Fundamental – Um artista que sabe fazer arte e ação política

Fundamental – Um artista que sabe fazer arte e ação política.

Abaixo segue texto primoroso do Pedro Alexandre Sanches sobre o Emicida.

Vida longa!

A luta só está começando, e continuará!

Gustavo Cherubina.

http://farofafa.cartacapital.com.br/2015/06/22/o-silencio-dos-artistas/

 

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O silêncio dos artistas

 
 
 
 

“Nós não veio de branco à toa, certo?”, diz o rapper Emicida, vestido de branco da cabeça aos pés, a exemplo dos integrantes da banda e dos convidados especialíssimos de seu show na Virada Cultural, o mito da bossa nova João Donato e o mito do samba Martinho da Vila. “Nós veio de branco por causa de um tempo em que uma menina de 11 anos toma uma pedrada por ser do candomblé. Nós veio de branco por vagabundo que tá querendo cuidar dos jovem e fala mais de cadeia que de escola, tá ligado?

Emicida, punho cerrado, cabelo ficando black power e discurso de gente grande (foto William Oliveira/coletivo MIRA)

Emicida, punho esquerdo cerrado, cabelo ficando black power e discurso de gente grande (foto William Oliveira/coletivo MIRA)

Era apenas o começo de um fortíssimo discurso cidadão que, sem jamais citar nomes, respingou em políticos profissionais como o presidente peemedebista da Câmara Federal, Eduardo Cunha, e os governadores peessedebistas dos estados de São Paulo, Geraldo Alckmin, e Paraná, Beto Richa. O protesto-provocação prosseguiu, estruturado em rimas e na linguagem-poema original, de identidade, do artista paulistano:

“E aí vira o quê? Os com-diploma versus os consciência. A Fundação é tudo, menos Casa, prum interno. É mó boi odiar o diabo, eu quero ver cê se ver lá no inferno. Não existe amor em SP? Existe pra caralho. Cês acham que as Mães de Maio chora por quê? Tendo que sobreviver ao pai que abusa, ao ferro sob a blusa, às farda que mata nós e nunca fica reclusa, ao Estado que te usa, ao padrão de beleza musa e aos otário que inda quer vim me falar de racismo ao contrário. Tempo doido, tempo doido, a espinha gela, onde as mulher é estuprada e no final a culpa ainda é delas. O problema é seu e da sua dor. Às vez eu me sinto inútil aqui, que eu não valho nada, igual o governo tem tratado os professor. Mas presses bunda mole aí que acha que nós tá dormindo, um aviso: não é porque nós tá sonhando que nós tá dormindo, viu?”.

Ao discurso, seguiu-se o (quase) puro candomblé do rap libertário “Ubuntu Fristaili” (2013), de refrão que todo o público do Palco Júlio Prestes repetiu a plenos pulmões: “Axé pra quem é de axé/ pra chegar bem vilão/ independente da sua fé/ música é nossa religião”.

Manifestantes perguntam na plateia do Palco Júlio Prestes: "77% dos jovens que morrem no Brasil, por armas de fogo, são negros! Isso te importa?" (foto William Oliveira/MIRA)

Manifestantes perguntam na plateia do Palco Júlio Prestes: “77% dos jovens que morrem no Brasil, por armas de fogo, são negros! Isso te importa?” (foto William Oliveira/MIRA)

Se o desagravo não barra a barbárie das propostas ultracapitalistas de redução da maioridade penal e nem a dor da menina apedrejada por ser afro-brasileira, ainda assim o recado foi emitido para milhões de brasileiros, ao vivo e via internet – e para a mãe de EmicidaJacira Roque de Oliveira, que dançava toda majestosa em trajes afro-brasileiros, no asfalto em frente ao palco alto do filho.

Mas por que nem Emicida, o mais audaz e arrojado de nossos artistas atuais em termos de discurso, costuma dar nomes aos bois em suas falas mais políticas?

