Grupo propõe solução definitiva para lixo urbano

Solução definitiva do lixo pode ser possível. Grupo formado por engenheiros, químicos e médicos desenvolve projeto de Parque Industrial do Lixo, proposta que centraliza a reciclagem, disposição adequada e tratamento térmico, ou seja, produção de energia a partir da incineração do material descartado.

As atividades dentro do Parque são compostas de áreas de triagem para não-recicláveis (enviados diretamente para a usina de tratamento térmico), e recicláveis. Esses últimos, serão preparados para retornar a cadeia produtiva (pneus, eletrônicos, vidros, metais, plásticos, papel e madeira).

Os óleos residuais de fritura, por exemplo, podem ser tratados e transformados em biodiesel. Enquanto que parte do PVC (tipo de plástico), que perde a qualidade de ser reciclado, e os resíduos de serviços de saúde, encaminhados para tratamento térmico com geração de energia elétrica.

O projeto foi desenvolvido pela organização Doutores do Meio Ambiente (DDMA). O engenheiro mecânico e doutor em combustão, Daniel Sindicic, um dos autores do plano, destaca que o aproveitamento do lixo orgânico para a compostagem está dentro das propostas para os parques, entretanto isso dependerá das características do lixo de cada região.

“Entendemos, por um lado, que é difícil pensar a compostagem em uma grande cidade por demandar muito espaço, necessário para depositar e revolver o material diariamente até que se torne adubo”, explica. “Imagine como exemplo, se pegarmos a cidade de São Paulo. A capital gera cerca de 15 mil toneladas de lixo por dia, sendo 50% compostas de orgânicos. Logo são 7,5 mil toneladas que diariamente teriam que ser depositadas em espaços abertos e revolvidos diariamente”, completa.

Nesse caso, o especialista recomenda encaminhar o lixo orgânico para o tratamento térmico aumentando a matéria prima para produção energética.

O sistema recebeu o nome de “Plano Estratégico de Gerenciamento Ambiental Sustentável” (PEGASUS) e sua implementação é resumida nas fases: levantamento e diagnóstico da situação atual dos resíduos sólidos urbanos (RSU) no município; avaliação das alternativas para o parque; e implantação.

Municípios do litoral norte do estado de São Paulo já estudam a implantação do Parque. Um deles é São Sebastião. A secretária de Meio Ambiente da cidade, Waltraud Rennert, explica que a prefeitura se juntou a outros municípios da região para viabilizar o projeto.

“Em São Sebastião, temos um problema muito grande de lençol de água aflorante. Isso inviabiliza a implantação de aterros em boa parte da ilha, pois impacta diretamente na contaminação das águas subterrâneas”, conta.

Atualmente, São Sebastião, Catanduva, Ubatuba e Ilha Bela dividem os custos de transporte e manutenção do Aterro Anaconda, localizado na cidade de Santa Izabel. “Estamos ainda em fase de estudos para entender quais são as características do lixo produzido em São Sebastião. E acredito que o mesmo está sendo feito nas demais cidades”, destaca a secretária, adiantando que a principal atividade do Parque será o tratamento térmico.

Incineradores podem apresentar perigo

A engenheira química, e consultora técnica nas áreas de Saúde e Meio Ambiente para os Ministérios Público Federal e Estadual do Mato Grosso do Sul, Sonia Hess, defende que a incineração deve ser a última alternativa de gerenciamento de lixo no país.

A pesquisadora avalia que o encaminhamento compulsório de resíduos a usinas de incineração é um risco dada a diversidade de materiais que compõe o lixo. “É possível determinar o tipo a composição química de um material conhecido e estudado previamente. Mas impossível controlar a composição do lixo urbano”, completa.

A incineração de certos resíduos, e emissão de seus gases para o meio, podem ser altamente prejudiciais a saúde humana. O queima do PVC, por exemplo, a temperaturas inferiores a 850 graus Celsius resulta na formação de substâncias tóxicas (chamadas de dioxinas e furanos), responsáveis pela formação de cânceres, má-formação congênitas, infertilidade, problemas sexuais, entre outros.

O tratamento térmico também pode resultar na liberação de gases contendo cloro e metais pesados perigosos. Um exemplo é o cádmio, que compõe parte das tintas automotivas e pigmentos coloridos utilizados em plásticos e papéis. O chumbo também está presente em tintas de sinalização e impressão, plásticos, pesticidas, vidros e cerâmicas. Enquanto que o mercúrio é encontrado em lâmpadas fluorescentes, pilhas e baterias.

Esses dados mostram que o envio de resíduos a usinas de incineração para produção energética não deve ser visto como um processo simples. A resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), nº 316, de 29 de outubro de 2002, determina que o tratamento térmico deve ser operado em temperaturas acima de 800 graus Celsius.

Recomenda ainda que “a adoção de sistemas de tratamento térmico de resíduos deverá ser precedida de um estudo de análise de alternativas tecnológicas que comprove que a escolha da tecnologia adotada está de acordo com o conceito de melhor técnica disponível” (Artigo 4º).

“O PVC pode gerar dioxina, mas não em volume que o sistema de gases hoje não consiga reter sua emissão para a atmosfera. Os valores de emissão de dioxina em equipamentos permitidos por legislação são os mais restritivos”, aponta Daniel Sindicic.

O engenheiro afirma, ainda, que as atuais tecnologias de incineração/tratamento térmico são seguras. E que a média térmica das usinas idealizadas no projeto da DDMA é de 900 graus Celsius.

Em contrapartida, a pesquisadora Sonia Hess coloca que o custo de implantação de incineradores e sua manutenção ainda é alto para os municípios brasileiros que, ainda, contam com déficit de pessoal treinado para gestão de usinas de tratamento térmico, tornando difícil o controle técnico adequado e constante de incineradores em âmbito nacional.

Já Sindicic entende que o país tem quadro técnico e infra-estrutura necessários para garantir a vistoria e funcionamento de usinas térmicas, mas que a partir do crescimento desse mercado a demanda exigirá a formação de mais recursos humanos.

Para Hess, a proposta mais adequada para solucionar a gestão de resíduos urbanos é promover a compostagem. Dados levantados pela pesquisadora estimam que cerca de 60% do lixo urbano é orgânico. “O Brasil é um grande importador de adubo. Por que incinerar tudo isso e não aproveitar para transformar em adubo para agricultura?”, coloca.

A docente propõe que os grandes produtores de resíduos orgânicos, isto é, supermercados, feiras e companhias de abastecimento de alimentos, separem seus resíduos previamente.

Catadores são contra incineração

Em dezembro de 2009, o Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) anunciou o repúdio a incineração, entendendo que a implantação de usinas de tratamento térmico do lixo, poderá resultar na diminuição da fonte de renda da classe.

As chances de resíduos recicláveis serem queimados sem qualquer tratamento prévio serão maiores, na visão do porta-voz do movimento, Roberto Laureano. O grupo aponta que em seminário “Reciclagem Energética”, promovido no dia 2 dezembro do ano passado, os defensores do processo admitiram que a transformação de resíduos em energia é um processo caro, em torno de 13 mil reais o quilowatt.

“Achamos que antes de haver o incentivo de usinas termelétricas é preciso incentivar a melhoria de cooperativas que promovem o emprego de milhares de trabalhadores”, completa Laureano.

O grupo DDMA defende que a reciclagem deve ter origem nas residências e não após a coleta

do caminhão de lixo, onde materiais recuperáveis e orgânicos acabam sendo misturados. “Quando isso acontece, o processo de separação de materiais acaba se tornando insalubre para o ser humano” considera Sindicic.

Roberto Laureano também concorda que falta conscientização de pessoas no sentido de contribuir para separação o lixo de resíduos, que podem voltar a ser insumos na indústria como um todo. O envolvimento de todos os setores da sociedade – poder público, iniciativa privada e população – será fundamental para tornar verdadeira a implementação de soluções definitivas do lixo urbano.

Produção diária de lixo

O Brasil gera diariamente mais de 140 mil toneladas de lixo domiciliar. Os dados, de 2009, são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que aponta, ainda, para o desafio que país tem para armazenar todo esse montante de resíduos de modo ambientalmente adequado. Estima-se que mais de 50% dos municípios brasileiros depositem seus lixos em aterros controlados ou em lixões.

Apenas 39% das cidades brasileiras possuem aterros sanitários, locais que devem causar o mínimo de impacto ambiental possível, por isso são espaços para a disposição de resíduos com infra-estrutura que obedece a critérios técnicos de proteção ao meio ambiente. Já os lixões, são locais para a disposição dos resíduos sólidos com pouco ou nenhum critério ambiental. E os aterros controlados, são também espaços inadequados para a disposição de resíduos, mas que possuem algum controle.

O problema dos aterros sanitários é que possuem um determinado tempo de vida útil que depende, basicamente, da área total do terreno vezes o total de lixo que recebem diariamente. A estimativa nacional é de 20 anos. Depois de lacrado, o espaço do aterro pode levar até 40 anos para se tornar seguro à saúde humana.

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