Gastos com térmicas podem provocar inadimplência no setor

A manutenção das termoelétricas no sistema nacional para preservar o nível dos reservatórios e garantir a segurança de abastecimento do País poderá criar um problema de inadimplência no setor. Com cerca de 12 mil megawatts (MW) em operação desde outubro, o custo dessas usinas já beira os R$ 2 bilhões, segundo estimativas da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee).

 

O presidente da entidade, Nelson Fonseca, explica que esse montante acaba saindo do caixa das distribuidoras, que pagam a conta à vista e só repassam para os consumidores na data do reajuste de cada empresa. “As concessionárias desembolsam o valor no ato e recebem em 12 parcelas mensais. Isso cria um hiato grave para as empresas”, diz o executivo, lembrando que algumas distribuidoras estão pagando os custos agora e só terão reajuste em outubro e novembro.

 

Pelas contas de Fonseca, os gastos com as termoelétricas representam cerca de 50% do Ebtida (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) das distribuidoras. “É uma situação que nos preocupa por causa do risco de inadimplência.” Para o executivo, na atual circunstância e com os reservatórios em queda, o País não pode abrir mão da energia térmica. “Por isso, temos de encontrar uma solução, um acordo geral para evitar uma inadimplência setorial.”

 

Fontes da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) afirmam que o assunto já começou a ser discutido e poderá entrar na pauta das reuniões de diretoria. Uma ideia seria criar um mecanismo que permita o repasse mensal dos gastos para a tarifa do consumidor. Hoje os valores são acumulados e transferidos para a conta de luz de uma única vez – a cada mês de geração térmica, o impacto na tarifa é de 1%. O que pode reduzir esse porcentual é a retirada de alguns contratos do Grupo Bertin, de usinas que não ficaram prontas dentro do cronograma.

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Petrobrás. O acionamento das térmicas também tem afetado a Petrobrás. A companhia precisa comprar no mercado superaquecido gás natural liquefeito (GNL) para abastecer as usinas termoelétricas. No cálculo da consultoria Gas Energy, o prejuízo é de cerca de R$ 240 milhões por mês. Somado ao prejuízo da companhia com a importação de diesel e gasolina, a Petrobrás tem perdido US$ 1,12 bilhão por mês com a importação de combustíveis a preços mais altos do que os de revenda.

 

A estatal refuta o cálculo da consultoria sobre o gás, mas não revela quanto perde. A companhia diz que o negócio das térmicas flexíveis precisa ser avaliado num “horizonte de tempo compatível com a duração dos contratos, de 15 a 20 anos”, diz a empresa, em nota.

 

O desconto no GNL ocorre porque a Petrobrás fechou, em 2006, 2007 e 2008, por exemplo, contratos flexíveis para entrega de gás às termoelétricas a preços predeterminados. A companhia fica com o risco de arcar com possíveis altas de preço no mercado spot (livre) de GNL, em momentos em que o setor está em alta no mundo, como agora.

 

O presidente da Gas Energy, Marco Tavares, critica o modelo assumido pela estatal, em que a companhia compra no mercado spot e vende no modelo flexível. “O problema está no modelo, uma empresa privada não assumir esse risco, pois pode não ser financiável. Não tem como prever, não tem como se proteger.” Mercado à vista. A queda no nível dos reservatórios pode criar outra situação difícil para o País. Com menos água nos lagos, o preço do mercado spot subiu para R$ 554 o MWh e tem potencial para atingir o limite de R$ 780. Nesse patamar, pode ficar mais lucrativo para algumas empresas vender energia do que fabricar seus produtos – o que reduz o crescimento da economia. Essa estratégia já foi adotada por algumas companhias em 2001 e 2008. 

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