Guerra nas Estrelas: Rússia x EUA

Um Falso Problema Merece Uma Falsa Solução?

VoaNews/RussiaWatch
Antigamente os jornalistas mantinham o monopólio da falta de delicadeza na fala quando o assunto era as relações EUA-Rússia.

Como não somos diplomatas, não precisamos ser diplomáticos.
De repente, nesta semana o assunto antimíssil ganhou destaque na polêmica relação entre Washington e Moscou.

Na segunda-feira, um microfone aberto em Seul flagrou o presidente dos EUA, Barack Obama pedindo ao presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, para mais “espaço” (tempo) na defesa de mísseis. O líder americano disse que teria mais “flexibilidade” após a eleição de 06 de novembro nos EUA.
Em resposta, Mitt Romney, o principal pré-candidato republicano, disse à CNN que a Rússia é o “inimigo número um” da América. O Presidente Medvedev respondeu que a frase “tem cheiro de Hollywood.” Ele sugeriu ao candidato americano para “verificar o seu relógio”, e ver que “estamos em 2012, não em meados dos anos 1970″.

No dia seguinte, Romney disparou de volta no site da revista Foreign Policy, com um artigo intitulado: “Curvando-se ao Kremlin”. Romney acusou o presidente Obama de ser “flexível” na defesa de mísseis. Ele resumiu a política da Administração Obama como: “Nós damos, a Rússia recebe”.
No meio de tudo isso, Rose Gottemoeller, a oficial superior do controle de armas no Departamento de Estado, desembarcou em Moscou na quarta-feira. Ela disse ao jornal Kommersant que podemos encontrar uma solução mutuamente aceitável sobre a defesa antimíssil.

Tal solução, muito provavelmente, não será encontrada durante a temporada da campanha presidencial americana, um espaço de tempo chamado de “a época das aberrações” pelas reivindicações e acusações cometidas pelos candidatos.
Enquanto os políticos tentam marcar pontos, aqui estão algumas coisas que eles não dirão sobre o plano de Washington em construir um piquete antimíssil, para abater um ou dois mísseis vindos do Irã.

Primeiro – os europeus orientais em geral, adoram defesa antimíssil – não porque eles temem um míssil iraniano, mas porque isso coloca um detonador (tripwire) humano do campo minado americano entre eles e a Rússia. A Coreia do Sul se desenvolveu por quase 60 anos, em parte por causa dos milhares de soldados americanos estacionados entre Seul e a DMZ (área desmilitarizada entre as duas Coreias, com 4 km de largura).

Na Coreia do Norte, as três gerações da dinastia Kim sempre souberam que indo além das ameaças de transformar Seul em um “mar de fogo”, as vítimas americanas resultante enfurecerão o público americano que forçarão Washington a intervir. Toda pessoa na Coreia do Sul sabe desta realpolitik. Nos EUA, poucos sabem.
Gerações de recrutadores do exército dos EUA vêm seduzindo os jovens com 18 anos de idade para o serviço militar com slogans como “Veja o Mundo!” Eles não seduzem com o slogan “Seja um Tripwire Humano!”.
Muitos europeus orientais que conhecem a sua história gostariam de ver botas americanas em seu solo, mesmo que seja apenas para uma estação de radar ou uma linha piquete contra mísseis.
Segundo – afora o fato de não ser bom de ouvido, eu nunca ouvi alguma chamada da Europa Ocidental para sua defesa contra mísseis iranianos.
A minha audição foi prejudicada quando, ainda adolescente, eu participei das marchas em massa na França contra a Guerra do Vietnã. Quando 100.000 franceses marcharam pelas ruas estreitas da cidade universitária, fazendo um barulho enorme.

Em contraste, hoje eu ouço apenas fracas vozes da Europa Ocidental falando pela defesa antimíssil: de conservadores formadores de opinião e de Anders Fogh Rasmussen, o ex primeiro ministro dinamarquês. Agora secretário geral da OTAN, ele depende das boas relações com o Pentágono para a sua segurança no emprego. Na segunda-feira, em um vídeo enviado pela sede da NATO em Bruxelas, ele disse a Moscou: “O escudo antimíssil não é dirigido contra a Rússia, nem projetado para atacar a Rússia ou prejudicar o que a Rússia chama de sua dissuasão estratégica”.
Respondendo à ameaça do Presidente Medvedev de implantar mísseis com ponta nuclear em Kaliningrado, território mais ocidental da Rússia, ele acrescentou: “Seria um completo desperdício de dinheiro implantar armas ofensivas contra um inimigo artificial – um inimigo que não existe no mundo real”.

Do lado russo, o presidente Medevedev disse em uma conferência sobre segurança euro-atlântico aqui em Moscou na semana passada: “Para ser honesto, durante as conversas em off, muitos dos líderes europeus me sussurraram que realmente não precisam disso, mas eles têm obrigações, devido a solidariedade atlântica”.
De um lado, temos o velho jogo de Moscou tentando separar a Europa de Washington. Mas, do outro lado, ainda preciso ouvir – ou ver – os europeus ocidentais marchando nas ruas, exigindo a defesa contra mísseis.

O terceiro ponto aqui é que a Rússia teme a defesa antimíssil, porque quer preservar o status quo nuclear herdado da União Soviética – Destruição Mútua Assegurada, ou MAD.
A Rússia acredita que se a defesa antimíssil for permitida como um pacote fechado, eventualmente um pequeno programa piloto pode crescer, e se transformar em um monstro, que anulará o temido arsenal nuclear da Rússia.

A liderança da Rússia não quer repetir a custosa corrida armamentista que na década de 1970 e 1980 ajudou a levar a União Soviética à falência. De acordo com um estudo do Banco Mundial sobre a economia da Rússia divulgado terça-feira, os preços do petróleo tem que se manter acima de US $ 115/barril para equilibrar o orçamento governamental da Rússia. Isso é quatro vezes o valor de 30 dólares que equilibrava o orçamento de cinco anos atrás.
Outra insegurança da Rússia refere-se ao seu temor de não conseguir manter o nível de sua ciência. Devido à corrupção e fuga de cérebros científicos houve prejuízo na qualidade das universidades russas, nenhuma instituição russa classificou-se entre as 100 melhores universidades do mundo em uma pesquisa mundial da semana passada.
As quase 3.000 ogivas nucleares ainda ativas garantem ao Kremlin um assento na mesa das grandes potências. Se um sistema de defesa antimíssil neutralizar definitivamente essa ameaça, a Rússia se transformará em um Canadá mal administrado, um simples fornecedor de matérias-primas para a Europa e China.

Para evitar esse triste destino, embora distante, o presidente Medvedev disse na reunião de segurança, que aconteceu por aqui, em Moscou, na semana passada: “É imperativo ouvir uma única coisa – ouvir e receber a confirmação: ‘Respeitados amigos russos, a nossa defesa contra mísseis não é dirigida contra as forças nucleares russas’. Isso deve ser afirmado, não em uma conversa amigável tomando uma xícara de chá ou um copo de vinho, mas em um documento”.
Porém, do lado americano, isso nunca irá acontecer. O último presidente republicano, George W. Bush retirou os EUA do Tratado dos Mísseis Antibalísticos em 2002. E ele retirou seu país justamente para permitir que cientistas norte-americanos trabalhassem em um programa de defesa antimísseis para proteger os EUA e seus aliados contra mísseis nucleares da Coréia do Norte ou do Irã.

No ano passado, o Senado dos EUA proibiu expressamente o compartilhamento com a Rússia de dados confidenciais relacionados à defesa antimíssil. Na terça-feira, 43 dos 47 senadores republicanos em Washington assinaram uma carta ao presidente Obama opondo-se a qualquer tentativa de limitar as capacidades de defesa antimíssil dos Estados Unidos.
Para muitos conservadores americanos, seria uma irresponsabilidade da liderança dos Estados Unidos, por não investir em uma tecnologia, que poderia salvar milhões de vidas. Os republicanos acusam os democratas de zombarem da defesa antimíssil chamando-a de “tecnologia guerra nas estrelas” e por manterem vivo o programa, somente para servir de moeda de troca em um acordo com a Rússia.

Talvez alarmado pelo aumento da oposição republicana nesta semana, Sergei Koshelev, o chefe de coordenação da Rússia para assuntos da OTAN, convidou Rasmussen na quarta-feira para uma reunião sobre mísseis no próximo 03 de maio em Moscou. Referindo-se aos 28 membros da OTAN, ele calmamente disse à Interfax: “Nós diremos a eles: ‘. Façam tudo o que acharem necessário, mas nada em detrimento da segurança da Rússia”.

Até o final da eleição presidencial dos EUA, espera-se que os negociadores russos e americanos fiquem brincando com o Cubo Mágico da defesa antimíssil atrás de portas fechadas.
Talvez a melhor solução veio nesta sexta-feira de Dmitry Rogozin, vice-primeiro-ministro da Rússia.

Primeiro, ele participou da conferência de segurança euro-atlântico, onde ele denunciou o sistema de defesa antimíssil anti-Irã de Washington, dizendo: “O sistema que está sendo desenvolvido é destinado a interceptar mísseis intercontinentais pesados que decolem do território russo”.

Em seguida, ele dirigiu 45 quilômetros em direção ao norte até o Instituto de Tecnologia Térmica de Moscou. Lá, ele foi fotografado com os desenvolvedores dos sistemas de mísseis estratégicos Bulava, Yars e Topol-M da Rússia.
Falando aos jornalistas, disse que os russos podem permanecer calmos.
“Os avançados sistemas de mísseis russos que estão sendo desenvolvidos atualmente garantem a capacidade de superar todos os escudos de defesa antimíssil existentes e futuros”, disse Rogozin.
Portanto, esta pode ser a saída honrosa.
Depois de criar um falso problema, o Kremlin quer agora criar uma falsa solução.

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