IPCC apóia interesses políticos, diz pesquisador

Organizações ambientais em todo o mundo pressionam as maiores nações para que estabeleçam metas quantitativas de redução dos gases de efeito-estufa emitidos pelas principais atividades econômicas: pecuária extensiva, desmatamento e consumo de combustíveis fósseis.

Se o mundo for capaz de reduzir a concentração do principal gás que compõe a camada de efeito-estufa, dióxido de carbono (CO2), de 350 partes por milhão (ppm), para a quantidade correspondente no início do século XX, 278 ppm, as mudanças climáticas previstas para os próximos anos deverão ser freadas.

Mas para o especialista que compõe o grupo dos 17 cientistas brasileiros signatários do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima (IPCC), Odo Primavesi, é falso afirmar que o aquecimento global seja causado apenas pelo gás carbônico.

O engenheiro agrônomo aposentado da Embrapa Pecuária Sudeste, diz que medições permitem concluir que o CO2 é responsável por apenas 30% das mudanças climáticas registradas nos últimos 100 anos. “Os gases de efeito estufa não geram calor, somente retém parte do calor irradiado pela superfície terrestre”, avalia.

O cientista diz que o IPCC falha por não se aprofundar em estudos sobre os demais fatores resultantes do aquecimento global, o que, em parte, estaria ocorrendo por interesses de investidores do relatório.

A seguir, acompanhe a íntegra da entrevista que Primavesi nos concedeu por e-mail:

Aquecimento global é uma farsa?
OP – Não exatamente. O que é falso dizer é que o aquecimento global seja causado somente pelo gás carbônico.

O que fornece energia para produzir calor?
OP – Os gases de efeito estufa não geram calor, eles somente retém parte do calor irradiado pela superfície terrestre que foi atingida pela radiação solar, ou aquecida por atividades internas da Terra, decorrente da energia liberada por erupções vulcânicas, fontes de água quente, superficiais ou submarinas, por atividade de atrito de placas tectônicas, por irradiação de calor magmático, onde a litosfera é menos espessa.

O que fornece a maior parte da energia é o Sol, que atua de forma dinâmica, diminuindo ou aumentando a intensidade de energia enviada, e que correlaciona com as manchas solares, num ciclo menor de 11 anos e maior de 90 anos.

O que pode interceptar os raios solares que vão gerar calor?
OP – O vapor de água condensado na forma nuvens. Nuvens espessas, de cor branca, têm albedo(*) alto no seu topo (da terra parecem negras) e refletem radiação solar de volta ao espaço. Áreas brancas, como aquelas cobertas de gelo e neve ou outras superfícies claras, também refletem radiação solar. Por exemplo, aquelas pedras claras no entorno de piscinas chegam a cegar a vista sem óculos escuros, pois refletem radiação solar.

(*) Albedo: superfície de áreas claras que refletem radiação solar (geleiras, desertos, etc).

Só que as nuvens são dinâmicas, podendo aumentar e diminuir de tamanho, alterando assim a quantidade de energia solar que entra na região estudada. Onde não têm nuvens, há entrada de toda a energia solar. Por sua vez, no pico do verão da Amazônia Equatorial, ocorrem os dias mais frios por causa da presença de nuvens que não permitem a entrada do calor vindo do Sol.

O que ajuda a formar nuvens?
OP – A presença de núcleos de condensação que ocorrendo em ar saturado com vapor de água (ponto de orvalho) na presença de frio como em maior altitude (mais frio) ou com entrada de massas de ar frio, condensa formando nuvens. Existem vários elementos que atuam como núcleo de condensação, como aerossóis emitidos por plantas terrestres e oceanos, o efeito de radiação cósmica (que sofre interferência da atividade solar e dos ventos solares de modo inverso), fumaça de queimadas, cristais de prata e de gelo, entre outros.

O vapor de água não pertence ao grupo dos gases de efeito estufa?
OP – Sim, pertence, e é o gás ocorrente em maior quantidade na atmosfera, ajudando a reter o calor irradiado pela superfície terrestre atingida por radiação solar. Em noites nubladas não ocorre geada, são mais quentes, por exemplo.

Então o vapor de água pode agir de formas contrárias?
OP – Sim, pode reter calor (radiação de ondas longas ou ROL) quando na forma de vapor ou nuvem pouco espessa, e esfria ao evitar a entrada de radiação solar (radiação de ondas curtas). As ondas curtas atravessam a camada de gases de efeito estufa, as ondas longas não. Mas as superfícies claras, de maior albedo, como o topo de nuvens espessas (também telhados e casas pintadas de branco, palha de restos vegetais) intercepta e reflete as ondas curtas.

E os outros gases de efeito estufa?
OP – Não atuam em duplo, como o vapor da água que pode resfriar ou aquecer o local. Eles impedem que a radiação infravermelha (ondas longas) produzida pelo Sol, incida diretamente sobre a superfície terrestre. Ao mesmo tempo, retém parcialmente a radiação infravermelha (ondas longas) produzida pela superfície terrestre e estimulada pela radiação solar visível de ondas curtas que conseguem entrar no Planeta.

Qual é então o problema dos outros gases de efeito estufa: gás carbônico, gás metano, óxido nitroso, ozônio e outros?
OP – Seu aumento agrava situações de retenção de calor quando em maior concentração. O problema é que a presença desses gases é menos dinâmica que o do vapor de água, e retém calor até em regiões que não estão nubladas e nas quais a radiação solar entra com maior intensidade, como nas regiões áridas, semi-áridas, em processo de arenização e áreas degradadas, que já somam 47% da superfície terrestre continental. Os modelos de simulação mostram que esses gases explicam somente 30% do aquecimento global e as mudanças climáticas.

E quais são essas áreas que produzem mais calor?
OP – Os oceanos são os grandes acumuladores de calor e reguladores gerais do clima global, mas o calor em excesso (acima de 300 W/m2) são produzidos por regiões áridas, semi-áridas, em processo de arenização e áreas degradadas (inclui áreas urbanas). Fotos de satélite mostram essas regiões que irradiam ondas longas (ROL; ou radiação de calor ou radiação infravermelha) em excesso, mais do que os oceanos.

Então o aumento de gás carbônico é inócuo, é blefe?
OP – Não, agrava uma situação de degradação ambiental que vem aumentando, mas não é a causa única. Áreas degradadas são mais secas e não têm água para formar nuvens, e por isso esquentam mais e irradiam mais calor, ficando assim maior quantidade de calor retida pelos gases de efeito estufa. Um dos sinais de que a concentração de gás carbônico está ficando insustentável é a acidificação dos oceanos, um sinal vermelho para a vida marinha útil para a indústria pesqueira e nossa alimentação.

Mas o aumento da concentração de gás carbônico não é benéfica para a produção de plantas?
OP – Depende. Se houver água disponível e equilíbrio adequado entre céu coberto por nuvens e céu limpo, pode haver vegetação mais exuberante, como realmente está ocorrendo em algumas regiões, conforme imagens de satélite. Agora, nuvens em excesso no tempo, por exemplo, uma semana seguida ou mais, resultam em falta de energia solar para as plantas realizarem a fotossíntese. Assim, se a concentração de gás carbônico aumentar e isso resultar em mais calor, que evapora mais água formando mais nuvens, ou quando não tiver muita água no solo, vai ocorrer falta de água para as plantas, e a produção fica prejudicada.

Existe a necessidade de um equilíbrio para tudo. Pequenos excessos ou faltas geram prejuízos. Além disso, aumentos locais e regionais de temperatura, podem afetar a produção agrícola, na base de 11% a menos para cada grau Celsius acima da temperatura máxima adequada para a cultura.

É verdade que o aumento do calor aumenta a emissão natural de gás carbônico pela natureza?
OP – Sim, pois acelera os processos de degradação e reciclagem de restos vegetais e animais.

É verdade que o foco da causa do aquecimento global às custas do gás carbônico é político?
OP – Tudo no mundo é regido por políticas, que agem de acordo com pressões de interesses econômicos, e às vezes políticos. Assim, por algum interesse político-econômico elegeram o gás carbônico como vilão a ser combatido.

Foi financiado um grande esforço para destrinchar os gases de efeito estufa. Foi um trabalho interessante, pois gerou dados básicos, padronizados, e mostrou lacunas de pesquisa, e abriu uma nova frente de trabalho ampliando o interesse por estudos em uma nova área, com uma visão mais ampla. Falhou em afirmar categoricamente que os gases de efeito estufa sejam a causa principal e não foi permitido mostrar o quadro mais amplo e completo da situação real.

O relatório do IPCC é um relatório que apóia interesses políticos, e é falho do ponto de vista científico?
OP – Sim. Foi financiado por governos e organizações econômicas (indústrias) e foi realizado centrado em um foco, o do gás carbônico, e outros gases de efeito estufa, não no vapor de água. Todos os outros aspectos não foram considerados.

Se considerarmos o foco gás carbônico, o trabalho ficou excelente, constitui uma excelente fonte de consulta. Se considerarmos a questão aquecimento global, ficou falho. Um relatório desses gera inúmeras paginas, por exemplo, 500 páginas em um capítulo, e que no final precisa ser reduzido para 50 ou 100 páginas por questões de facilidade de leitura e de custos. E depois esse relatório reduzido é submetido ao crivo de censores políticos (governos) e econômicos (indústria) que mandam retirar palavras e frases e ideias que não interessam.

Esses censores agem de modo político-econômico, e não necessariamente cientifico. Durante a elaboração dos textos já existe pressão econômica (indústria) para se incluir ou excluir aspectos de interesse. Se não forem feitos os ajustes “sugeridos” pelos censores, os governos financiadores não assinam o relatório e não autorizam sua publicação.

Passei por dois processos internacionais similares e sempre foi assim. Não foi um produto gerado por associações cientificas, que falham tremendamente em não assumirem algo similar em nível nacional e global. Sinto essa falha grave no Brasil. A produção de um relatório cientifico discutido, padronizado, unificado por assunto nacional (não somente do aquecimento global, mas como reter o avanço de áreas degradadas e a desertificação no Brasil), e por cientistas de diferentes áreas de conhecimento, vai mostrar onde há falta de pesquisa e onde há excesso de informação sobreposta – isso iria promover o avanço da ciência e da inovação tecnológica regional e nacional.

A ciência pode ser manipulada por interesses políticos-econômicos?
OP – Sim, infelizmente. Cientistas por vezes são obrigados a mudar os resultados de pesquisa ou engavetá-los quando não se enquadram em interesses políticos-econômicos.

O foco do gás carbônico como causador do aquecimento global tem como interesse político impedir o desenvolvimento de países mais pobres?
OP – Isso parece não ser verdade. Vemos muitos paises de primeiro mundo mudando para energias alternativas utilizando energia dos ventos, do Sol e das ondas do mar. O problema das industrias que usam combustíveis fosseis é a poluição que adoece e mata população, trazendo impacto econômico negativo muito grande sobre as finanças dos governos. Pessoas doentes e mortas não geram riqueza.

Os grupos de ambientalistas são anti-desenvolvimentistas e anti-globalização, ao querer voltar a um modo de vida medieval?
OP – Ninguém falou em medieval. Falou-se em diferente, em mudanças para um modo de vida melhor, mais limpo e saudável, menos perdulário e menos estressado. Existem alternativas diferentes que incluem as pessoas, sócio-economicamente. As tecnologias verdes geram muitos empregos e novos nichos de mercado, que estão sendo explorados inteligentemente por europeus e asiáticos, e que já estão começando a dominar o mundo nessa área. Enquanto isso, nós ficamos discutindo se essa luta impede ou não o desenvolvimento e paramos no tempo.

Acho que existe uma grande resistência das forças econômicas e políticas atuais às mudanças. Essas forças assinam seu atestado de falência, pois novos produtos e processos vão substituir os antigos. É a evolução, o desenvolvimento. Desenvolvimento não é mineração e destruição leviana de recursos naturais existentes, que um dia acabam. E depois?

No caso de ecossistemas minerados e destruídos, isso se chama de regressão ecológica, produção de áreas degradadas, semi-áridas, desertificadas, impróprias à vida e à produção sustentável.

E a ampliação das áreas degradadas pode trazer complicações para a qualidade de vida?
OP – Certamente. Vivemos um modelo econômico perdulário no uso de recursos naturais e de insumos, e, além disso, é um grande poluidor. A degradação de áreas gera falta de água, aumento de calor, redução na capacidade de produzir alimentos e de água limpa, e mudanças climáticas locais e regionais desastrosas, alternando enchentes e secas. Nada a ver com aquecimento global e mudanças climáticas globais. Por exemplo, as práticas agrícolas que seguem esse modelo perdulário não promovem desenvolvimento, em realidade promovem uma regressão ecológica. O que isso significa? Ganhos altos em curto prazo, mas que não são duradouros, não são sustentáveis, e resultam em aumento da miséria a médio e longo prazo.

Existe realmente o aquecimento global provocado pelo homem, antrópico?
OP – Sim, de forma local e regional, e agora de forma global. A geração de áreas degradas pela ação do homem vem ocorrendo nos últimos 10 mil anos e se ampliou nos anos mais recentes, em especial, nas regiões tropicais e subtropicais. Essas áreas são mais secas e geram menos nuvens, permitem a entrada de mais radiação solar e geração de mais calor, que com o aumento da concentração de gases de efeito-estufa é impedido de ser irradiado totalmente para o espaço sideral.

Tem-se verificado que o albedo da Terra, está diminuindo, ou seja, tem diminuído a superfície de áreas claras que refletem radiação solar. Especialmente com menos áreas cobertas por nuvens, pois tem menos vegetação evapotranspirando, e solos mais impermeabilizados armazenam menos água de chuvas para essa finalidade.

Fotos de satélite mostram que ocorrem períodos em que o clima de regiões do Sudeste, Centro-oeste e Sul brasileiros se comportam como regiões do Semi-árido nordestino. Áreas degradadas são aquelas que têm os processos chamados de serviços ecossistêmicos ou serviços ambientais naturais reduzidos ou desligados pela destruição da estrutura ambiental necessária para que ocorram: água residente armazenada em solos permeáveis mantidos por uma cobertura vegetal permanente, e diversificada com seus resíduos e suas atividades radiculares. Isso resulta em aumento das amplitudes térmicas (ondas de calor e de frio em qualquer estação do ano), de umidade relativa do ar (muito úmido e muito seco), de distribuição de chuvas (intensas e curtas seguidas de períodos secos), entre outros. Tudo isso sob uma mesma atividade solar – o Sol não é o culpado pelas desgraças que estamos vendo pelo mundo, a culpa é da ação inadequada, irracional mesmo, do manejo dos recursos naturais e dos insumos.

Tem como reduzir esses problemas?
OP – Sim. Mas falta vontade política e articulação da sociedade civil e científica. Precisamos certamente lançar menos gases de efeito estufa na atmosfera, e mais, temos que parar de gerar áreas degradadas, e recuperar as áreas já degradadas, que atualmente cobrem 47% das superfície continental e está aumentando a toque de caixa, numa competição insana para ver quem consegue degradar mais e mais rápido, pela mineração ou simplesmente destruição dos recursos naturais. Temos que recuperar os serviços ecossistêmicos degradados ou mesmo destruídos.

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