E por que, no extremo do comportamento de manada medíocre da MPB (que agoniza, mas não morre), o silêncio sepulcral é a regra quase intransponível? Por que nove vírgula nove de cada dez estrelas que colhem dinheiro público para cantar “de graça” na Virada Cultural se calam solenemente em frente a microfones públicos poderiam versar sobre política, direitos humanos, justiça & injustiças, desejos, sonhos, reivindicações, pedidos, declarações de amor?

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Em entrevista recente que irá ao ar nos próximos dias no FAROFAFÁ, a compositora, cantora e deputada estadualLeci Brandão (PCdoB-SP) comentou o caso de uma importante cantora popular brasileira, que por questões contratuais não pode falar de política em entrevista gravada para a rede Jornalistas Livres: “Os artistas independentes estão tranquilos. Eles não estão a fim de seguir essas regras. A primeira coisa que (os contratantes) fazem é fazer você botar roupa da marca tal. se vestir de tal maneira, mudar seu cabelo, ter uma banda com tais e tais músicos, ter backing vocal. Isso é um negócio maluco”.

DSC_2197É um negócio maluco, como diz a nobre Leci, mas é sob essa cama que o discurso de Emicida estronda em meio a um enorme vazio conceitual. Artistas de forte pendor direitista e reacionário, como os roqueiros oitentistas Lobão Roger Moreira do Ultraje a Rigor, recebem farta repercussão na mídia tradicional (apenas) quando vociferam contra governos progressistas ou se integram marchas direitistas. Os demais variam entre o desinteresse completo por parte dos repórteres, a mudez e o cerco armado por assessorias ferozes de (não) comunicação.

Às 10h do domingo, Erasmo Carlos se dirige ao palco na av. São João (foto Pedro Alexandre Sanches)

Às 10h do domingo, Erasmo Carlos se dirige ao palco dos 50 anos de jovem guarda, na av. São João (foto Pedro Alexandre Sanches)

Como exemplo desse último padrão, ao final do show do grande Erasmo Carlos, tento me aproximar dele a pedido do colega Fernando Sato, para tomar um depoimento sobre maioridade penal. Alguém da assessoria me adverte de que se eu tentar serei imediatamente interrompido. Outro, quando mesmo assim chego perto do artista, me ameaça com expressão terrível nos olhos caso eu ouse descumprir as regras que ELES estipularam. Resultado: só consigo ouvir, da boca de Erasmo em pessoa, um breve “leio sempre o que você escreve no Twitter” (e não é que, sim, artistas leem Twitter?!). Talvez eu acredite que meu ídolo é essencialmente bom e seus assessores, maus pela própria natureza hipercapitalista – mas só se eu eu acreditar no maniqueísmo dos contos de fadas e dos filmes de Quentin Tarantino.

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Num panorama global (não uso por acaso a palavra “global”), o que a valorosa exceção Emicida confirma é a regra de que “liberdade de expressão”, “liberdade de imprensa”,  ”liberdade de opinião”, “liberdade artística” & outras ~liberdades~ são bandeiras falsas sempre desfraldadas como pega-trouxas pelas indústrias da informação, da cultura e do entretenimento.

Em geral, quem brada por “liberdade de expressão” em situações de aperto são os mesmos ~agentes culturais~ (e políticos) redatores ocultos das ~cláusulas de contrato~ que proíbem artistas, professoras, manifestantes, cidadãs, jornalistas e transformadoras sociais de se pronunciar em termos políticos, cidadãos, humanitários, poéticos. Nesses nichos, ainda somos a ditadura civil-militar de 1964.

Em tempo: O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013), o mais recente álbum de Emicida, foi lançado independentemente pelo Laboratório Fantasma, selo (e loja) de que ele é dono e presidente.

 
Sobre o autor:

Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de “Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba” (Boitempo, 2000) e “Como Dois e Dois São Cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)” (Boitempo, 2004)

 

 

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