Futebol brasileiro: reflexões de combate

A entrevista da comissão técnica da CBF ontem (08/07/14) na Granja Comari foi lastimável por uma única razão. Estão perdidos. Quiseram apenas justificar a si mesmos e não têm a menor preocupação com o destino do futebol nacional, que vive a partir da última terça-feira o início de um longo e rigoroso inverno. A crise é poderosa e requer uma revolução permanente. Não basta uma troca de treinador ou de jogadores.

A revolução deve ser permanente no futebol brasileiro. Precisa começar logo e de algum lugar. Não se trata de buscar o hexa na próxima copa. Há soluções à vista? Não. Vislumbro um longo inverno enquanto a CBF tiver muito poder em suas mãos. Por isso, lanço alguns argumentos para um combate.

O fato é que a CBF é quem vai decidir o próximo treinador da Seleção Brasileira de Futebol. Basta isso para evitar grandes expectativas. Mudar a comissão técnica não basta se não houver uma reviravolta total na situação do futebol brasileiro. É insuficiente ostentar cinco títulos mundiais quando o nosso futebol passou por um enorme vexame frente à Alemanha. Não foi um acidente de percurso. A atual comissão técnica não tem condições técnicas e morais para mudar tal situação.

É preciso mais que um congresso de técnicos para mudar o atual estado de coisas; é preciso uma mudança política e organizacional profunda. Uma das ideias é criar um conselho nacional do futebol ou do esporte para pressionar as federações. Fazer a mesma coisa que foi feita na justiça com a criação do CNJ em 2004. Esse enfrentamento precisa acontecer para que a CBF seja tirada das mãos dos atuais dirigentes e totalmente reformulada. Limitar recursos e financiamentos públicos é outra tentativa de pressionar a CBF e demais federações. A ação do Ministério público é outra vertente para coibir os abusos das entidades e seus dirigentes. A Polícia Federal precisa ir à fundo nas investigações em curso sobre desvios de recursos nas entidades esportivas e formações de esquemas mafiosos privados. Não podemos nos esquecer que as Olimpíadas do Rio vão exigir atenção redobrada das autoridades.

Outra coisa é a comissão técnica da seleção de futebol. Quem vai substituir Felipão, Parreira e cia?

Leia também:  GGN Covid Mundo: a tragédia da Alemanha

O nome de Tite amadurece, mas existem outros. Cuca é um bom nome, só não o vejo como treinador da Seleção ainda por um motivo, digamos, emotivo.

Parto de uma necessidade vital: o meio de campo.

O técnico mais adequado para a Seleção hoje deve trabalhar para reconstruir o meio de campo do time. Desde 1990 temos um problema sério nesse setor. Os 7 a 1 contra os alemães foi o limite do desastre de uma opção feita lá atrás pelo futebol de resultado, após o fim da geração de Sócrates, Zico e Falcão.

Evito o discurso do que é moderno ou não em relação ao futebol. Até porque a solução é voltar a fazer o que fazíamos de melhor no meio de campo. A Seleção de 1970 já era moderna. O que mudou foi a velocidade do jogo e o uso maior da força.

Há que considerar fatores externos e a consolidação de poderosa economia esportiva mundial, seus mundo lícito e ilícito de transações. É difícil abrir mão ou amenizar essas coisas, sem separar as coisas para melhor administrá-las e sem ter uma nova filosofia em mente. Falemos de filosofias.

A filosofia de Tite resolve num aspecto: a formação de um time mais coeso. Todavia, não corrigirá a maior deficiência/carência: o meio de campo. Ele é muito conservador nesse setor. Não é um defeito dele, mas um estilo.

A filosofia de Marcelo de Oliveira, do Cruzeiro, é a mais adequada hoje. Ele deve ter um auxiliar para as categorias de base como Cristóvão Borges, que faria a renovação. São excelentes profissionais, intelectualmente honestos e gostam de trabalhar no campo e bola. Têm o perfil ideal e disposição para mudar. Sei que jamais serão escolhidos pela CBF. Refiro-me à filosofia.

Leia também:  Trump racha republicanos, mas seu populismo segue fortalecido

A filosofia de Guardiola não tem como funcionar na Seleção Brasileira sem mudanças estruturais. O fato de acreditarmos que ele teria carta-branca da CBF acaba justificando a sua contratação a peso de ouro, mas não é realista. A CBF vai continuar gerenciando seu negócio e não o futebol nacional. Estamos discutindo algo mais amplo. Guardiola poderia fazer parte disso, mas prefiro ter mais treinadores estrangeiros nos times brasileiros que um supertécnico na Seleção. Isso é mais importante hoje.

