Gestão de resíduo deve priorizar retorno social

Há cerca de 16 anos, a necessidade de aumentar a renda de casa, levou mãe e filha a catarem papel e papelão na beira da estrada que passa pelo bairro Sertão Imuraí, no município de São José, região metropolitana de Florianópolis, Santa Catarina.

Com o tempo, a iniciativa foi atraindo trabalhadores e trabalhadoras, que se organizaram formando a Associação Aparecida de Reciclagem de Lixo (ACARELI), hoje com 40 associados – sendo 36 mulheres.

O empreendedorismo social que promove o máximo retorno social, ao invés do lucro, é processo eficiente na redução de resíduos e inclusão socioeconômica, concluem autores de trabalho feito para o programa de Pós-Graduação em Administração e Turismo, da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), sobre a ACARELI.

Os catadores contribuem para a gestão de resíduos sólidos nos centros urbanos, logo, a melhoria da qualidade de vida e de serviço desses trabalhadores é estratégia num processo onde se pretende otimizar a reciclagem e eficiência da recuperação de materiais.

Em entrevista, a fundadora da associação, Aparecida Maria da Silva, explica que a renda diária por trabalhador, está entre 15 e 20 reais – as atividades de catação costumam ser realizadas em 5 dias da semana. Logo, o valor mensal médio retirado pelo catador é entre 300 e 400 reais.

No levantamento realizado pelos estudantes da UNIVALI, em 2007, 67% dos trabalhadores apresentaram renda entre 300 e 500 reais mensais. Aparecida da Silva explica que a baixa dos preços dos metais, sobretudo no final de 2008 e meados de 2009, fez com que o rendimento financeiro caísse consideravelmente.

“Chegamos a uma renda diária de 10 a 13 reais por dia. Para ter idéia, antes dessa crise [financeira mundial] arrecadávamos por dia entre 22 e 30 reais”, completa.

A catadora conta que o quilo do cobre, antes da crise desencadeada em 2008, chegou a custar 14 reais. Hoje é vendido a 9 reais. O metal, em 2007, era vendido a 7 reais o quilo. Atualmente as empresas compram dos catadores por 4,50 reais. Já o alumínio, hoje comercializado por 2 reais o quilo, era comprado por mais de 3 reais.

De 90% dos associados da ACARELI, que aceitaram responder ao questionário utilizado no estudo, 31% nunca trabalharam com carteira assinada; 58% nunca estudaram ou estudaram até a quarta série; e 28% não possuem nenhum tipo de documento de identificação. Os pesquisadores ressaltam que a atividade é um elo que uni três problemas centrais: geração de renda aos mais pobres, diminuindo a desigualdade social; controle e redução do volume de resíduos sólidos; e minimização dos impactos ambientais.

Atualmente a organização conta com 40 associados, sendo a grande maioria mulheres. No ano de 2007, o grupo chegou a associar 60 pessoas. Segundo Aparecida, a baixa ocorreu, sobretudo, pela queda do preço dos materiais reciclados e porque os mais jovens foram incentivados e buscar oportunidade nos outros mercados de trabalho.

Uso de tecnologia da informação

A associação não tem nenhuma forma de gerenciamento financeiro, nem de atividades administrativas e comerciais. Mas utiliza um software para gerenciar o fluxo de caixa e, assim, organizar o pagamento dos associados, receita, gastos, horas de trabalho e cadastro de pessoal.

“Observou-se que, por meio da implementação de novas tecnologias, a dinâmica das atividades da associação pode ser melhorada e atualizada, assim como a introdução de técnicas de melhoramento dos materiais coletados que agregam valor ao produto final, garantindo um melhor retorno financeiro”, destacam os pesquisadores.

Aparecida conta que o software foi implantado em 2007, graças a um projeto financiado pelo CNPq, e realizado pela UNIVALI. E concorda que o sistema ajudou no controle do material que entra e sai do galpão.

Atividade sensível às alterações de mercado

A Região Metropolitana de Florianópolis compreende mais três municípios (Palhoça, Biguaçu, e São José) que juntos produzem uma média de 710 toneladas/dia de lixo, segundo Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), realizada em 2000.

Os autores do estudo ressaltam que a reciclagem não deve ser vista como única solução para o lixo. “Ela é tão-somente uma atividade econômica que deve ser encarada como um elemento dentro de um conjunto de soluções ambientais”, completam.

A ideia é que a separação de materiais pode ajudar na oferta de insumos recicláveis, sendo dependente da demanda do mercado. A crise financeira mundial resultou em queda de 50% dos preços médios das commodities metálicas, dentre elas o alumínio, segundo Relatório de Conjuntura, do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (GESEL), publicado em maio de 2009.

Como nasceu a associação

A ACARELI foi fundada em 2001, com base num grupo que se uniu 7 anos antes, conta Aparecida. “Na verdade começou quando minha filha tinha uns 14 anos e queria entrar para os Desbravadores [espécie de escoteiros da Igreja Adventista], mas não tínhamos dinheiro para comprar o uniforme. Então ela começou, por conta própria, a catar papel na beira da estrada. E comecei a ajudar também. Foi então que vi que dava algum lucro. Até que em determinado momento isso atraiu mais gente”, lembra.

No começo, as mulheres usavam bolsas e sacolas para recolher o papelão e as latinhas de alumínio da rua. Depois as catadoras passaram a carregar os recicláveis num carrinho de mão, até conseguirem os carrinhos comumente utilizados na coleta.

Hoje o grupo possui uma balança com capacidade para pesar até 150 quilos, uma prensa e um computador. O maior problema da ACARELI é de infra-estrutura. O terreno é dividido em dois espaços sendo um menor, coberto, e outro maior, a céu aberto, com chão de terra, onde muitos materiais ficam expostos às condições do tempo.

Mesmo assim, para Aparecida, a tendência é que a associação supere a questão estrutural. Em fevereiro deste ano, o grupo assinou um contrato de parceria com o Instituto Vonpar, que doou 30 mil reais para melhorias no galpão e compra de equipamentos.

Para acessar o estudo na íntegra, clique aqui.

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