Eleve a dor pelo amor, por Lg Razz

Por Lg Razz

Acontece que naquela noite havia algo de pesado no ar, levemente tenebroso. Uma audiência sádica se convidou para te assistir sofrer, sim. É um daqueles pressentimentos de que você está num filme, de que um câmera-man invisível está a te enquadrar na cena do momento, um momento que se alonga a cada passo que você dá e a cada recinto que você atravessa. Terror é o gênero desse filme, e esse começa assim:

Uma sensação de leveza. Levitação. Leve como uma pena.

É assim que você acorda.

Seu quarto exíguo o dá a sensação de estar despertando num caixão, como um vampiro desperto de um sonho para viver outro sonho.

A única luz é a que vem de seu celular na tomada. Você nunca foi tão indiferente para as mensagens nele.

Sua visão é onírica, uma névoa paira no ar. Está escuro – mesmo assim você a vê, uma atmosfera sobrenatural inefável.

Um delicioso medo nasce discretamente em você. Você gosta dele. Ele te desafia; ele quer um pouco mais de você e você quer mais dele.

Então você se põe de pé.

Encaminha-se à porta do quarto e estende a mão para a maçaneta. A certeza de dar de cara com uma figura assassina, a certeza é assoladora.

A porta abre-se, sua alma gela.

Não há nada ali. Porém essa constante premonição emergirá a todo instante, você sabe disso. E essa eventualidade é inebriante para você. O encontro mórbido está marcado, você foi convocado.

Essa presença que te chama não está em seu apartamento; ela te chama para algum lugar, para onde ela habita. Seu chamado é um canto-mudo, sem voz. Mas você pode ouvi-lo. É uma carta de amor cantada e sem assinatura, ela anseia pela sua leitura.

A escuridão tomou conta de tudo, e não, não se trata de uma noite qualquer. É como se nunca tivesse existido luz antes, e o 1º dia da Criação nunca tivesse acontecido. Por sorte seus olhos se adaptaram a essa treva atípica. Os objetos ao derredor não tem contorno definido, são tudo borrões em tons cadavéricos. Um byronista adoraria esse cenário.

Seu corpo então te leva, não é mais você que o leva. Ao passar pela cozinha, o dia 31 de outubro pode ser visto gordamente circulado no calendário de parede. Você mal o nota. Seu braço alcança uma vela no armário, depois busca uma caixa de fósforo ao lado do fogão. Você não questiona, apenas o faz.

“Desça” – você identifica a mensagem da voz silente.

Quanto mais rápido você anda em direção ao elevador, tão maior é o medo de haver um convidado às espreitas, nas suas costas, pronto para sussurrar algo que fará sua espinha gelar e seu coração enfartar.

Lentos passos te conduzem até a porta da sala. Aquilo não é mais uma porta, é um ominoso portal macabro.

Uma luz turva reverbera pelas frestas. É de um vermelho enegrecido, falecido.

Dessa vez não há dúvida: algo te aguarda além da porta.

Sua mão gira a maçaneta de metal adornado. Ela está estranhamente quente, como que viva.

Seu medo te diz para acender as luzes; sua curiosidade o impele a prosseguir. Fosse esse evento noutra época, sua covardia não o permitiria ir tão longe. Entretanto hoje sua coragem é afiada. Você se permite.

A porta abre-se. Uma baforada de ar quente vem em tua direção, como se o que havia ali já tivesse se adiantado elevador abaixo, como um monstro lendário que foge à captura.

A iluminação escarlate, na ante sala do elevador, é obra das velas cor vinho no chão. 03 no total. São parras. Suas parafinas se desmancharam como lava, como se há milênios estivesse queimando.

Você prossegue.

Aperta o botão chamando pelo elevador. E espera.

A eternidade do térreo até o 23º andar, seu andar, te incomoda. Te incomoda até que seu olhar se cruza o olhar âmbar do fogo das velas.

Nada perpassa seu consciente, nada apenas a visão das três pequenas labaredas.

Elas te hipnotizam, até que…

O elevador chega. Antes de nele entrar você mira o trio incandescente uma última vez, te custa sair do estado hipnótico mas você sai.

Adentrar o elevador é como retornar ao mundo real. As lamparinas no teto dele remetem às de uma sala de cirurgia, tudo claro demais. Aborrecedor de tão claro.

Suas pupilas mal podem esperar para a volta ao escuro. Elas clamam por isso.

Irritados que nem você, seus dedos percorrem cegamente o painel de botões, até acharem o “T”. Apertam-no.

Inicia-se a breve viagem.

Os andares passam um a um. É possível ver os números diminuírem conforme a corda de aço libera a descida.

É quando você percebe as lâmpadas perderem força, o cubo de metal que o transportava até o solo interrompe sua diligência.

Você sente uma companhia; é uma súbita certeza: você não está só.

“Por que desse medo?” – seus ouvidos não lhe enganam, ouviram claramente, uma voz tão feminina e adorável que o derrete bem como te assustam; você não sabe de onde ela vem. Um frio na barriga brota – lembranças de uma paixão do colegial.

Mãos de ar fazem cócega em seus ombros, como que um carinho surreal, o de uma sereia.

“Um espírito?”, você indaga-se.

Você não sabe. Só sabe que quer ouvi-la de novo. E de novo. E de novo.

Você torce por outra manifestação.

A luz irrompe no recinto quadrilátero novamente, a descida prossegue. E é como ser jogado do paraíso de volta ao mundo terreno. A sereia mergulhou, você ficou.

O lado nunca saciado de Ulisses agora é seu novo estado de espírito.

– BLACK OUT –

As luzes apagam-se. A descida para de novo.

Uma risada retumbantemente maligna propaga-se. Ela é uma risada, e rindo diz que sua morte é certa.

“Achou mesmo ser merecedor dela? Alma pífia.”

Seu coração dispara, seu corpo congela e seus pelos eriçam-se. Você se mete num dos cantos do elevador, como se isso fosse te salvar. A risada é poderosa e zomba de você, vai tirar-lhe a vida facilmente e zomba de você por isso.

As luzes agora são vermelhas como a de um estúdio de revelação de fotos. Um ensaio em que o modelo, você, pode muito bem morrer.

Você cheira algo alcalino. É sangue. As paredes, o teto e o chão do elevador estão transpirando sangue, como se ele estivesse vivo e agora sangrasse.

Agora o sangue é tanto que ele pinga do teto em você.

Olhos pérfidos abrem-se um a um ao seu redor. Não são em pares, são cada um de um monstro diferente, amarelos, marrons, brancos, todos famintos por você; olhos de olho na sua carne.

“Sacrifício” – “Abatam-no”, é o mantra que eles proferem.

Lanças começam a perfurar e se instalar de um extremo a outro do elevador. A quarta o atinge na mão, prendendo-o a ela. A sétima atravessa seu abdômen, banhando seu estômago de outra coisa que não suco gástrico. Você berra de dor, o sangue jorra.

Você torce duramente para que seja um sonho, para que aquela dor seja fruto do pior pesadelo de sua vida. No seu íntimo você sabe que não é um sonho.

As lâminas então somem e a cor da iluminação é alva mais uma vez. O sangue some, com exceção do seu. Os machucados sangram vertiginosamente. Doem demais.

Desmunido da paixão de outrora, você agora é um mero mortal contente por simplesmente ainda estar vivo.

Por enquanto. O sangramento piora a cada segundo. Você poderia muito bem apagar e não acordar mais.

“Saia daí. Acenda a vela e me chame.”

A voz lhe disse. Era a dela.

O elevador atinge o térreo.

O relógio de parede saguão aponta 2:55 da manhã quando você sai do elevador e faz uma trilha de sangue por onde passa.

Uma vela e uns fósforos podem salvar sua vida. Você torce para que assim seja; eles encontram-se em posse de cada uma das suas mãos cerradas.

Cambaleando para fora da armadilha que o trouxe lá de cima, sem saber muito bem para onde ir.

A visão do sonho vagarosamente se cerrando, sua força vital esvaindo-se. Você sangra como nunca.

“Venha. Serei teu templo.”

E se sua morte for assim, ouvindo essa voz, até que ficaria tudo bem.

Mas não. Essa voz fala do amor. Você a deseja, você quer entrar nela, quer muito.

Um braço sobre a fenda a sangrar, o outro braço suspenso e pintado do líquido do sacrifício, o seu líquido, o seu sacrifício. Uma perna depois da outra, elas deixam o lastro da sua penitência por onde elas te carregam, molhando o chão de sangue. O seu sangue.

“Não posso te ajudar se você não se ajudar” – ela diz em segredo. Ela é irrealizável, ela é mítica. Algo como a mulher que você sempre quis beijar numa chuva de verão; algo como essa dona dum beijo que nunca será seu.

Seu ombro se apoia à parede, sua respiração está cedendo.

“Não me mereça, não me terás; ele te matará.”

Uma lágrima escorre, cai e se mistura a uma pequena porção de seu sangue. Tristeza e dor na mesma poça.

Não, você diz à Morte. E algo de transcendental injeta-lhe uma adrenalina em sua vontade.

Você consegue chegar até o exterior do prédio. Num esforço final você cai de frente. A lua minguante no céu noturno acima.

Um barulho familiar de lâminas emerge. A Morte do elevador ganhou sobrevida. Você a sente se aproximar.

Em desespero, você decide acender a vela ali mesmo. Em movimentos epilépticos, retira um palito da caixa e o risca contra a lixa. A flama dele te diz que há esperança. Ela se encosta ao fio da vela, quando um enxoval de lâminas te acertam no corpo inteiro. Uma delas atravessa seu olho direito e te cega.

Mas a vela está acesa e você a chama.

As lâminas desaparecem, seus ferimentos também.

Ainda deitado, cabeça recostada ao travesseiro duro do cimento, você sente um perfume doce.

Um par de pernas brancas, femininas e nuas caminham em sua direção. Cabelos ruivos longos pendem-na altura dos joelhos.

Você torce para que tenha valido a pena. E apaga.

O sol raia quarto adentro. Você acorda. São 10 da manhã.

Um bilhete repousa na cabeceira. Seu braço o alcança.

Em caligrafia delicada e tinta vermelha ele diz:

“Estarei em todos os seus sonhos.

Irtis”

Foi tão real quanto você pensou.

Seus braços escancaram as janelas. Você nunca odiou tanto a luz do sol.

Agora todos os dias serão uma espera eterna pela noite.

E você mal pode esperar pelo crepúsculo.

Todo filme romântico foi um dia de terror. Se nunca foi de terror, nunca será romântico de verdade. Não existem núpcias sem marcha fúnebre que a preceda. O amor de verdade é o que brinca de vivo e morto: antes de viver, ele morre.

E é assim que esse filme termina: romântico.

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