Empresas brasileiras investem menos de 1% em sustentabilidade

Companhias nacionais investem menos de 1% de seu faturamento em tecnologias sustentáveis. Uma pesquisa feita com as 100 maiores empresas do Brasil aponta que dentre os principais desafios para melhorar os recursos destinados à sustentabilidade estão o baixo intercâmbio tecnológico, a burocracia de legislações e a dificuldade de acesso à importação de tecnologias que auxiliem na produção industrial mais segura para o meio ambiente.

O levantamento foi feito pela consultoria alemã Roland Berger Strategy Consultants, em parceria com a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha. O mercado sustentável brasileiro representa atualmente 0,8% do mercado internacional, mas a expectativa é que cresça entre 5% e 7% ao ano até 2020, nível igual ao esperado para o mercado mundial, de cerca de 6,5% ao ano – nesse passo, espera-se que em 2020 sejam movimentados US$ 4 trilhões de dólares no segmento de meio ambiente e sustentabilidade no mundo.


Segundo o diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Brasil-Alemanha, Ricardo Rose, o mercado brasileiro é de grande atratividade para empresas nacionais e internacionais. Foi com esse intuído que a pesquisa “Green Technologies in Brazil – An Overview of the Sustainability Market” foi encomendada.

“Temos aqui uma indústria já estabelecida em alguns setores de forma bastante sofisticada. E acredito que o país esteja preparado para exportar tecnologias ambientais, como aquelas voltadas à produção de biocombustíveis”, acrescenta.

Por outro lado, Rose reconhece que em setores como o de tratamento e recolhimento de resíduos, o país ainda tem muito o que investir, e é nesse ponto que entrariam os investimentos externos e, até mesmo, a troca de tecnologias. Em 2007, os recursos brasileiros alocados em meio ambiente (gestão de resíduos sólidos, água e saneamento, e poluição atmosférica), foram iguais a US$ 5,2 bilhões (ou 0,31% do PIB de então). No mesmo ano, os investimentos em energias renováveis foram de US$ 6,7 bilhões – dois anos antes, em 2005, o Brasil havia investido cerca de US$ 3,5 bilhões no segmento de meio ambiente (0,41% do PIB).

Em comparação à Alemanha, os investimentos no uso de tecnologias sustentáveis no Brasil apresentam volumes bastante inferiores. O segmento do país europeu cresceu cerca de 15 vezes mais do que o mercado brasileiro, totalizando pouco mais de US$ 82 bilhões em 2007 – só os investimentos em energias renováveis giraram em torno de US$ 40 bilhões, portanto seis vezes mais que o investimento brasileiro.


Mercado em expansão


A maioria dos participantes da pesquisa declarou que o país apresenta sérias insuficiências ligadas ao tema, principalmente com relação à disponibilidade de equipamentos e tecnologias para redução de emissões atmosféricas, para produção de energias renováveis e na melhoria de gestão dos resíduos sólidos.

Para o professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Bastiaan Philip Reydon, é difícil quantificar quanto o setor produtivo brasileiro tem absorvido em relação a medidas e ações sustentáveis, no entanto, considera que o discurso ‘verde’, cada vez mais propagado dentro das empresas, já é algo importante para dar início a mudanças reais no modo de produção do país.

“Milito há quase 20 anos nessa área, e percebo que tem crescido de forma significativa a demanda por esses serviços e tecnologias entre as empresas. No entanto, considerando as metas estabelecidas por cientistas no Protocolo de Kyoto [quanto a diminuição da emissão de gases causadores do efeito estufa] sabemos que estamos muito aquém das ações que deveríamos tomar”, ressalta.

As 100 empresas que responderam ao questionário encomendado pela Câmara Brasil-Alemanha apontaram que o aumento de investimentos em tecnologias sustentáveis depende de: custos de equipamentos mais atrativos; ampliação da oferta doméstica; melhor acesso à importação; crescimento do intercâmbio tecnológico; e harmonização e simplificação da legislação, somado a fiscalização mais transparente e efetiva dos órgãos públicos.


Estado deve participar

Os dados da pesquisa também apontam boas expectativas quanto ao crescimento do investimento público no setor, em especial, em relação às parcerias público-privadas (PPPs), concessões e privatizações. Rose acredita que o Estado é fundamental para incentivar tecnologias sustentáveis no Brasil, mas diz que o governo não está atuando como deveria. “Um exemplo disso é o plano da construção de um milhão de casas populares. Até agora o governo não iniciou uma discussão sobre as formas de construir residências sustentáveis, como os materiais usados podem ser em parte recicláveis, sobre a instalação de coletores de energia solar e até mesmo sistemas de recolhimento e reaproveitamento da água das chuvas”, colocou.

Rose apontou ainda a falta de incentivo brasileiro a fontes renováveis além da biomassa e etanol. “No caso das licitações, o governo não tem facilitado a compra de energia eólica. O único grande projeto que desenvolveu foi com relação ao pró-alcool”, continua.

O professor Reydon afirma também que os órgãos governamentais têm papel importante no incentivo de medidas sustentáveis na produção, mas as ações para alguns setores são fracas. “A indústria para construção de turbinas para produção de energia eólica, por exemplo, já é estabelecida no Brasil, mas toda a produção de equipamentos construídos é exportada, isso porque as regras estabelecidas para a produção de energia no país ainda desfavorecem a energia eólica – o governo paga muito mal pelo quilowatt dessa matriz”, explica.


Desafios para o Brasil


Os principais resultados da pesquisa revelaram que os desafios do Brasil envolvem a reciclagem de materiais (estima-se que apenas 12% do que é descartado é reciclado); destinação adequada para os resíduos (apenas 39% das cidades brasileiras possuem aterros sanitários); e expansão dos serviços de saneamento básico – sendo que apenas 51% dos domicílios do país possuem condições adequadas desse serviço.

Enquanto as empresas brasileiras investem, em média, 1% dos seus recursos em tecnologias sustentáveis, internacionalmente esse índice alcança 2% do faturamento das instituições que produzem e prestam serviços. A expectativa é que o Brasil aumente a participação no segmento sustentável por meio das fontes renováveis em sua matriz energética – atualmente cerca de 46% do consumo interno vem de fontes limpas.

A crise financeira mundial deve causar impacto nos investimentos em tecnologias verdes, 27% das empresas questionadas responderam que irão reduzir seus investimentos em tecnologias verdes em 2009-2010, já 39% responderam que irão adiar os investimentos durante esse período, e 7% pretendem aumentar, enquanto 27% manterão os recursos alocados anualmente para o setor.


Matéria Relacionada:
=> Mais de 60% das cidades brasileiras não contam com aterros sanitários

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome