Elementos da “Revolução Progressiva” em Zizek

Redesenhando a transição ao socialismo pós capitalista

Não sou, ainda, grande conhecedor de Zizek. Tenho me aproximado de sua produção de forma tangencial, ouvindo entrevistas e palestras via internet.

O vídeo abaixo, um flash do seu pensamento, aponta como forma de “ir rompendo” com a gaiola de aço que é o capitalismo e contra o qual em geral só conseguimos elaborar imagens “moralistas”, segundo ele, (afirmação com que eu concordo), a adoção de políticas focadas, tal como a mudança de paradigma proposta por Obama no setor Saúde dos EUA. Mutatis mutandi parece uma versão contemporâneia de revolução passiva.

No livro que publiquei em 2013, “A Hipotese da Revolução Progressiva” me propus a teorizar sobre os caminhos da revolução no mundo de hoje, indo além de Gramsci, que é também o que ele acaba propondo com essa abordagem heterodoxa das políticas focais como caminho da revolução.

No vídeo Zizek fala do Obamacare mas se fôssemos olhar para o Brasil poderíamos multiplicar esse exemplo numa multidão de outros, em áreas normalmente ligadas à renda e à equidade. Sob esse enfoque, podemos perceber que os anos petistas efetivamente avançaram (sem formulação teórica, o que reduziu o seu alcance) por esse longo processo de desmonte dessa rede multitentacular que é o capitalismo e sua muito sólida fundamentação ideológica.

Zizek sinaliza também a necessidade de uma abordagem astuta, pela qual a política que escolhemos como alvo não parece ter o poder revolucionário que (na verdade) atribuímos a ela. Segundo ele o Obamacare é revolucionário e quebra paradigmas, mas sistemas de saúde de ambição universalista já existem em diversos países mantendo-nos às escondidas quanto à nossa verdadeira motivação de desmontar o capitalismo… Então essa revolução se opera imobilizando ideologicamente o adversário pela formação de um consenso que parece apenas aperfeiçoar o sistema, embora, esteja rompendo com ele o que deve ser feito sob intenções veladas.

Selecionei os seguintes extratos do meu livro, razoavelmente convergentes com o teor do que expõe Zizek no vídeo abaixo e que exprimem a transição ao socialismo como eu a vejo:

Seria ingênuo e utópico supor que a evolução da sociedade rumo ao socialismo, que exigirá conquistas sociais e espirituais de relevância maior, pudesse ocorrer sem que os pressupostos políticos estivessem sendo construídos como pré-condição às conquistas. A precedência da subordinação da burguesia não deve, entretanto, ser entendida de forma linear, através de uma cronologia rígida e unidimensional, marcada pela “tomada do poder”. A precedência da subordinação da burguesia é um processo de imobilização e de neutralização política permanente, multidimensional e definitivo na fase que entramos. É a luta contra um ser multitentacular que penetrou capilarmente na intimidade da sociedade. A cada progresso na imobilização do monstro a sociedade vai ganhando liberdade para progredir na construção do socialismo e na democratização do Estado. A precedência da subordinação da burguesia assume, portanto, num processo de transição marcado pelo contínuo, ares de falsa simultaneidade com a própria transição em curso; entretanto, estará desencontrada das conquistas em um grau.

Isso significa que as conquistas sociais contemporâneas terão decorrido dos níveis de subordinação da burguesia estabelecidos e consolidados no passado. As conquistas sociais futuras, por sua vez, dependerão umbilicalmente dos níveis de subordinação da burguesia que a cidadania estará assegurando com as suas lutas de hoje. O passo seguinte só pode ser dado com um grau de liberdade alcançado pela imobilização de determinado tentáculo. Esse processo de subordinação por movimentos sucessivos e contínuos condiciona o desenvolvimento de uma burguesia com liberdade cada vez mais limitada e com identidade ideológica cada vez mais imperfeita. Esse longo processo de libertação vai construindo, ao mesmo tempo, um “proletariado para si”, a cidadania cada vez mais esclarecida e politizada, e uma burguesia em si cada vez mais limitada ao interesse econômico, este último também regulado por uma sociedade cidadã e democrática fundamentada no consenso.

O coroamento do processo, o socialismo, coincidirá com o momento em que a Cidadania terá subjugado a Burguesia de forma historicamente irreversível.”

Ou ainda:

Os olhos desatentos de muitos analistas deixam de perceber que a permanência no tempo das políticas produzidas pelas conquistas sociais das camadas subalternas, tais como o Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil ou as conquistas sociais na França decorrem da formação de um consenso (a posteriori) do qual participa a sociedade como um todo, incluindo-se aí também, mas como parte vencida, a burguesia e seus partidos, o que materializa a “ontogênese” da sociedade socialista que emerge como uma metamorfose crítica que se opera no interior da sociedade capitalista.

A tendência analítica de diversos setores da esquerda frente a tais conquistas é de crer (a posteriori) tratar-se de uma iniciativa da burguesia para preservar a sua hegemonia política: uma esperta “concessão”. Na realidade, o consenso (que inclui também a burguesia, como força derrotada) representa a própria consolidação da política, que se fundamenta na efetiva tomada pelo proletariado de uma fração do poder político, cujo questionamento saiu da agenda da burguesia, por já estar selado por um tratado: a lei, que exprime a hegemonia do proletariado naquela fração do poder estatal. A lei é o tratado de paz (ou o consenso) que encerra a guerra, em que o lado vitorioso e o vencido são subscritores.

Mover-se para reverter a lei, que, no entanto, cria uma contradição patente entre os valores sociais hegemônicos e os valores cultivados naquela fração de poder que se amotinou, representaria um ônus político maior do que aceitá-la, razão porque está consolidado o poder tomado pelo proletariado naquela área, assim como a política de equidade que deste poder decorre. Nesses casos, tenta então a burguesia apropriar-se de sua autoria, o que ilude alguns tolos, ou a atenuar o seu simbolismo revolucionário, criticando o seu alcance, sua validade ou seus valores.”

Finalmente em termos de astúcia;

“À semelhança de Schindler, o conspirador que tece silenciosamente o futuro no terreno do inimigo atua frequentemente de forma “clandestina”, podendo ter papel relevante contribuindo ou para o avanço da emancipação do proletariado ou para a minimização dos recuos no campo da democracia. A influência no poder é importante e deve ser encarada com pragmatismo face à magnitude dos interesses em disputa, pois a luta não pode escolher a arena.

Os revolucionários alinhados à visão estratégica e de longo prazo de viés ontogênico estão chamados a avançar no processo transformação social, seja em meio a um poder progressista, seja em meio a um poder conservador. Aos seus olhos, as forças que ocupam o poder representam expressões climáticas da estrutura social; em algumas estações convém plantar; em outras, colher; mas a jornada de trabalho é contínua e está permanentemente alinhada aos fins últimos.”

Eis o vídeo de Zizek que inspirou esse artigo:

https://www.youtube.com/watch?v=2tsNQ4EO3Ec

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome