Elegia para a irmã morta

Amanha, dia 30, completa se 3 meses que minha irmã caçula Denise morreu aos 48 anos de cólon câncer, só 3 meses depois de mamãe morrer do mesmo câncer. Mamãe morreu aos 89 anos, tinha vivido muito, bem, e animada. Em retrospecto, haviam dezenas de sinais que alguma coisa estava errada com Denise por décadas, mas não houve nenhum deles com mamãe. Ninguém desconfiou que aqueles “problemas” de estômago de Denise eram coisa seria.

Ela não tinha nenhum dos fatores de risco. Passou a vida tentando ter a menor pegada possível, seja econômica ou social. Tinha toneladas de roupas que nunca usou, e varias compradas nos últimos 2 anos. Apareceu ate mesmo uma pavorosa, bizarra camisa guardada no guarda roupa, novinha, pouquíssimo usada, que diz “Amo BH radicalmente”, e que eu suponho deve ter uns 10 anos –são ha poucas semanas descobri que é campanha de publicidade BHina.

Duas semanas antes dela morrer, um amigo (com um único fator de risco pra câncer) saiu do ginásio e foi pra uma consulta medica normal. Ficou sabendo que tinha câncer pra todo lado, e o convenceram a fazer uma operação dentro de pouquíssimos dias. Tiraram 3/4 do fígado dele, e mais um monte de coisas, e ainda puseram um buraquinho pra sair o pus. Era evidente que ele ia morrer, mas a operação só apressou o que não podia ser evitado e ate hoje não vejo a justificativa pra apressar a morte de alguém assim… Ele só viveu um mês depois da operação, e foi uma morte muito, muito pesada –do gym à morte em 5 semanas.

Na “missa de um mês” (Denise era budistolica) a esposa dele compareceu e disse que ia considerar aquela missa a “missa de 7o dia” dele -que era ateu, alias, e havia morrido ha menos de 7 dias- e nos concordamos certamente. Fiquei surpreso com minha melhor amiga, de Colorado, que estava com a gente por duas semanas. Ela sabia quando se levantar, quando se sentar, quando cantar, conhecia as musicas de cor -a missa foi em português-, e estava completamente familiarizada com tudo! Eita espírita! (Tangencialmente, minha outra melhor amiga espírita de Colorado se mudou pra BH e abriu um restaurante. Suponho que ela ama BH radicalmente…)

Minha irma Solange da Austrália http://www.youtube.com/user/GoldenCarers#p/u trabalha com idosos e 11 ou 12 dias antes de voltar à Austrália ela me disse que a enfermeira (muito jovem e inexperiente em assunto tão especifico) tinha feito massagem nos pés da Denise e disse eles estavam molhados. Solange, que conhecia o fenômeno, me disse que não era um bom sinal e que Denise só tinha mais umas 3 semanas de vida. Mas Solange não sabia o que era e eu sei: era as células morrendo nas extremidades, por sinal geladas.

Note os pés dos seus doentes: se você fizer massagem e sua mão ficar molhada, é sinal que o fígado já esta irreversivelmente comprometido. Denise se foi 9 dias depois De Solange voltar pra Austrália.

Mais tarde, corri pro meu próprio guarda-roupa colecionando molambos e trapos, e passei pra minha esposa usar como pano de chão só em caso eu morrer repentinamente e alguém descobrir que eu tenho camisa de Idaho que comprei em 1990, ou de bandeira do Brasil que comprei no México em 92. Minhas cuecas de 94 estão ficando ainda, eu as desenhei, são minhas e acabou a historia.

E eu pensei que estava preparado. Quem não esta preparado pra uma morte que leva um ano e meio, com sinais visíveis de desintegração a cada momento que se passa?

Quem não esta?

Cinco dias antes de Denise morrer, minha prima da Florida e eu a levamos a um dos restaurantes que ela gostava muito, no Village, pedi uma coisa deliciosa e muito parecida com o “Sarcophage” do “Babette’s Feast”. Tiramos varias fotos. Quando as revelamos… a coisa era outra. Os contornos de todos os ossos do rosto e corpo de Denise eram visíveis através da pele. Ela havia perdido mais de 2 centímetros de pele de rosto, seus fartos seios haviam desaparecido, e em todas as fotos sua área do branco dos olhos era o dobro da nossa, no mínimo, pois não havia carne pra segurar a pele à volta dos olhos. Ela nem se parecia com minha irmã.

Já não havia o que salvar. Eu estava preparado pra morte dela, pelo menos. Foi o que eu pensei. Subitamente, agora, eu descubro que 5 galões de cerveja pra mim só duram 3 dias.

Eu estava fazendo planos de falar alguma coisa a respeito de cólon câncer e descobri que tenho pouquíssimo a dizer. Não, tenho uma coisa que eu posso dizer: faca exame do cólon. Suas chances de ter esse tipo de câncer aumentam muitíssimo se alguém da família já teve antes dos 55 anos.

E ninguém da sua família vai estar preparado tampouco.

http://en.wikipedia.org/wiki/Colorectal_cancer

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Agora eu vou jogar aquela pavorosa camisa fora.

I miss you, Denise. RIP. 

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