Espaço reduzido ameaça espécies

A fragmentação do ambiente natural está entre os fatores que contribuem para a extinção de espécies, assim como o grau de ameaça e de raridade de um grupo animal. Entretanto, pesquisa realizada na Mata Atlântica revela que espécies já incluídas na lista de animais ameaçados respondem de modo indiferente a perda de espaços verdes.

Segundo a autora do trabalho, doutora em Zoologia pela Universidade de São Paulo (USP), Adriana de Arruda Bueno, das 42 espécies que conseguiu analisar, nenhuma respondeu a variação do estado de regeneração, ou seja, de crescimento de florestas nativas. Em contrapartida, os animais comuns, que não sofrem perigo eminente de desaparecimento, responderam de forma direta e negativamente a perda e fragmentação da Mata Atlântica – algumas espécies ameaçadas são afetadas pelo desmatamento, mas os resultados variam entre positivo, negativo, ou mesmo, indiferente.

Os levantamentos foram realizados em seis áreas de 10 mil hectares cada, na Mata Atlântica do Planalto Paulista, por sua vez, subdivididas em 68 sítios nos municípios de Piedade-Tapiraí, Cotia-Ibiúna e Ribeirão Grande-Capão Bonito. Além das áreas-foco, foram também estudadas paisagens adjacentes de 10 mil hectares, uma mata contínua e uma de mata fragmentada.

As três regiões possuem topografia, relevo e clima semelhantes, e diferentes proporções de florestas remanescentes nas paisagens fragmentadas: Piedade-Tapiraí com 50% de cobertura nativa, Cotia-Ibiúna com 30%, e Ribeirão Grande-Capão Bonito com 10%.

“No total, foram realizadas quatro sessões de captura de oito dias cada, em cada sítio, duas por verão (dois verões consecutivos), totalizando 32 dias de captura e 352 armadilhas-noites por sítio e 23.936 armadilhas no total dos 68 sítios”, destaca Bueno no estudo.

As armadilhas detiveram 3.930 animais pertencentes a 42 espécies de pequenos mamíferos (28 roedores e 14 marsupiais). Do total, 29 variedades foram classificadas como endêmicas, ou seja, só ocorrem na Mata Atlântica ou em biomas florestais, 11 não são restritas às florestas, e uma é exótica (ou seja, espécie que naturalmente não pertence àquele bioma, mas por alguma razão passou a ocupar e a se reproduzir naquele espaço). A pesquisadora também encontrou uma variedade animal que não pode ser classificada nem identificada a nível de espécie.

Resultados

Dez das espécies capturadas já tinham sido listadas pela International Union for Coservation of Nature (IUCN) e pelo IBAMA como ameaçadas de extinção – 3 tipos de roedores e 8 marsupiais. “Essas espécies perfazem 22% dos indivíduos capturados nas matas contínuas e 24% no total”, diz a pesquisadora.

Das dez variedades ameaçadas, seis são raras localmente e de ocorrência restrita no Planalto Atlântico Paulista – foram capturados 45 indivíduos, entre essas seis espécies, e em apenas 12 dos 68 sítios de amostragem.

Bueno explica que as listas vermelhas – que tabelam animais em risco de extinção, ou já extintos – são importantes para direcionar pesquisas, políticas de conservação e legislação ambiental, além de permitir o monitoramento de status da biodiversidade, regular o desenvolvimento e exploração humana em áreas florestadas.

Mas a definição do que é considerado raro é complexa. A bióloga destaca que raridade é um elemento natural de todas as comunidades animais, “depende da escala e pode assumir três formas de suas combinações: distribuição geográfica (endêmica), especificidade de habitat (restrita a poucos habitats) e tamanho da população local (pequenas populações locais)”. Junto a esses fatores está à relação entre o número de predadores e presas – a luta pela sobrevivência é importante no controle populacional de espécies dentro de cada bioma.

Por outro lado, existe a ação humana – chamada de impacto antrópico – que transformou conjuntos de espécies, que antes eram comuns, em raras, sobreviventes nas áreas fragmentadas de florestas. Logo, o problema encontrado nas listas vermelhas, segundo Bueno, é que os dois tipos de raridade formados (natural e induzida pelo homem) não são distinguidos.

“A variabilidade na resposta das espécies presentes nas listas vermelhas frente aos processos de perda e fragmentação do habitat, juntamente com a exclusão de espécies comuns afetadas por esses processos, enfraquece o uso dessas listas no processo de tomada de decisão em relação ao estabelecimento de políticas de conservação e no controle do desenvolvimento e da exploração dos recursos naturais”, considera.

Bueno sugere que no desenvolvimento de listas exista a separação de espécies em dois grupos: as naturalmente raras versus as afetadas pelas ações antrópicas. A pesquisadora também aponta a necessidade da utilização de outros critérios para tabelar animais ameaçados, como a resposta a fragmentação do habitat e a especificidade da região onde a variedade de animal ameaçado ocorre.

Para acessar o estudo na íntegra, clique aqui.

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