“É momento de uma ampla discussão sobre agenda de direitos”, diz presidente da CUFA

"A gente caminha agora para transformar essa solidariedade em movimento permanente, já que a pandemia revelou o quão desigual é o Brasil." Assista

Foto: Natinho Rodrigues

Jornal GGN – A sociedade hoje está mais “sensível” a discutir e participar da construção de uma agenda ampla de direitos, de um projeto de Nação que vise sobretudo o combate à desigualdade social. Mas para isso acontecer, partidos e políticos – inclusive do campo progressista – precisam entender que o protagonismo deve ser da sociedade civil organizada. Que homens e mulheres já são os atores e atrizes de sua própria história. Que a lógica da urna está “prejudicada” e que o importante é um projeto político e econômico de consenso. É o que afirma ao GGN o presidente da CUFA, a Central Única das Favelas, Preto Zezé, que participou de uma live especial na noite de domingo (3) com o jornalista Luis Nassif. Confira no vídeo abaixo.

Na entrevista, Preto Zezé defendeu que é o empoderamento da sociedade civil organizada, puxando o cidadão a participar cada vez mais da vida política de sua região, a principal arma contra o surgimento de “salvadores da pátria” e seus discursos populistas, promessas fáceis.

No caso das favelas, essa organização e protagonismo surgiu originalmente da omissão e abandono por parte do Estado, que ainda vê a comunidade como um “lugar de violência” e a ela endereça quase que exclusivamente as políticas públicas centradas na força policial.

A pandemia do novo coronavírus mostrou que sem o ativismo e mobilização dos moradores das próprias periferias, que não se deixam pautar pela inércia do poder público, a crise sanitária poderia ter sido muito pior. Zezé diz que a CUFA não defende a substituição do Estado pelo trabalho pontual das organizações sociais. Mas não há como cruzar os braços enquanto há moradores sofrendo, como ocorreu na pandemia.

Neste cenário, a CUFA, que vem se consolidando como a maior formadora de lideranças nas favelas de todo o Brasil nos últimos 20 anos, intermediou a relação de empresas privadas que queriam ajudar os mais necessitados, e as famílias que precisavam urgentemente deste auxílio.

“Na pandemia tivemos de usar essa rede instalada há mais de 20 anos nas favelas, e começamos a mobilizar a opinião pública e sensibilizar o setor privado, que começou a querer ajudar mais. Casou que a CUFA virou essa interface entre grupos que precisavam urgentemente de ajuda, e empresas privadas que queriam fazer uma colaboração, em escala, chegando nessas pessoas”, comentou.

“A gente caminha agora para transformar essa solidariedade em movimento permanente, já que a pandemia revelou o quão desigual é o Brasil. Não é que a pandemia gerou a desigualdade. A pandemia é só mais um peça de roupa nesse cabide de tragédias que é o Brasil. A partir disso [articulação na crise sanitária], a CUFA ganhou vários prêmios, e é importante o reconhecimento, mas o principal é saber que há uma sensibilidade maior a esse sistema de inclusão social e enfrentamento à desigualdade”, disse Zezé.

Em seu site, a CUFA chegou a publicar um documento propondo 14 ações para o enfrentamento à Covid-19 nas favelas. Entre as medidas estava, por exemplo, o aluguel de hotéis para isolar os moradores que fazem parte do grupo de risco. Conforme o GGN mostrou aqui, a cidade de São Paulo não seguiu recomendações da CUFA e tampouco tinha um plano estratégico dedicado à realidade das favelas. Antes pelo contrário: em coletivas de imprensa, o prefeito Bruno Covas afirmou expressamente que as favelas da capital teriam o mesmo tratamento que os bairros nobres – ignorando as condições habitacionais, econômicas e sociais das comunidades.

“A REVOLUÇÃO É AGORA”

Ao GGN, Preto Zezé disse que embora as favelas sejam locais muito heterogêneos e que o conservadorismo e a religiosidade sejam uma realidade imposta, há terreno para semear uma participação maior da sociedade na política, desde que o foco seja a construção de um programa que reduza a desigualdade social e leve condições dignas imediatas para as comunidades.

Nesse cenário, “não vai ter como os grupos progressistas retomar conexão [com as favelas] só de dois em dois anos, falando em eleição. Me desculpa, essa síndrome da urna é prejudicial”, disse Zezé.

O momento é de diálogo e construção de um programa de consenso. “Isso tudo é possível. Eu não tô falando coisas pra quando a revolução vier. A revolução é agora, no cotidiano.” A CUFA é parte desse processo já em andamento.

 

 

 

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1 comentário

  1. Fundamental essa visão de dentro da questão. Nas mãos da elite dirigente a sociedade deu nisso aí: Casa Grande & Senzala: a novela açucarada que não foi encenada.

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