Insatisfações difusas e dificuldades de renovação na política brasileira

Rodrigo Medeiros

Recente pesquisa do Pew Research Center, tornada pública no dia três de junho, revela de fato um quadro complexo no Brasil. Entre os muitos números que constam na pesquisa, chamou a minha atenção que a satisfação com o Brasil começa a perder para a insatisfação a partir de 2012, algo que já sinalizava para um clima de crise institucional entre nós.

As impressionantes manifestações sociais multifacetadas de junho passado, ainda presentes nas insatisfações de muitos, não foram capitalizadas pelas oposições políticas em 2014. Os institutos de pesquisa de opinião têm avaliado que mais de dois terços querem mudanças e ainda assim o ex-presidente Lula é encarado por mais de 50% dos cidadãos como o maior eleitor potencial deste ano.

No levantamento do Pew, 85% mostraram grande preocupação com a inflação e a apontaram como o maior problema nacional. Dois terços manifestaram preocupações com as dificuldades de ascensão profissional e com as desigualdades socioeconômicas. Mais de 70% também revelaram preocupações com a corrupção, a insegurança pública e a saúde. Sabemos muito bem que essas questões perpassam as três instâncias de governos em nosso país.

José Roberto de Toledo, colunista do Estadão, escreveu recentemente sobre os herdeiros da renovação política no Brasil. Em síntese, “o poder herdado é uma grande herança no Brasil”. Citando a Transparência Brasil, Toledo aponta que o parentesco é uma poderosa alavanca na política brasileira. No Nordeste, por exemplo, a eleição para a Câmara dos Deputados é uma questão familiar para a média de 60%. Esta não é uma questão exclusivamente nordestina, pois em nenhuma região brasileira há menos de um terço de deputados parentes de outros políticos. A hereditariedade está bem presente nos partidos políticos brasileiros, a instituição de menor credibilidade social, de acordo com o Ibope.

Segundo afirmou Toledo, “difícil crer que seja tão simples assim renovar a política”. Afinal, são os neófitos os maiores beneficiários da política familiar. Entre os deputados federais de primeiro mandato, 70% têm parentes na política. O Congresso Nacional e os partidos políticos são as instituições que ocupam os dois últimos lugares no índice de confiança social nas instituições medido anualmente pelo Ibope. As outras instituições analisadas pelo Ibope, incluindo os meios de comunicação, o Poder Judiciário, os sindicatos e os bancos, também sofreram abalos na credibilidade. Vivemos tempos interessantes, mas também preocupantes.

Rodrigo Medeiros é professor do Ifes (Instituto Federal do Espírito Santo)   

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