Etnografia do Rolezinho

Etnografia do Rolezinho

Do meu Facebook:   

Em 2009, eu e minha colega e amiga, Lucia Scalco, começamos a estudar o fenômeno dos bondes de marca. Como? A gente reunia a rapaziada, descíamos o morro e íamos juntos dar um rolezinho pelo shopping – o lugar preferido desses jovens da periferia de Porto Alegre. Eles nos mostravam as marcas e lojas preferidas. Eles contavam como faziam de tudo para adquirir esses bens (descrevemos todas as possibilidades em nossos papers). Havia uma agência (no sentido de prazer de Appadurai) impressionante nesse ato de descer até o shopping. Eles não queriam assustar, porque nem imaginavam que discriminação fosse tão grande que eles pudessem assustar. Muito pelo contrário: eles faziam um ritual de se vestir, de usar as melhores marcas e estar digno a transitar pelo shopping. Uma vez um menino disse que usava as melhores roupas e marcas para ir ao shopping para ser visto como gente. Ou seja, a roupa tentava resolver uma profunda tensão da visibilidade de sua existência. Mas noutro canto, os donos da loja se assustavam e cuidavam para ver se eles não roubavam nada. Um funcionário disse à Lucia a mais honesta frase de todas (uma honestidade que corta a alma): “não adianta eles se vestirem com marca e vierem pagar com dinheiro. pobre só usa dinheiro vivo. Eles chegam aqui e a gente na hora vê que é pobre”. Eles, no entanto, acreditavam que eram os mais adorados e empoderados clientes das lojas. Um funcionário da Nike uma vez declarou para a pesquisa: “nós nos envergonhamos desse fenômeno de apropriação da nossa marca por esses marginais”. Mas eles nos diziam: “as marcas deveriam nos pagar para fazer propaganda, porque nos as amamos. Sem marca, você é um lixo”. Quando eu mostrei o Funk dos Bens Materiais em aula, uma aluna de camadas altas comentou: “quando a gente vê a figura toda montada marca estampada, já vê que é negão favelado”. Infelizmente não me surpreendeu o fato de toda a aula ter caído na risada. Esse mesmo tipo de pessoa é aquela que ainda diz que é um absurdo comprar televisão, “pobre deveria alimentar a prole” e ponto final. No programa Papai Noel dos Correios, que eu e Lúcia analisamos, uma menina  desafiava o seu destino: “kiido papai noel: eu me comportei, eu passei de ano, eu cuido da minha vó, meu pai sumiu de casa. Eu só quero uma calça da Adidas!”. Mas vocês podem concluir que cartas como essas são relegadas por meio de uma moralidade escrota: todos os pedidos de meninas e meninos de roupas de marca eram vistos como um desaforo. Que absurdo! Afinal, pobre deve pedir material escolar e bicicleta!

Eu tenho ficado quieta nesse caso do rolezinho porque este talvez seja o assunto que mais seja caro à minha sensibilidade acadêmica e política. Esse tema é justamente o que me faz me afastar de uma certa antropologia vulgar com suas interpretações do tipo “que lindo essas pessoas se apropriam das marcas e dão novos significados e agência e bla blá blá prá boi dormir”. Mas também é este tema que me aproxima ao que a antropologia tem de melhor: ouvir as pessoas. Não há uma grande diferença do rolezinho organizado e ritualizado das idas aos shoppings mais ordinárias (ainda que a ida ao shopping pelas classes populares nunca tenha sido um ato ordinário), eu vejo uma continuidade que culmina num fenômeno político que nos revela o óbvio: a segregação de classes brasileiras  que grita e sangra. O ato de ir ao shopping é um ato político: porque esses jovens estão se apropriando de coisas e espaços que a sociedade lhes nega dia a dia. Quando eu vejo aquele medo das camadas medias, lembro daquelas pessoas que se referiram “aos negões favelados”. E há certa ironia nisso. Há contestação política nesse evento, mas também há camadas muito mais profundas por trás disso.
Eu estou acompanhando os rolezinhos e sinto certo prazer em ver aquela apropriação. Mas entre apropriação e resistência há uma abismo significativo. Adorar os símbolos de poder – no caso, as marcas – dificilmente remete à ideia de resistência que tanta gente procura encontrar nesse ato. O tema é complexo não apenas porque desvela a segregação de classe brasileira, mas porque descortina a tensão da desigualdade entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, entre o Norte e o Sul. E enquanto esses símbolos globais forem venerados entre os mais fracos, a liberdade nunca será plena e a pior das dependências será eterna: a ideológica. Por isso, para entender a relação que as periferias globais tem com as marcas e os shoppings, é preciso voltar para os estudos colonialistas e pós-colonialistas. A apropriação de espaços símbolos hegemônicos, desde Mitchell até Newell, passando por Bhabha, Rouch e Ferguson, nos mostra uma permanente tensão na apropriação que tenta resolver a brutal violência que esta por trás desse ato. O meu lado otimista, não nega o que esses jovens nos disseram: do prazer que sentem em se vestir bem e circular pelo shopping para SER VISTO. Meu lado pessimista, tende a concordar com Ferguson de que há menos subversão política e mais um apelo desesperador para pertencer à ordem global. É preciso entender o rolezinho dentro de uma perceptiva do Global South de séculos de violência praticada na tentativa de produzir corpos padronizados, desejáveis e disciplinados.
O pobre no shopping repete a mimeses de Bhabha. A classe media disciplinada vê os jovens vestindo as marcas do mercado hegemônico para qual ela serve. A classe media vê os sujeitos vestindo as mesmas marcas que ela veste (ou ainda mais caras), mas não se reconhece nos jovens cujos corpos parecem precisar ser domados. A classe media não se reconhece no Outro e sente um distúrbio profundo e perturbador por isso. Não adianta não gostar de ver a periferia no shopping. Se há poesia da política do rolezinho é que ela é um ato fruto da violência estrutural (aquela que é fruto da negação dos direitos humanos e fundamentais): ela bate e volta. Toda essa violência cotidiana produzida em deboches e recusa do Outro e, claro também por meio de cacetes da polícia, voltará a assombrar quando menos se esperar.
 
Rosana é cientista social e antropóloga. Professora de Antropologia do Desenvolvimento da Universidade de Oxford. Escreve sobre a China, o Brasil, os BRICS e os países emergentes e em desenvolvimento em geral

 

22 comentários

  1. Os pobre tão deixando os racistas muito nervosinhos…

    Aí reacinhas preconceituosos… só vai “piorar” prá vocês.

    A periferia tem o direito de frequentar todos os lugares outrora exclusivos.

    • O Shopping Itaquera é

      O Shopping Itaquera é exclusivo? Lá só entra de Bill Gates para cima, no hospicio tem gente mais equilibrada.

  2. O PT deveria politizar os rolezinhos.

    O PT deveria politizar os rolezinhos.

    E só “deixar no ar” e espalhar quem é contra os rolezinhos são os eleitores do PSDB.

    O Haddad poderia receber os representantes desse grupo para uma conversa.

    Afinal, o PT é o povo, e o povo é PT, não é o que dizem.

    Então, politizem os rolezinhos PT !

    • Ai, tomara que o PT faça

      Ai, tomara que o PT faça isso…..rico, pobre, remediado e afins odeiam esse tipo de bagunça dos tais rolezinhos.

      O povo da periferia é conservador, gosta de ordem, trabalhar, procuram evoluir e dar futurio melhor para seus filhos. 

      Esses vândalos que andam fazendo bestialidades são apenas vagabundos…

    • O diálogo é sempre importante

      O diálogo é sempre importante e necessário, até porque se deixar que as coisas sigam o ritmo “natural” que é ditado pelas forças de segurança (comandadas pelo PSDB em SP), a tendência é a coisa desandar mais cedo ou mais tarde, até porque, de certa forma, foi o que ocorreu ano passado nas manifestações. E se desandar, vai estourar na reta do PT e não da oposição…bem no ano de eleição. Porque esperar pela Copa se dá para “tocar fogo” desde já?

      Por sinal, me ocorreu uma sugestão no caso de SP (e mesmo de outras cidades)…

      Não tem um sambódromo por aí que passa a maior parte do tempo desocupado? Pois se o problema é a falta de espaço para “curtição”, não faz sentido ignorar a existência de espaços que não são utilizados e que poderiam ser “ocupados” pela sociedade que carece de locais adequados para o lazer. Pelo menos aqui em Porto Alegre o negócio fica fechado praticamente o ano inteiro até onde sei, quando poderia servir de espaço para diversas atividades desenvolvidas pelo Estado e/ou movimentos sociais.

      • A idéia é boa, problema é

        A idéia é boa, problema é chegar no sambódromo, já andou de ônibus em SP?

        E mesmo que vc lotasse o sambódromo, não ia caber 10 % da garotada que sai de rolezinho em SP.

  3. O problema não é ser pobre ou rico

    A questão não é ser pobre ou rico. No caso do RJ pelo menos eu não percebo a questão de frequência em shopping dessa forma. O problema são três mil jovens se reunirem sem um motivo específico e entrarem em um lugar, qualquer um, por um período longo de tempo. Às vezes as pessoas se esquecem de quando eram jovens. Vocês podem ter certeza que juntar 4 mil jovens japoneses, dinamarqueses, brasileiros, milionários, pobres … é certeza de briga e confusão, não está relacionado com estratomsocial. Claro que há exceções, mas a imensa maioria dos jovens quando em grandes grupos tendem a se comportar de forma agressiva, isso é fato. Se o rolezinho fosse de senhores e senhoras idosos da periferia, podem ter certeza que não haveria polêmica nenhuma. Resumindo, juntar um monte de jovem junto sem um motivo específico é garantia de arruaça.

    • Sr. LC,
       
      Não tem nem coragem

      Sr. LC,

       

      Não tem nem coragem de escever seu nome ao expor um pensamento tão reacionário e manifestar um preconceito contra os jovens da periferia como se todos fossem marginais.  Em 1970, quando eu tinha 18 para 19 anos, encontrei uma citação num jornal que recortei e guardo até hoje e coloco aqui para sua refelxão:
      “Não vejo futuro para a humanidade se depender dos jovens de nossos dias. Os jovens de hoje são todos frívolos…” Essa frase parece ser de um reacionário de nossos dias, mas foi escrita por ninguém menos do que Aristóteles em 432AC. 
      E como o senhor vê a humanidade teve e terá um futuro sempre melhor mesmo contrariando pessos sábias como Aristóteles e outros menos sábios como o senhor. Portanto é bom  rever seus conceitos sobre a juventude pois eu torço para que eles acertem sempre mais e sejam cada dia mais brilhantes pois só assim terei em minhe velhice tempos de mais paz.

  4. O ROLEZINHO E A EXPRESSÃO

    O ROLEZINHO E A EXPRESSÃO POPULAR DAS JUVENTUDES

    Começa o ano de 2014 e com ele algumas questões com a periferia brasileira, com a juventude negra e a sua expressão popular, dentro de um novo contexto. Os rolezinhos, organizados pelos jovens da periferia, estão adentrando as zonas de conforto e os espaços de “exclusividade” de uma elite brasileira que não assimilou e não aceita as transformações que vêm ocorrendo no nosso país.

    O agora “famoso” rolezinho, fortemente convocado no final de 2013 e agora no início de 2014, é visto com muita desconfiança e preconceito pelas famílias de classe média-alta que frequentam espaços como os shoppings centers. O rolezinho de 15 de dezembro, no shopping de Guarulhos, acabou com 23 presos, que foram liberados pouco depois. Contra eles nenhum tipo de acusação. Houve várias outras convocatórias como a do Shopping Metrô Tucuruvi, na zona norte, onde a participação de cerca de 500 jovens foi recriminada fortemente pela PM de São Paulo.

    O fenômeno dos rolezinhos (centenas, às vezes milhares de jovens, combinavam para “zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras”, pegar geral, se divertir, sem agressão, sem roubos, sem violência) são concentrações espontâneas de pessoas convocadas pelas redes sociais para ações em um mesmo espaço. Apenas a ocupação de um espaço até pouco tempo bem distante da realidade desses jovens, como por exemplo os shoppings nas grandes cidades.

    A maioria desses jovens são influenciados pelo funk da ostentação, surgido na Baixada Santista e agora bem forte em todo o estado de São Paulo e também no Rio de Janeiro. Esse perfil musical evoca o consumo, o luxo, o dinheiro e o prazer que tudo isso dá: correntes e anéis de ouro, vestidos com roupas de grife, carros caros e utilização de espaços há pouco tempo longe da realidade.

    Neste final de semana, seis shoppings do Estado de São Paulo conseguiram o apoio da Justiça para bloquear a entrada dos jovens e acabar com o direito de ir e vir de qualquer cidadão. E, ainda pior, autorizando policiais e seguranças privados para fazer abordagem aos jovens com perfil bem definido: menores desacompanhados, de baixa renda, negros(as), roupas largadas. Qual foi a solução para acabar com os rolezinhos? Cassetetes, a proibição de entrar no shopping e uma liminar onde o garoto(a) indiciado terá que pagar multa de 10 mil reais.

    Qual crime essa juventude está cometendo? A saída será mesmo as bombas de gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, balas de borracha e a mesma truculência e violação dos direitos civis usadas durante as manifestações do ano passado? Ou o mesmo Apartheid social e irracional que ainda impera em vários países e que ainda existe no Brasil?

    O verdadeiro crime é a ausência de políticas sociais que incluam essa geração de jovens, que gere um leque de oportunidades, emancipação e autonomia e que são diariamente excluídas do convívio social.

    De fato o que está em jogo são os direitos civis de uma parcela significativa da juventude brasileira, que, através dos rolezinhos, acabam denunciando de uma forma criativa o estado de exceção, a atitude vergonhosa de um estado e a expressão racista e violenta do conjunto de autoridades policiais, a ausência de políticas públicas, de espaços de lazer (pistas/quadras/ anfiteatro), de expressão cultural e a privatização das cidades e da mobilidade urbana no Brasil. Esses jovens negros da periferia, até então invisíveis para a parcela da Casa Grande que ainda existe no Brasil, têm o desejo de construir novos horizontes, ter opções de fomentar novas narrativas de qual país eles querem viver.

    O direito à livre manifestação está previsto na Constituição Federal. O que vemos hoje é a usurpação dos direitos civis e das expressões populares no nosso país

    Os rolezinhos de hoje, já aconteceram em vários outros momentos da história e vão continuar acontecendo no futuro breve em contexto social diferente. Entender e valorizar as mudanças sociais no nosso país e fortalecer a diversidade da organização e da expressão das juventudes é de fundamental importância para construir um país cada vez mais justo, igualitário, livre do racismo e do preconceito e com respeito à pluralidade do nosso povo.

    Que aconteçam vários rolezinhos por mais Juventude Viva, por mais espaços públicos e área de lazer, os rolezinhos contra o racismo, rolezinhos pela desmilitarização da PM, rolezinhos por um Plebiscito Popular pela Reforma Política.

    É povo! É Rolê! É Juventude Viva!

    Jefferson Lima

    Secretário Nacional de Juventude do PT
    Membro da Direção Nacional do PT

    • Rolezinho na tua casa, oq c acha?

      Brincadeira, só pra distrair, mas o assunto é sério. Aliás, detesto funk e não faćo rolezinho há uns 15 anos.

      O crime desses garotos, talvez você não tenha crescido no meio deles como eu, mas todos eles sabem qual é: desacato a autoridade.

      Se um PM te manda ir embora, mesmo que você não esteja fazendo NADA, que o policial não tenha NENHUM motivo pra te mandar sair, ainda assim você tem que sair, porque é o que diz a lei: desacatar (desobedecer) a autoridade constituida é crime e dá cadeia.

      O policial não precisa de nenhuma justificativa pra te mandar embora, aliás se ele te der um tapa na orelha, não dá nada pra ele, que ainda pode te algemar e te prender. Se no meio do caminho você se “machucar” tentando se livrar das algemas ou levar um tiro tentando fugir, a culpa ainda é sua. Você tem testemunha que o policial te bateu dentro da viatura? Não? Olha que acusar sem prova é crime, hein?

      Resquícios da ditadura militar que ainda vemos todos os dias e precisam acabar, e logo, antes que esses mesmos garotos cresćam e aprendam com o tráfico que eles podem lutar, sim, contra esses abusos, armados até os dentes.

      Porque para eles, seus pais, avós, lutar pacificamente não adiantou nada.

      Você deve ser um pouco mais novo que eu, então não deve se lembrar do acordo de transićão entre a sociedade civil e os militares, nos anos 80, então por favor, leia meu comentário “Que foi? Tô pagaaaaaandoooo” e entenderá porque minha preocupaćão com os rolezinhos.

      • Abuso de poder

        “Se um PM te manda ir embora, mesmo que você não esteja fazendo NADA, que o policial não tenha NENHUM motivo pra te mandar sair, ainda assim você tem que sair, porque é o que diz a lei: desacatar (desobedecer) a autoridade constituida é crime e dá cadeia.”

         

        Abuso de poder é crime:

        “LEI Nº 4.898, DE 9 DE DEZEMBRO DE 1965.

        Regula o Direito de Representação e o processo de Responsabilidade Administrativa Civil e Penal, nos casos de abuso de autoridade.

        Art. 1º O direito de representação e o processo de responsabilidade administrativa civil e penal, contra as autoridades que, no exercício de suas funções, cometerem abusos, são regulados pela presente lei.”

         

  5. Eles estão absorvendo como

    Eles estão absorvendo como esponjas as propagações da midia, porque lhes foi negado o conteúdo cultural para refratar essas imposições. De uns anos pra cá, a midia tem imposto, além de objetos de consumo, vários modelos de comportamento e reações: o de cair em prantos, e às vezes até chorar copiozamente ante uma notícia boa, por exemplo, essa seria uma emoção muito rara, tradicionalmente a boa notícia sempre gerou alegria e comemoração, não prantos. A pessoa se sente na obrigação de verter algumas lágrimas, mesmo que forçadas ante uma câmera de TV, e quem assiste copia e perde a reação espontânea para aderir a essas formas que lhes parece a normal. A demonstração ostensiva de afeto, fazendo declarações em público e exibindo faixas, também é uma típica influência da propaganda. É como se as pessoas não soubessem reagir aos fatos com suas própria emoções e tivessem que seguir modelos expostos na TV. A midia obstrui toda formação intelectual e moral do indivíduo e ainda lhe extorque a espontaneidade. Tudo falta de cultura, de arte, de leitura. As gerações mais recentes sofreram uma grande lavagem cerebral, um imenso nada, um vasio no lugar da cultura. O que lhes sobram ? Os símbolos. Eles tentam se expressar com símbolos visuais, que são as marcas famosas, que as celebridades usam. Bom mesmo é a experiência de se exporem investidos de tais símbolos, para chegaremà constatação de que não adianta, que não é por ai. Pode ser doloroso mas não há outro caminho. Se as emoções estão domesticadas, nada como um choque de realidade concreta para avivá-las. 

  6. Que foi? Tô pagaaando!

    Brilhante análise, professora Rosana!

    Quero contar uma história da época das Direta Já, daquelas que acontecem longe dos holofotes, longe da mídia, que interfere diretamente nos rumos de um país e acaba esquecida pela maioria. Até que acontece algo grave, alguém se lembra, já viu….

    É uma honra, para mim, conta-la agora. E não poderia ser em outro lugar senão no Blog do Nassif.

    Pros fascistinhas de plantão, deixa eu lembrar como era a ditadura militar. 

    Não só era proibida a manifestaćão do pensamento, como também a aglomeraćão de pessoas em lugares públicos, por motivo nenhum. E isso muitas vezes era um problema. Duas pessoas conversando na rua era aceitável (não por muito tempo). Três, o policial já olhava torto. Quatro, já vinha pro nosso lado, apontando o cacetete e gritando: “circulando, circulando!”, com a educaćão e a moral típicas da PM. Cinco, era borrachada na certa!

    Reunião em praća pública, nem se fosse da Igreja! O padre tinha que pedir permissão ao delegado para fazer uma quermesse dentro do salão paroquial!

    A situaćão ficou tão insuportável, uma época, que meu pai só podia se reunir com outros agricultores no armazém do Zé Artur, apenas para combinar qual dia o talhão de café seria colhido, ou como seria transportado o gado. E mesmo assim sabíamos que havia agentes da ditadura espionando a conversa. E isso porque a cidade tinha apenas 5 mil habitantes, na época. Os militares continuavam paranóicos, 15 anos depois do golpe, enquanto nós só queríamos tocar a vida.

    Quando a Ditadura finalmente balanćou, nosso primo, que além de prefeito e respeitavel maćon, era muito amigo do Franco Montoro. Lá por 1984, nos contou (naquela época alguns políticos nos representavam de fato) um detalhe sobre o novo “acordo nacional” que vigoraria dali pra frente: os crimes de ambos os lados, cometidos durante a ditadura, seriam anistiados. Mas dali pra frente, qualquer ato de violência cometido, tanto pelo cidadão comum como pelo agente do Estado, seriam tratados como crimes comuns. Não importaria se fosse o juiz, prefeito, governador, sargento ou zé-mané ali da esquina: não haveria mais prisões, tortura, nem abusos de autoridade.

    Haveria uma Assembléia Constituinte dentro de 5 anos, eleita pelo voto direto. Governadores seriam eleitos por voto direto, dali por diante, mas que o próximo presidente ainda seria eleito por voto indireto. O nome ainda não fôra decidido, mas seria uma pessoa relativamente neutra, entre MDB e ARENA, com bom transito tanto entre os militares quanto empresários e fazendeiros e que ainda estivesse apta a dialogar com o FMI.

    E que até lá, a reunião pacífica em local público e o direito a expressar opiniões (sem ataques à honra e à moral alheias) estavam finalmente liberadas. Era um costume de décadas, que havia sido temporariamente suspenso em nome da “seguranća nacional”, mas as pessoas achavam que já não havia risco que justificasse uma situaćão de excessão que perdurasse tanto tempo. E exigiam que o direito a transitar e se reunir na rua lhes fosse devolvido, por bem ou por mal, pois era necessário às tarefas cotidianas.

    Comemoramos, principalmente nós moleques, pois poderíamos brincar na rua sem medo, e falar o que quiséssemos sobre política e contar piadas sobre o cavalo do Figueiredo (último presidente militar), sem apanhar de cinta quando chegássemos em casa. Era isso que nos interessava e talvez por isso minha memória sobre aquela época ainda seja tão viva. Eu era um dos meninos “estudiosos”, então ficava difícil aprender economia sem poder falar com ninguém sobre política. Além disso, como trabalhava duro depois da aula, tinha poucas oportunidades de brincar sem niguém me vigiando.

    Pergunte-se: qual a garantia tínhamos de que a polícia local respeitaria este acordo? Simples: o direito de responder à bala. Isso mesmo. Dali pra frente, a conversa seria em pé de igualdade, ou na bala. Dinheiro para isso, havia. E muito!

    Não estou falando de jovens de periferia, mas senhores na casa dos 40 a 60 anos de idade, muitos franco-maćons, a maioria proprietários rurais, comerciantes e até industriais, já tinham se cansado de não poder se reunir em público para discutir assuntos banais do cotidiano. De ter que pedir permissão ao delegado para conversar com seus funcionarios na rua.

    A tradićão rural também dizia que negócios se faziam na praća da Igreja, na cidade, por ser o melhor ponto de encontro, tanto para os proprietários como para os empregados, rurais e urbanos.

    Estes senhores em todo o Brasil, assim como seus empregados acoados nas vilas e favelas, distantes dos centros urbanos, do movimento sindical, da política e da mídia, mas ainda patrões e trabalhadores, haviam decidido, ao fim da ditadura, impor um ultimatum aos militares: ou o país voltaria à normalidade, ou resolveriam as coisas na bala dali em diante. Se a guerrilha do Araguaia havia fracassado, os militares não teriam contingente nem armas para suportar um movimento armado que envolvesse toda a sociedade civil.

    Pois ninguém mais tinha paciência para ser refém de uma polícia corrupta e truculenta. É importante ressaltar que aqueles senhores não estavam se referindo aos desvios de conduta dos policiais, que ainda existem, mas à Corporaćão como um todo quando, sob comando e ordens do Governo do Estado, atacava cidadãos reunidos pacificamente em praća pública. 

    O problema vai muito além da Antropologia ou do Direito. Quando o Governador aciona a PM para reprimir violentamente uma manifestaćão política pacífica, como a de junho, isto é muito grave. 

    Mas quando convoca a PM para reprimir uma aglomeraćão de garotos num lugar público só porque seus modos incomodam as dondocas que estão passeando no shopping, Alckmin rasga a Constituićão, envergonha a PM e coloca a própria existência do Estado em risco, pois quebra o princípio do contrato social, segundo o qual o Estado não pode violar as Leis que ele mesmo tem a obrigaćão de zelar, a comećar pelo princípio constitucional pétreo: TODOS são iguais perante a lei.

    “Que foi? Tô pagaaaaando…”

    É assim que as meninas de periferia respondem às caras feias da vendedora patricinha no shopping. O que incomoda a patricinha é o fato da menina de periferia usar as mesmas roupas de marca, frequentar os mesmos lugares e…. affff!!!! que ousadia! pagar a vista, em dinheiro!!!

    E quando o governador quebra justamente ESTAS leis, da igualdade perante a Lei e do direito a reunião pacífica em local público, não está mais enfrentando meninos de periferia. Está enfrentando homens com os quais o Estado fez um acordo inviolável, há 30 anos: somos todos iguais ou vamos resolver isso na bala.

    Naquela época, o Exército achou melhor não arriscar e deixar a vida seguir seu curso. Foi uma transićão dura e cheia de falhas, mas necessária e principalmente: não houve enfrentamento armado.

    Mas parece que é isso que nosso querido governador deseja: mais violência e mais militares na rua.

    Porém, espalhados pelo país inteiro, os homens da época e seus filhos ainda se lembram do acordo ao qual me referi, mas também da humilhaćão de não poder falar com seus amigos, patrões e funcionários, sem ter que ouvir as ameaćas de um imbecil fardado: “circulando, circulando!”, com aquela desculpinha amarela “cumprindo ordens”.

  7. A SOCIEDADE ATUAL

    A GRIFE

    Um pano simples da santista, na forma de Jeans, você compra por 50 reais nas lojas de departamentos. O mesmo Jeans, com uma costurinha a mais e uma marca bacana vale 500 reais. O mesmo Jeans anterior, com rachaduras na altura do joelho (que em condições normais seria para tirar fora ou fazer uma bermuda), vale ainda mais caro. Os meninos de hoje querem aquele mais caro. Esse é o problema. Com os 50 reais a fábrica deve pagar centenas de trabalhadores e fornecedores. Já a grife, embolsa 450 reais para poucos “cartolas” do mundo comercial, que vivem numa nuvem entre o mundo real e o mundo virtual. Isso acontece com quase tudo no mundo global de hoje, desde um litro de leite até um jogador de futebol. Até na política, um candidato qualquer pode ser convertido em produto de marketing.

    CAPITAL + TRABALHO = RIQUEZA?

    Antigamente era mais fácil entender o Capital e o Trabalho e, ainda, identificar a geração de riqueza como sendo a soma sinérgica desses fatores. Os principais partidos políticos da era moderna surgiram a partir dessa equação. Hoje a equação do Marx não serve para nada, neste mundo de grifes, marcas, sociedades anônimas e bolsas de valores. Ninguém é dono e ninguém é responsável de nada ou, ao mesmo tempo, responsável de tudo. Se exprimir uma empresa desde o capital de bolsa até o seu valor real, valor somente sobra a “marca” ou alguns poucos ativos. Você trabalha, faz tudo, mas a galera vai comprar por causa da “marca” e, por isso, você paga royalties para a nuvem virtual e dá muito lucro a essa camada intermediária de cartolas que não sua; não aperta um único parafuso; que não se suja e nem joga bola.

    A FELICIDADE

    A felicidade do ser humano é um estado de espírito que resulta da comparação entre o que tem e o que deseja, em plano material, espiritual e até carnal. Desde pequeno o sujeito aprende a mal avaliar assim a felicidade, invejando o tênis de marca do seu coleguinha de sala. O conceito atual de liberdade (relacionado com a “democracia”) é poder ficar à vontade para desejar e comprar um produto de grife, ou para ser infeliz porque não o podes adquirir. Sociedades mais desenvolvidas conseguem sair desta armadilha, e encontram a felicidade num pôr de sol, numa paisagem bonita, numa boa conversa, num golo de água gelada, num abraço fraterno. O PIG, particularmente a Rede Globo, contribui, pela via do exagero de consumo, de mulher pelada, etc., para tornar cada dia mais infeliz ao povo Brasileiro.

    A SOCIEDADE QUE QUEREMOS

    Sem extremos e sem necessariamente tomar partido, veremos que existe então uma gama completa de opções entre um médico que acha pouco ganhar 10 mil reais e trabalhar no interior do Brasil, e outro médico que vêm de terra distante a servir ao seu país e também ao Brasil, embolsando 2 ou 3 mil, e sentindo-se feliz e gratificado com isso.

    Brasil irá mudar (para bem) quando: o jovem compre um Jeans por 50 reais e volte feliz para casa; quando seja mais incentivado o empresário investidor que o mero investidor de bolsa; quando comecemos a valoriza a música boa, o turismo interno no Brasil e a mulher inteligente.

    Brasil deve trabalhar muito para estabelecer um tipo de sociedade mais fraterna, patriota e com a uma lista de valores re-priorizados. A nossa juventude pode voltar a sentir sonhos possíveis e esperanças, desde que o Brasil reposicione os verdadeiros valores na sua sociedade.  

     

  8. O principal problema é a falta de estrutura.

    Deixando de lado a explícita segregação que é o ato de expulsar ou proibir a entrada de qualquer cidadão de um Shopping(que é um local privado mas de uso PÚBLICO), o principal problema é sem dúvidas, a falta de segurança e infraestrutura de qualquer Shooping brasileiro.

    Se os jovens querem se encontrar num shopping para fazer sei lá o que, são livres por constituição para fazê-lo, mas devido ao grande número de adeptos, os lojistas se sentem a mercê de ataques sorrateiros praticados por qualquer um(mesmo que o medo venha dos ditos jovens da periferia, qualquer um pode usar a oportunidade para praticar qualquer crime, aproveitando-se do número de pessoas elevado).

    Imaginemos que qualquer Shopping, seja ele da Zona Norte ou Sul, tenha um sistema de segurança e infraestrutura para garantir a segurança de um grande número de pessoas, lojas e seus respectivos lojistas… O problema acabaria, pois com rolezinho, ou sem rolezinho, nenhum tipo de delito seria temido, pois a população seria ciente de tal segurança, e qualquer meliante ficaria com um pé atrás. 

    É óbvio que muitos dos participantes dos “roles” tem o intuíto certo de praticar delitos, se procurar é fácil achar no Facebook fotos de idiotas exibindos o produto dos roubos, e o pior compradores excitados pedindo o preço nos comentários. Mesmo com a certeza dessa intenção, deter previamente todo um grupo por sua cor, classe social ou por qualquer motivo arbritário que indique que sejam participantes desse movimento, é nada mais que Apartheid velado.

  9. O mais engraçado é ouvir esse

    O mais engraçado é ouvir esse pessoal, seja o muito rico, o pobre ou o remediado, defender a compra dessas coisas caríssimas com base em supostos atributos de “beleza”, “qualidade”, “estilo”… Ora, ora, quem pensam que enganam? É pretensão pura e simples.

    Eu sei é que eu me divirto: você pagou R$500,00 numa calça jeans, hahahahaha! Que chique!!! Pagou R$100,00 num bife, hahahahah?!! Que chique!!!

  10. A ofensiva do capital contra a liberdade de ir e vir…

    Facebook retira do ar convites para ‘rolezinhos’ em SP
    A informação foi repassada por Luís Fernando Veiga, presidente da

    PUBLICADO EM 15/01/14 – 19p5
    Da redação

    O Facebook retirou do ar páginas contendo convites para os “rolezinhos”, em shoppings de São Paulo. Os encontros marcados para este sábado (18) em dois centros de compras da capital paulista já não estão sendo divulgados na rede social.

    A informação foi repassada por Luís Fernando Veiga, presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce). Veiga, no entanto, não soube informar quais centros de compras conseguiram que o Facebook retirasse as páginas do ar, mas afirmou que elas continham ameaças de atitudes criminosas.

    Na tarde desta quarta-feira (15), representantes de 55 shoppings em São Paulo e região metropolitana se reuniram para discutir maneiras de prevenir os “rolezinhos”, mas segundo Veiga, ainda não foi tomada nenhuma decisão.

  11. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome