Iemanjá, a dona de todas as cabeças, por Matê da Luz

Foto Marina Silva

Iemanjá, a dona de todas as cabeças

por Matê da Luz

A Orixa mais sincrética do xirê, Iemanjá é celebrada hoje. Ao logo do dia quero compartilhar ensinamentos, itãs (contos) e impressões sobre os filhos dessa mãe que muitos insistem em descrever somente amorosa e acolhedora mas, assim como as ondas, é movimento puro e tensão.

O candomblé, que é religião oral, transmite conhecimento especialmente em forma de contos, estes que acabam por traduzir e contextualizar as características e potências das forças da natureza para que nós, os reles mortais (ironia, gente, cadê o bom humor?), possamos aprender, aprender e aprender.

Aqui, um dos itãs que mostra um pouco mais desta faceta de Iemanjá.
Itã: Iemanjá enlouquece Oxalá e depois o cura.

Olodumaré fez o mundo e repartiu entre os orixás vários poderes, dando a cada um deles um reino para cuidar. A Exu deu o poder da comunicação e a posse das encruzilhadas. A Ogum, o poder de forjar utensílios para a agricultura e o domínio de todos os caminhos. A Oxóssi, o poder sobre a caça e a fartura. A Obaluaiê, o poder de controlar as doenças. Oxumaré, seria o arco-íris, embelezaria a Terra e comandaria a chuva, trazendo sorte aos agricultores. Xangô recebeu o poder sobre a justiça e sobre os trovões. Oyá reinaria sobre os mortos e teria poder sobre os raios. Euá controlaria a subida dos mortos para o orum, bem como reinaria sobre os cemitérios. Oxum seria a divindade da beleza, da fertilidade das mulheres e de todas as riquezas materiais da Terra, bem como teria o poder de reinar sobre os sentimentos de amor e ódio. Nanã recebeu a dádiva, por sua idade avançada, de ser a pura sabedoria dos mais velhos, além de ser o final de todos os mortais, nas profundezas da terra, onde os corpos dos mortos seriam por ela recebidos. Além disso, do seu reino sairia a lama da qual Oxalá modelaria os mortais, pois Odudua já havia criado o mundo. Todo o processo de criação completou-se com o poder de Oxaguiã, que inventou a cultura material. 

Para Iemanjá, Olodumaré destinou os cuidados da casa de Oxalá, assim como a criação dos filhos e de todos os afazeres domésticos.

Iemanjá trabalhava e reclamava de sua condição de menos favorecida, pois, afinal, todas as outras divindades recebiam oferendas e homenagens enquanto ela vivia como escrava.

Durante muito tempo Iemanjá reclamou dessa condição e tanto falou, tanto falou nos ouvidos de Oxalá, que ele enlouqueceu. O ori (orí, cabeça) de Oxalá não suportou os reclamos de Iemanjá.

Caindo Oxalá enfermo, Iemanjá deu-se conta do mal que fizera ao marido e tratou de curá-lo imediatamente, arrependida e temerosa. Em poucos dias, utilizando-se de banha vegetal (òrí), de água fresca (omí-tutù), de obì (fruta conhecida como noz-de-cola), pombos brancos (eyelé-funfun), frutas deliciosas (esò) e doces (adún), curou Oxalá.

Oxalá, agradecido, foi a Olodumaré pedir para que atribuísse a Iemanjá, o poder de cuidar de todas as cabeças. Desde então Iemanjá recebe oferendas e é homenageada quando se faz o bori (borí, ritual propiciatório à cabeça) e demais ritos à cabeça.

 

 

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