Estudo avalia cadeia da biodiversidade

Uso da biodiversidade como insumo melhora faturamento de empresas, diz estudo. A pesquisa, realizada em 15 comunidades envolvendo empresas instaladas na Amazônia, revela ainda que as populações locais reconhecem o valor da natureza para as produções sendo necessário estabelecer mecanismos que viabilizem a cadeia produtiva com características específicas à biodiversidade.

O autor do trabalho, e atual técnico da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Gonzalo Enríquez, coordenou a implantação da primeira Incubadora de Empresas voltadas para a biodiversidade no país, na Universidade Federal do Pará (UFPA), em 2001. E em sua tese de doutorado para a Universidade Federal de Brasília, Desafios da sustentabilidade na Amazônia, destaca que o aproveitamento comercial da biodiversidade no país depende de mudanças de paradigmas importantes.

Um deles é a valorização dos recursos da biodiversidade, reconhecendo o potencial que têm para o descobrimento de novos princípios ativos à remédios, produtos alimentícios, cosméticos e controle biológico de doenças agrícolas.

Apesar de haver um aumento da percepção dos setores produtivos, em todo o mundo, em relação às riquezas da Amazônia, o país persiste em estabelecer mecanismos de incentivo às atividades consideradas predatórias – como agricultura e pecuária – em vez de valorizar as produções tradicionais de extrativismo, que consiste na colheita de recursos renováveis da floresta, contrário do cultivo em larga escala.

O pesquisador não se manifesta contra a atividade agrícola em larga escala ou pecuária, mas afirma que há necessidade do estabelecimento de regras claras em relação à questão fundiária e uso da terra na Amazônia. A proposta teria como objetivo impedir a exploração livre dos recursos florestais e da própria terra.

“O cultivo de produtos da biodiversidade, em áreas de floresta aberta, termina por derrubá-la paulatinamente”, argumenta. As pesquisas permitiram concluir que por mais que se queira estabelecer uma relação harmônica entre agricultura e pecuária, é a exploração dos produtos da biodiversidade, de forma extrativista, que garante a conservação da floresta em pé.

Cooperação

Enríquez explica que nos dois extremos das três cadeias produtivas analisadas (óleos de andiroba, castanha-do-pará, e copaíba) constatou-se má formação e interação entre os agentes.

“Existe até certo ponto uma relação primitiva e colonialista, pela qual as empresas que possuem a tecnologia ou empresas de países desenvolvidos extraem produtos naturais nas localidades, pagando por eles baixíssimos preços e realizando agregação de valor nos centros de desenvolvimento tecnológicos mais avançados”, aponta.

Em contrapartida, o pesquisador encontrou exemplos positivos com relações firmadas entre comunidades e empresas para o longo prazo. Essas propostas visam fortalecer as cadeias de produção, garantindo a compra de matéria-prima, além disso, promovem o desenvolvimento das comunidades com ações para educação, saúde e capacitação de trabalhadores. “Por pequenas que essas ações sejam, superam os apoios que as políticas públicas do governo realizam”, ressalta.

Foram identificados dois tipos de obstáculos nas cadeias: primeiro, a dificuldade que as comunidades precisam enfrentar quando estão próximas dos centros urbanos, pois competem com o grau de inovação absorvido mais fácil e rapidamente pelas áreas dinâmicas. O segundo tipo de obstáculo é o enfrentado pelas comunidades distantes dos grandes centros em relação ao transporte dos seus produtos.

Incubadoras

O pesquisador ressalta que as incubadoras foram fundamentais na realização de inovações tecnológicas (em produtos e processos) e que tanto empresas grandes quanto médias e pequenas podem ocupar um espaço importante na exploração da biodiversidade. Dentre as companhias que destaca, estão: Ervativa, Fluidos da Amazônia, Juruá, Pronatus e Nativa da Amazônia – em todas foram realizados cursos de capacitação em incubadoras.

“Um elemento comum entre as empresas que desenvolvem atividades de P&D [pesquisa e desenvolvimento] é que todas elas já passaram por um processo de capacitação tecnológica e empresarial em centros de incubação de empresas”, conta.

A atividade mais participativa na cadeia de produção da biodiversidade é a cosmética. Essa indústria enfrenta dificuldades quanto aos ciclos de vida dos vegetais que utiliza como base para seus produtos, mas a questão é corrigida a partir dos lançamentos contínuos de novos produtos ao longo do ano. Ou seja, suas inovações são basicamente de marketing e pouco em tecnologia. “Esse nicho é um dos mais estratégicos para o uso direto da biodiversidade da Amazônia”, justifica Enríquez.

Em entrevista, o pesquisador completa a avaliação concluída no estudo afirmando que não só as incubadoras são importantes para o uso correto do bioma amazônico. A visão econômica do uso desses recursos deve ser diferente da aplicada nas cadeias tradicionais de produção:

“O mercado – lei de oferta e procura – não pode determinar a exploração que se quer para a Amazônia. Os benefícios financeiros que esse bioma oferece serão cada vez mais perceptíveis a partir das descobertas científicas. Para tanto, temos necessidades de investimentos para a formação de pólos de pesquisas que possam ser estoques de produtos e conhecimento”, defende. Esse pólos, com tecnologia intermediária, entrariam por sua vez em contato com as empresas e a troca de conhecimento para a produção de matérias de qualidade seria complementada.

Esse é um trecho da cadeia que inicia na ação extrativista – que consiste no uso da força de trabalho local para recolhimento e tratamento primário dos insumos in natura. Algumas instituições de ensino da região já estariam sendo transformadas em Institutos Tecnológicos favorecendo a sustentabilidade das produções.

Políticas públicas

Incentivar o extrativismo e encaixá-lo a uma cadeia de produção é o modelo ideal de sustentabilidade para a floresta Amazônica, não deixando de aproveitar o potencial econômico e científico no Norte do país.

O pesquisador lembra que vivem hoje cerca de 30 milhões de pessoas na região com acesso escasso a recursos financeiros e educacionais. O extrativismo vegetal deve ser articulado ao mercado pelas empresas, mas essa não deve ser vistas como única alternativa:

“Ela se articula [cadeia da biodiversidade], necessariamente, com outras formas de produção urbana (indústrias limpas) e rural (agricultura orgânica, produção consorciada, produção animal intensiva, entre outras). Dificilmente, em um modelo desta natureza, a cadeia produtiva da biodiversidade articulando o extrativismo ao mercado regional e internacional poderá ser relegada. Como não o poderá o conjunto de unidades de conservação e terras indígenas demarcadas ou em processo de demarcação. Não se esquecendo, finalmente, que em nem uma, nem outra, sozinhos, podem responder por um novo modelo de desenvolvimento, mas são partes integrantes. Como podem ser a mineração, a produção de biocombustível e mesmo a extração de madeira, desde que com manejo, planejamento e controle. Uma Amazônia despida dos seres humanos ou alienada de modernidade não é mais possível”, conclui em estudo.

Para acessar o estudo na íntegra, clique aqui.

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