A revolução não é Guardiola, é nossa. Ficar achando que tem de buscar a mudança lá fora é também uma espécie de complexo de inferioridade. Achar que um supertécnico fará um supertime é outra grande ilusão. É o mesmo que dizer que o problema está localizados nos defeitos (má formação, falta de atualização ect.) dos nossos técnicos, quando o problema é a escolha pela CBF da mesma turma para comandar os destinos do futebol nacional e da Seleção. Há um patronato no nosso futebol que precisa continuar a ser combatido incisiva e insistentemente.

Além do mais, há uma enorme resistência entre técnicos brasileiros à contratação de um técnico estrangeiro. Os técnicos brasileiros, assim como os técnicos argentinos, são corporativistas. Isso não significa que estão errados a priori. Continuar achando que damos conta do recado é uma atitude importante, ainda que dependa de iniciativa própria e ter a dignidade de admitir que não dá mais, é preciso fazer algo.

Os jogadores já organizaram o Bom Senso. Os técnicos também devem agir proativamente pelo bem do futebol nacional. Salvo engano, só Muricy Ramalho teve peito para dizer não à CBF. A tendência é que os técnicos brasileiros se acomodem novamente com a escolha que for feita. Isso reflete a falta de concorrência com técnicos estrangeiros nos clubes, o que garante aos brasileiros um mercado cativo, altos salários e prestígio. O comodismo é grande, com poucas exceções.

Leia também:  Pandemia acelera fuga de cérebros do Brasil

Tenho minha própria ilusão. O convidado a ser o novo técnico da Seleção tem a obrigação moral de dizer não à CBF e propor um grande debate nacional sobre o nosso futebol. Nós também podemos nos acomodar achando que o técnico estrangeiro nos devolverá o lugar que perdemos no futebol. Precisamos de novas atitudes e novas utopias.

Mais que estas escassas reflexões, dar continuidade ao combate é que importa.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

1 comentário

  1. Reformulação do futebol brasileiro

    Excelente post….

    Expôs o que realmente o que está acontecendo ao nosso redor, unico ponto que discordo é que você comentou que “o problema é a escolha pela CBF da mesma turma para comandar os destinos do futebol nacional e da Seleção.” Quando na verdade eu acredito que o buraco é mais fundo do que todos nós imaginamos.

    Venho lendo alguns blogs e percebo que está bem claro que o que foi retratado na Copa é que não é a seleção brasileira que está fraca mas sim o futebol brasileiro que está.

    Quase ninguém questionou os jogadores selecionados, ou seja, eram realmente os melhores que tinhamos.

    Uma má escalação faz você perder mas não ser humilhado.

     

    Poucos souberam dar a solução para este problema.

    Porém notei o que faz com que a NBA seja o melhor campeonato de basquete do mundo e a NFL o melhor campeonato de futebol americano do mundo, e acredito que a solução esteja aí.

    Cabe ao Brasil reformular o campeonato nacional aos padrões dos campeonatos citados.

    Se eu tivesse a capacidade de realizar esta reformulação como eu faria:

     – Criaria novas equipes, 12 para ser mais exato;

     – As equipes seriam distribuídas nas 12 cidades que foram sede da Copa do Mundo de 2014.
    * Isso faria com que dois pontos cruciais fossem resolvidos, os estádios não se tornariam “elefantes brancos” e o público nos estádios aumentaria (afinal o representante do Rio de Janeiro, por exemplo, teria o apoio das torcidadas do Flamengo, Botafogo, Vasco e Fluminense).

    – Os melhores jogadores brasileiros seriam igualmente divididos nestas equipes, tornando o campeonato campetitivo e imprevisível.
    * Qualquer esporte disputado nestas condições forçam os jogadores a serem inovadores e os técnicos a estudarem cada vez mais para acharem táticas que consigam desequilibrar as partidas.

    – Final única com campo neutro escolhido antes do início do campeonato.
    * O local escolhido antecipadamente faria com que a cidade se preparasse para receber a final com bastante tempo de antecedência. No caso do Super Bowl, final da NFL, a cidade praticamente para na semana da final com atividades e atrativos por toda a cidade e fazendo inclusive com a partida seja apenas a cereja do bolo.

    Os talentos estão espalhados por todo o Brasil mas caso uma reformulação demore a ser feita não poderá ser dito o mesmo em um futuro próximo.

     

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome