Instituto Lula discute integração latino-americana

Encontro fechado para lideranças de movimentos sociais abordará perspectivas para unir agendas

O Instituto Lula organiza para esta terça-feira (28), em São Paulo, um encontro com 37 movimentos sociais, entre centrais sindicais, ONGs e coletivos. O objetivo do evento, reservado apenas para convidados, é debater os desafios e perspectivas da integração latino-americana.

Em entrevista, feita por e-mail, o diretor do instituto, Luiz Dulci, destacou que a proposta geral, que começou a ser delineada há cerca de dois meses, é evitar que a integração da América Latina, ocorra apenas entre empresas e Estados da região. Daí a necessidade do encontro, para se estudar formas de garantir participação de movimentos sociais e da sociedade civil, como um todo, nesse processo.

A tentativa de unir economicamente os países da região latino-americana vem desde os anos 1960, com a criação da ALALC (Associação Latino-Americana de Livre Comércio), substituída em 1980 pela ALADI (Associação Latino-Americana de Integração).

Em princípio o debate realizado no Instituto Lula será feito entre organizações brasileiras, algumas com atuação na América Latina. Dulci destaca que é perceptível a crescente integração de agendas sociais dos países do continente, em especial, no que diz respeito à democracia participativa.

“Por outro lado, aumentou muito a migração e a circulação de trabalhadores na região, o que nos obriga a discutir desde as questões humanitárias até a legislação trabalhista e previdenciária”, pondera.

Acompanhe a entrevista.

Brasilianas.org – Qual é o objetivo do encontro dessas lideranças, que representam coletivos, ongs, sindicatos e movimentos sociais no país?

Luíz Dulci – O Instituto Lula tem duas linhas de atuação internacional, uma voltada para a América Latina e a outra para a África. No caso da América Latina, nosso foco é a integração. Queremos contribuir para que ela não seja apenas dos Estados e das empresas, o que sem dúvida é importante, mas não é suficiente. Uma integração efetiva precisa ser também dos povos, das pessoas. Para isso, a participação da sociedade civil é fundamental. Daí a ideia de discutir com os movimentos sociais brasileiros os desafios e perspectivas da integração. Depois, pretendemos fazer a mesma discussão com outros setores, os intelectuais, os artistas, a juventude etc. Na medida do possível, vamos também realizar eventos com convidados de outros países da região.

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Há quanto tempo o Instituto Lula vem planejando esse encontro? É o primeiro?

É o primeiro. Faz uns dois meses que ele está sendo organizado. Se houver interesse das entidades, poderá, quem sabe, ocorrer periodicamente.

Já existe uma agenda com os pontos que pretendem abordar no encontro, a partir do tema proposto “A integração latino-americana”? É possível adiantar os principais deles, mesmo que de forma generalizada?

Queremos, em primeiro lugar, ouvir a opinião dos movimentos populares e das ONGs. Vários deles já tem atuação na América Latina e outros estão planejando engajar-se em processos de integração. Pelo que vejo, está crescendo a ideia de uma “integração ampliada”, que tenha a agenda social como fio condutor, tanto no que diz respeito às políticas sociais quanto à democracia participativa. Por outro lado, aumentou muito a migração e a circulação de trabalhadores na região, o que nos obriga a discutir desde as questões humanitárias até a legislação trabalhista e previdenciária.

Por que discutir a integração da América Latina entre movimentos tão distintos no Brasil? Qual é a perspectiva de, do encontro, surgir uma espécie de proposta capaz de atingir ou comover os movimentos e entidades sociais de outros países no sentido de integrar a América Latina?

O Brasil tem um papel inegável na união da América do Sul e de toda a América Latina. Não queremos hegemonizar, mas não podemos nos omitir. Isso vale para o Governo, mas vale também para outros atores, como os movimentos sociais. Quem visita os países da região, percebe que há uma demanda pela iniciativa brasileira em diversas questões. Nossas organizações populares podem ampliar – e muito – a sua cooperação com entidades similares dos países vizinhos. O desejo de integração é muito forte, as causas comuns existem, mas é preciso intensificar e dar maior abrangência às iniciativas de parceria propriamente popular.

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A internet, pelo menos no Brasil, vem contribuindo bastante com o fortalecimento de movimentos sociais, em rede,  mais transversais. Vocês consideram o papel da web como importante na discussão que propõem, ou seja, do quanto os movimentos sociais podem contribuir para superar os desafios de integrar a América Latina?

Sem dúvida. A internet pode ser decisiva nesse esforço de integração “de baixo para cima”. Ela abre possibilidades inéditas para o diálogo direto dos cidadãos e dos grupos sociais de nossos países. Os movimentos populares podem incrementar o seu intercâmbio internacional via internet. Isso, na verdade, já está acontecendo. A internet é relativamente mais barata e muito menos monopolizada. Certas bandeiras da sociedade civil, que nunca foram difundidas pela grande imprensa, alcançam enorme repercussão nas redes sociais.

O que de semelhante a proposta do Instituto pode ter com a proposta da Cúpula dos Povos, composta por distintos movimentos, estudantes, trabalhadores, artistas, até mesmo líderes religiosos, representantes das populações indígenas, mulheres, juristas, defensores dos direitos humanos etc, com o objetivo de apontar as várias faces da exclusão social e a demanda de novos direitos?

Os movimentos sociais possuem as suas próprias articulações setoriais e gerais e o nosso objetivo é de somar forças, respeitando e valorizando a sua autonomia. O Instituto Lula não pretende, de modo algum, substituir as instâncias do movimento social e sim contribuir para fortalecê-las e ampliá-las. Da mesma forma que Lula fez com o Fórum Social Mundial, por exemplo, apoiando – o e ajudando a viabilizá-los, mas sem interferir na sua dinâmica interna.

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