Internet: o que devemos temer é apenas nosso próprio temor

O GGN deu bastante destaque à entrevista de Nicolelis. Como discordo do que ele disse resolvi fazer uma réplica ao eminente cientista.

“Nicolelis entrou na sua área de conhecimento, sobre o potencial intuitivo do cérebro humano, condição que jamais um computador será capaz de emular, porém ressaltou a preocupação do fenômeno de sincronização de pensamentos, por conta do uso cada vez mais constante da internet e redes sociais. Esse novo modelo de comunicação, rápido o suficiente para acompanhar o funcionamento cerebral, estaria trazendo prejuízos à capacidade de reflexão dos indivíduos, lembrando que, na obra “Understanding Media”, dos anos 1960, o teórico da comunicação, Marshall Mcluhan, já alertava para isso.

‘Ele previu que os grupamentos sociais iam começar a fragmentar a sociedade, porque os grupos de interesse iam começar a se auto referenciar no momento em que houvesse um meio de mídia capaz de ser rápido o suficiente para sincronizar as pessoas na ordem da magnitude de funcionamento do cérebro’.

https://jornalggn.com.br/noticia/exclusivo-nicolelis-alerta-para-as-crises-politica-e-da-razao-humana-0

Sincronização de pensamentos, limitação da capacidade da capacidade de reflexão dos indivíduos… Resumindo, Nicolelis teme o renascimento do fascismo. Francamente, não consigo ser tão pessimista.

De fato, a sincronização de pensamentos e a limitação da capacidade de reflexão dos indivíduos podem perfeitamente ser concretizadas sem a ajuda da internet. Quem duvidar disto pode ir a qualquer igreja evangélica e testemunhar a que ponto chega o poder de sedução e de massificação de qualquer pastor experiente.

Primeiro o pastor desvia a atenção dos presentes do aqui e agora, dos seus próprios problemas mundanos, repetindo passagens da Bíblia para elevá-los à uma única realidade mítica compartilhada. Depois ele exorciza as fragilidades humanas levando os presentes a se despir de suas consciências críticas para ao final levar a platéia ao frenesi. Momento em que ele supostamente se torna capaz de libertar todos de seus pecados, limitações, doenças, temores, etc… Não por acaso o pastor utilizando este momento de bloqueio da capacidade crítica e sincronização de pensamentos para arrecadar dinheiro para si mesmo e para os donos da sua franquia religiosa.

Dificilmente algo semelhante pode ser reproduzido na internet. Cada internauta navega na rede com total liberdade. E isto não só reforça a capacidade crítica como impede o renascimento do fascismo. No limite, a própria internet possibilita o combate à sincronização de pensamentos e a limitação da capacidade de reflexão porque nela nenhum pastor conseguiria domesticar todos os internautas ao mesmo tempo como é possível fazer num ambiente de confinamento coletivo temporário sem acesso à rede mundial de computadores.

A internet facilita a atividade intelectual. E esta é “… ao mesmo tempo distinta e indistinta do fluxo móvel dos nossos restantes estados de consciência.” (O homem, esse desconhecido, Alexis Carrel, Publicações Europa-América, Portugal, 1989, p. 119). Quando pulamos de uma página para outra e nos manifestamos sobre os conteúdos a que tivemos acessos “… a atividade intelectual projeta as suas visões no fundo em constante movimento dos nossos estados afectivos, da nossa dor ou da nossa alegria, do nosso amor ou do nosso ódio.” (O homem, esse desconhecido, Alexis Carrel, Publicações Europa-América, Portugal, 1989, p. 119) sem que haja um único centro de interesse ou de informação ou uma única pessoa capaz de explorar nossas fragilidades humanas para delas tirar algum tipo de proveito como ocorre numa igreja evangélica.

O temor do fascismo é saudável. Mas nunca é demais lembrar que o fascismo ocorreu num passado distante em que os veículos de comunicação eram unidirecionais e podiam ser facilmente controlados, manipulados e submetidos à censura por governos autoritários. Não obstante, até mesmo na Alemanha Nazista, na Itália Fascista e na França de Vichy existiram grupos de pessoas que não se deixaram influenciar pela massificação, muitos dos quais tiveram coragem de combater o autoritarismo sorrateira ou abertamente. Não me parece que seja possível ou fácil controlar e censurar a internet.

Discorrendo sobre a evolução dos suportes de textos, diz Roger Chartier:

“A revolução do texto eletrônico é, de fato, ao mesmo tempo, uma revolução técnica de produção dos textos, uma revolução do suporte do escrito e uma revolução das práticas de leitura. São elas caracterizadas simultaneamente por três pontos fundamentais que transformam profundamente nossa relação com a cultura escrita. Em primeiro lugar, a apresentação eletrônica do escrito modifica radicalmente a noção de contexto e, ainda, o próprio processo da construção do sentido. Ela substitui a contiguidade física que aproxima os diferentes textos copiados ou impressos num mesmo livro pela sua distribuição móvel nas arquiteturas lógicas que comandam as bases de dados e as coleções digitalizadas. Além disso, ela redefine a materialidade das obras porque desfaz o elo imediatamente visível que une o texto e o objeto que o contém e porque proporciona ao leitor, e não mais ao autor ou ao editor, o domínio da composição, o recorte e a própria aparência das unidades textuais que deseja ler. E assim, todo o sistema de percepção e de manejo dos textos que é transformado. Enfim, ao ler na tela, o leitor contemporâneo reencontra algo da postura do leitor da Antiguidade, mas  – e a diferença não é pequena – ele lê um rolo que em geral se desenrola verticalmente e que é dotado de todos os pontos de referência próprios da forma do livro, desde os primeiros séculos da era cristã: paginação, índice, tabelas, etc. O cruzamento das duas lógicas que regulamentam os usos dos suportes precedentes do escrito ( o volumem, depois o códex) define de fato uma relação com o texto totalmente original.” (Os desafios da escrita, Roger Chartier, Editora Unesp, São Paulo, 2002, p. 113/114)

As objeções de Nicolelis ao texto virtual é curiosa. Lembra um pouco a resistência ao códex por parte daqueles que produziam e estavam acostumados a utilizar o volumem. Não só isto, o grande cientista brasileiro parece ignorar o fato de que todas as tiranias queimaram livros. Algo que não pode ocorrer quando o próprio livro se transformou um objeto imaterial (um arquivo digital) capaz de ser compartilhado e novamente impresso (caso o leitor não queira ler o texto na tela).

Nunca é demais lembrar, também, que a internet não foi e provavelmente não será capaz de substituir totalmente o texto impresso. De fato, livros continuam sendo escritos, editados, publicados e comercializados. Como diz Umberto Eco “… o bibliófilo também sabe que o livro terá longa vida, e percebe isso justamente ao examinar com olhos amorosos as próprias estantes. Se tivesse sido gravada, desde os tempos de Gutenberg, em suporte magnético, toda aquela informação que ele acumulou teria conseguido sobreviver por duzentos, trezentos, quatrocentos, quinhentos, quinhentos e cinquenta anos? E teria sido transmitida antes de nós, com os conteúdos das obras, as marcas de quem as tocou, compulsou, anotou, atormentou e muitas vezes sujou com impressões de polegar? E alguém poderia apaixonar-se por um disquete como se apaixona por uma página branca e dura, que faz crac-crac sob os dedos como se acabasse de sair da prensa?” (Memória Vegetal, Umberto Eco, editora Record, Rio de Janeiro, 2010, p. 53/54).

Aos inimigos da internet costumo contar uma história exemplar que ocorreu comigo. Há alguns anos comprei num sebo uma maravilhosa edição em dois volumes luxuosos de Los Nueve Libros de la Historia, Heródoto, editora Iberia, Obras Maestras, Barcelona, Espanha, 1955. Ao chegar em casa vi, horrorizado, que a página 433/434 do segundo volume estava parcialmente rasgada.

Uma verdadeira lástima. Amante de livros, fiz um esforço para salvar minha aquisição. Visitei, sem êxito, algumas bibliotecas com a esperança de encontrar a mesma edição a fim reproduzir as páginas danificadas. Foi justamente na internet que encontrei a referida obra digitalizada. A mesma edição estava disponibilizada na biblioteca virtual do governo da Argentina e isto me possibilitou imprimir o texto e reparar o volume danificado.

Os Nove Livros da História percorreram, portanto, um caminho exemplar. Eles foram originalmente escritos em volumem por Heródoto, copiados neste formato até serem transformados em codex e chegaram até mim como arquivo digital para serem parcialmente impressos. Usando a internet não experienciei nem a sincronia de pensamentos, nem limitação da capacidade crítica. Muito pelo contrário. No meu caso, a internet tem sido capaz de produzir exatamente o oposto: liberdade de reflexão crítica e pensamento criativo.

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