela viveu assim por toda sua vida. Somos apenas uma pálida cópia de tudo o que ela foi um dia.

Aquela foi uma manhã encantada em um bairro modesto da Zona Norte do Rio, para onde meus pais partiram depois de casados,em direção a um digno início de vida. No dia 24, Noite Boa do Natal de 1964, eu e minha irmã já havíamos percebido mudanças na casa. Mas era Natal, e além de tudo, havia uma outra realidade imposta: o Brasil vivia então vivia um de seus múltiplos “piores” momentos de sua História. Março de 1964 e o golpe civil-militar estava a apenas alguns meses a nossa frente.

Naquele dia abençoado , entretanto, tudo isso seria posto de lado. Vivíamos a felicidade doméstica provida um casal apaixonado, empenhado em dar o melhor para os filhos, a despeito dos problemas do Brasil. Sempre vivemos assim e eu não tenho outras recordações mais felizes que esta, a daquela manhã que hoje parece tão distante e inacessível. Havia uma criança muito pequena entre nós. Ela só tinha dois anos de idade e era Natal. Éramos felizes com isso sem perguntas ou exigências.

Jamais esquecerei as bicicletas vermelhas e da irmã que saiu em minha frente, sem respeitar a hierarquia que pregava eterna superioridade masculina em todos as tarefas nesta vida e na outra também. Os padres garantiam tudo. Minha família era Católica, de antiga tradição. Íamos à Missa todos os domingos, às seis horas da tarde. A caminhada era longa, mas eu nunca reclamei. Apesar de meus protestos, a culpa herdada e o catecismo obrigava-me a aceitar aquele espetáculo que eu não entendia e até hoje não compreendo muito bem. Pior de tudo: a Missa acontecia na mesma hora que “Jonny Quest”, o desenho mais amado por todos os garotos de minha idade. Eu não podia vê-lo por conta da Missa e eu nunca aceitei aquilo muito bem. E a culpa era do meu pai, muito rigoroso com assuntos religiosos.

Naquele dia nós vivemos um Natal verdadeiro e luminoso: havia paz, amor e beleza naquela família. Aquilo era mais sagrado para mim do que Deus e toda a constelação de santos e beatas que povoaram minha infância. Sempre ignorei a maioria deles por toda minha vida : eu e minhas irmãs tivemos dois pais que foram muito além da complexa responsabilidade envolvida em trazer vidas a este mundo. Aqueles dois adultos jovens, cheios de sonhos e interrogações sobre as vida entravam em cena naquele momento. Estávamos, nós cinco, a embarcar em uma aventura em convívio familiar, e que era justo a nossa história. Estávamos todos a iniciar algo muito importante em nossas vidas. Nós cinco e o Brasil junto, para o bem e para o mal.

Minha irmã menor, Flavia, começava sua jornada neste mundo. Nossos pais – eternos amantes a despeito de tudo e todos – iniciavam suas vidas como um casal com três filhos, em uma país que jamais garantiu nada a ninguém. Onde o trabalho nunca trouxe e nunca trará liberdade. Eu e minha irmã mais velha (um ano mais nova que eu), aguardávamos em ansioso silêncio o início das aulas. Era o meu primeiro ano de estudos, e para minha irmã ainda era o tempo do pré-escolar, na época chamado “pré-primário”. Um colégio de freiras nos aguardava, sisudo, cheio de superstição e surpresas.

Ali estava o início de tudo bem em frente a todos. As portas estavam abertas, aqui e por todo o Universo. Era assim que sentíamos e experimentávamos o mundo. Estávamos protegidos dos seus males por aquele casal. Que hoje dorme, eterno, em cada um dos filhos, netos e bisnetos, numa sucessão iniciada há milhares de anos, de volta ao início puro e singelo de todos os seres humanos. Era o tempo do mundo dos sonhos. E nós todos estávamos neles juntos.

 

                                                                            Rio de Janeiro, 18 de Janeiro de 20

Observação aos editores e leitores: este testo foi capa do Caderno Cultura (18/1). Foi republicado para correção de um erro de digitação. O original continua na edição do dia 18 de Janeiro. Com o erro.

 

 

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